Até o momento em que escrevo este artigo é de quase quatro mil e quinhentos o número de desaparecidos e contabilizados quase mil mortos na tragédia do Himalaia. Grande parte são turistas que visitavam o Nepal e o Tibete, atraídos pela aura de espiritualidade e mistério que cerca estes dois países.
O desastre representa muito mais do que uma tragédia local pois atesta um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade no século 21: a adaptação a um planeta em aquecimento. Embora fatores geológicos e naturais façam parte da dinâmica das montanhas do Himalaia, o consenso científico avisa que as mudanças climáticas estão aumentando os riscos e a intensidade desses acontecimentos dramáticos cujo roteiro está traçado e é conhecido por todos os que estão atentos às mudanças do clima.
O Nepal é um país localizado no coração da cordilheira do Himalaia e tem enfrentado nos últimos anos uma sucessão de eventos climáticos extremos. Neste agosto de 2026, uma das maiores tragédias recentes da região ocorreu quando o colapso de uma massa de gelo e rocha desencadeou enchentes e deslizamentos devastadores na fronteira entre o Nepal e o Tibete, causando a destruição de vilas, pontes e usinas hidrelétricas.
Uma enorme avalanche de gelo e rochas se desprendeu de uma área glacial próxima à fronteira do Nepal com a China. Bloqueou um rio de montanha e, quando a barreira natural se rompeu, uma gigantesca onda de água, lama e detritos avançou pelos vales, destruindo tudo em seu caminho.
É uma tragédia que vem como um alerta para todo o planeta. O que acontece nas montanhas do Himalaia não afeta apenas os habitantes locais. Revela os riscos crescentes de um mundo cada vez mais quente. O aumento das temperaturas está acelerando o derretimento de geleiras, alterando os padrões de chuva e aumentando a frequência de eventos extremos.
Pesquisadores afirmam que as mudanças climáticas estão a provocar esse tipo de evento. O aumento das temperaturas provoca o derretimento acelerado das geleiras, reduz a estabilidade de encostas congeladas e aumenta a quantidade de água armazenada em lagos glaciais. A região do Himalaia está aquecendo mais rapidamente do que muitas outras partes do planeta. Como resultado, as suas geleiras estão recuando em ritmo acelerado e os riscos de enchentes, deslizamentos e avalanches aumentam a cada ano.
Terceiro Polo
O Himalaia é chamado de terceiro polo da Terra porque tem a maior concentração de gelo fora das regiões polares. Suas geleiras formam rios essenciais para bilhões de pessoas em países como o Nepal, Índia, China, Bangladesh e Paquistão.
O desaparecimento gradual das geleiras altera ecossistemas inteiros. Espécies adaptadas ao frio extremo encontram cada vez menos habitat adequado, enquanto comunidades humanas tradicionais precisam adaptar seus modos de vida às novas condições de um ambiente cada vez mais imprevisível.
Quando uma geleira perde massa rapidamente, a estrutura da montanha torna-se mais instável. Rochas antes sustentadas pelo gelo podem se desprender, desencadeando avalanches e deslizamentos. Além disso, o degelo forma lagos represados por barreiras frágeis de sedimentos e detritos, que podem romper-se repentinamente e liberar milhões de metros cúbicos de água.
Os especialistas observam que a região do Himalaia está aquecendo mais rapidamente do que muitas outras partes do planeta. Como resultado, as geleiras da região estão recuando em ritmo acelerado e os riscos de enchentes, deslizamentos e avalanches aumentam a cada ano.
O degelo
A Expedição Mosaic, que explorou o Ártico durante 389 dias a bordo do quebra-gelo alemão Polarstern, defrontou-se com uma surpresa: faltava gelo no Polo Norte. O líder da expedição, Markus Rex, disse que “se as alterações climáticas continuarem como estão, em algumas décadas teremos um Ártico sem gelo no verão”. E acrescentou que viu apenas uma calota derretida, fina, com lagos a perder de vista. Voltou com uma certeza: “o Ártico está dez graus mais quente que há vinte e cinco anos”.
Já Antje Boetius, diretor do instituto alemão Alfred-Wegener, que coordenou a expedição, disse que a placa de gelo polar tem metade da espessura que tinha há 40 anos.
O Conselho de Direitos Humanos da ONU publicou seu relatório destacando que os países mais pobres serão os mais afetados pela fome e pelas doenças que se intensificarão com as mudanças climáticas.
O Acordo de Paris, um protocolo em que 194 países se comprometem a reduzir a emissão de gases poluentes, foi assinado em 2015 e está sob ameaça de fracasso. O segundo maior emissor de gases poluentes, os Estados Unidos, responsáveis por quase 18% da poluição mundial, retiraram sua assinatura em 2020, no primeiro governo Trump, voltaram a apoiar o acordo em 2021, no governo Biden, e mais uma vez retiraram sua assinatura, neste segundo governo de Donald Trump.
A ONU declara que as alterações climáticas representam uma emergência sem precedentes. Nunca a destruição foi tão rápida e a comunidade internacional está falhando no combate a essa crise. Os últimos cinco anos foram os mais quentes de toda a lembrança humana e a temperatura média aumentou quase 1 por cento. A Organização Mundial de Meteorologia – OMM – acredita que, na trajetória atual, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3 a 5 graus Celsius até o final do século. E a humanidade terá de procurar outro planeta para onde se mudar.
O desastre ocorrido no Nepal em 2026 representa muito mais do que uma tragédia local. Ele simboliza um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade no século XXI: a adaptação a um planeta em aquecimento. Embora fatores geológicos e naturais façam parte da dinâmica das montanhas do Himalaia, o consenso científico aponta que as mudanças climáticas estão aumentando os riscos e a intensidade desses fenômenos.
A preservação do clima global exige cooperação internacional, redução das emissões de gases de efeito estufa, investimentos em energias limpas e fortalecimento dos sistemas de monitoramento e alerta para desastres. O que ocorreu no Nepal deve servir como um aviso para todos os países: ignorar o aquecimento global significa aumentar a vulnerabilidade de milhões de pessoas diante de eventos cada vez mais extremos e mortais.
Publicado originalmente em Fórum 21.
Foto de capa: Casas ficam parcialmente submersas em lama no Nepal / Prabin Ranabhat – 26.ago.26/AFP /Reprodução


