Por Solon Saldanha *
Em declarações agressivas durante evento na Casa Branca, o presidente dos EUA estabeleceu ultimato para a reabertura do Estreito de Ormuz, enquanto a oposição brasileira e partidos de esquerda condenam a retórica de ataques a alvos civis.
Ultimato e Desumanização no Discurso
O presidente Donald Trump elevou o tom das ameaças contra o Irã nesta segunda-feira (6), durante o tradicional evento de Páscoa da Casa Branca. Ao ser questionado sobre a legalidade de possíveis ataques a infraestruturas civis — ato que poderia ser tipificado como crime de guerra pelo Direito Internacional —, Trump justificou sua posição utilizando termos desumanizadores, referindo-se aos iranianos como “animais”.
O republicano afirmou não estar preocupado com as advertências de tribunais internacionais, reiterando que o Irã tem até esta terça-feira (7) para reabrir totalmente o Estreito de Ormuz. Caso o prazo não seja cumprido, o presidente ameaçou lançar uma ofensiva sem precedentes, afirmando que o país “pagará um grande preço” e que os EUA estariam prontos para “tomar o petróleo” se não houvesse resistência interna da opinião pública norte-americana ao prolongamento do conflito.
Fracasso na Mediação Internacional
Apesar de admitir que Teerã parecia negociar “de boa fé” em certos momentos, Trump confirmou a rejeição de uma proposta de cessar-fogo mediada pelo Paquistão. O chamado “Acordo de Islamabad” previa uma trégua imediata em troca de compromissos iranianos contra o desenvolvimento nuclear.
- A posição dos EUA: Trump classificou o gesto como significativo, mas “insuficiente”, mantendo o desejo de uma vitória definitiva em vez de uma trégua temporária.
- A posição do Irã: A agência estatal IRNA confirmou que Teerã também recusou os termos, alegando que apenas o fim total das sanções e do conflito, e não uma pausa para o rearmamento das forças americanas, seria aceitável.
Repercussão na Política Brasileira: A Reação da Esquerda
No Brasil, a retórica de Trump gerou reações imediatas entre os partidos de esquerda e centro-esquerda, que buscam distanciar a diplomacia brasileira do alinhamento automático com as políticas de força de Washington.
- Frente Parlamentar Progressista: Lideranças do PT e do PSOL protocolaram notas de repúdio no Congresso, classificando as falas de Trump como uma violação direta da Convenção de Genebra. Para o campo progressista, a normalização de ataques a alvos civis abre um precedente perigoso para a segurança global.
- Movimentação no Itamaraty: O PDT e o PSB pressionam o governo para que o Brasil adote uma postura de neutralidade ativa, defendendo nos fóruns internacionais que a crise no Estreito de Ormuz seja resolvida via ONU, e não por ultimatos unilaterais.
- Crítica Estratégica: A esquerda brasileira argumenta que a escalada do conflito impactará diretamente os preços dos combustíveis e a inflação interna, defendendo que o interesse nacional reside na estabilidade do mercado de energia e no respeito à soberania das nações.
O Estreito de Ormuz e a Economia Global
O Estreito de Ormuz é a artéria mais vital do mercado petrolífero mundial, por onde transita aproximadamente 20% do consumo global de petróleo bruto. O fechamento da via e a ameaça de destruição da malha civil iraniana — que inclui pontes e usinas elétricas — colocam o mundo à beira de um choque energético. Com o prazo final expirando nesta terça-feira, a comunidade internacional observa com cautela se o ultimato resultará em uma ofensiva militar ou se ainda há espaço para uma última rodada de negociações de bastidores.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Donald Trump. Crédito: reprodução Wall Street Journal




