A desaceleração da economia brasileira após 2010 não pode ser compreendida apenas pelas variações do PIB. O problema não foi apenas crescer menos. Foi também a transformação das condições que sustentavam o conflito distributivo.
Durante os anos 2000, a expansão econômica permitiu que salários, lucros e arrecadação crescessem simultaneamente. O crescimento atuava como mecanismo de acomodação das tensões distributivas. Quando o produto cresce de forma sustentada, é possível ampliar os ganhos dos trabalhadores sem provocar rupturas no processo de acumulação.
Essa condição começou a arrefecer ao longo da década seguinte. É nesse contexto que duas variáveis se tornam particularmente importantes para compreender a trajetória recente da economia brasileira: a taxa de exploração (taxa de mais-valia) e o Exército Industrial de Reserva.
A primeira expressa a relação entre a parcela do excedente apropriada pelo capital e a apropriada pelo trabalho. Para lidar com os rendimentos dos trabalhadores por conta própria, metade do rendimento misto bruto é atribuída ao trabalho e a outra metade ao capital.
A segunda revela a massa de trabalhadores disponíveis para o processo de acumulação, seja sob a forma de desemprego aberto, subocupação, desalento ou inserção ocupacional precária. Juntas, elas ajudam a compreender a dinâmica do capitalismo brasileiro recente.
Conforme o mencionado, a taxa de exploração foi calculada como a razão entre a mais-valia e a remuneração do trabalho. Como o rendimento misto bruto incorpora simultaneamente rendimentos do trabalho e do capital, adotou-se a hipótese convencional de repartição igualitária entre ambos os componentes.
Assim:

onde S representa o excedente e v a remuneração dos empregados.
O Exército Industrial de Reserva foi estimado com base na tradição marxista da superpopulação relativa, que inclui desempregados, trabalhadores subocupados e contingentes potencialmente disponíveis para ingressar no mercado de trabalho.
A economia iniciou a década de 2010 beneficiando-se dos efeitos tardios do ciclo de crescimento anterior. A expansão da demanda chinesa por commodities, a melhora dos termos de troca, a acumulação de reservas internacionais, a valorização do salário mínimo, a ampliação das transferências de renda e a expansão do crédito sustentaram o crescimento econômico e fortaleceram o mercado doméstico.
Entretanto, os limites desse arranjo tornaram-se progressivamente evidentes a partir de 2010. A desaceleração da economia mundial reduziu o impulso externo. Os preços das commodities deixaram de crescer no ritmo anterior. O investimento perdeu força. A produtividade, quando avançou, o fez lentamente. A acumulação tornou-se mais difícil.
Os limites desse modelo tornaram-se ainda mais evidentes em 2015. A economia entrou em profunda recessão e o conflito distributivo se intensificou. Mas a recessão representou mais do que uma interrupção do crescimento. Ela marcou uma inflexão na disputa pela apropriação do excedente. A desaceleração da acumulação tornou progressivamente mais difícil compatibilizar a elevação dos salários, a manutenção da lucratividade e a expansão do investimento.
Enquanto o crescimento permitia ampliar simultaneamente os ganhos de diferentes grupos sociais, a estagnação transformou a disputa distributiva em um jogo muito mais rígido. A partir daquele momento, o conflito distributivo passou a ocupar posição central na dinâmica econômica e política brasileira. A crise econômica transformou-se rapidamente em crise política. O golpe parlamentar de 2016 ainda não havia sido consumado. Mas sua gestação já estava em curso. A ruptura institucional marcou o esgotamento do arranjo político que havia sustentado a expansão anterior.
Os governos subsequentes adotaram uma agenda baseada na consolidação fiscal, na aprovação do teto de gastos e na reforma trabalhista. Essas medidas buscavam restaurar a confiança empresarial e estimular a acumulação. Apesar disso, a recuperação econômica permaneceu limitada.
O crescimento tornou-se errático. A economia passou a conviver com taxas persistentemente baixas de expansão. A acumulação continuou fraca. A pandemia de COVID-19 aprofundou ainda mais essas dificuldades. Os dados da taxa de exploração da Figura 1 ajudam a visualizar esse processo.
Figura 1 – Taxa de Exploração no Brasil

Fonte: Tabela de Usos do IBGE e elaboração própria.
Entre 2012 e 2015, a taxa de exploração apresentou uma trajetória descendente. A relação entre o excedente apropriado pelo capital e os rendimentos do trabalho atingiu seu menor nível justamente quando a economia entrava em recessão. O excedente crescia mais lentamente. A lucratividade encontrava dificuldades para se recuperar. O conflito distributivo tornava-se mais intenso.
Quando o crescimento desaparece, a disputa pelo excedente torna-se mais difícil de administrar. A conciliação perde espaço. A crise ganha centralidade. Após 2015, observa-se um movimento de recomposição da taxa de exploração. Em 2021, ela alcança 0,959, o maior valor da série. A pandemia não interrompeu esse processo.
A deterioração das condições do mercado de trabalho ampliou o poder disciplinador do capital sobre o trabalho. Mas a taxa de exploração é apenas uma parte da história.
A outra aparece na evolução do Exército Industrial de Reserva apresentada na Tabela 1.
Tabela 1 – Exército Industrial de Reserva no Brasil
| Ano | EIR/SR (milhões) | EIR/SR (% da força de trabalho disponível) |
| 2012 | 45,6 | 45,8 |
| 2015 | 46,8 | 45,6 |
| 2019 | 56,0 | 50,5 |
| 2020 | 57,4 | 52,7 |
| 2022 | 52,3 | 47,6 |
| 2025 | 46,1 | 41,9 |
Fonte: PNAD contínua e elaboração própria.
Os números impressionam. Mesmo nos períodos de maior dinamismo do mercado de trabalho, a economia brasileira convive com um contingente expressivo de trabalhadores excedentes.
Em 2012, a superpopulação relativa brasileira somava aproximadamente 45,6 milhões de pessoas. Após a recessão iniciada em 2015, esse contingente ampliou-se rapidamente. Em 2019, alcançou cerca de 56 milhões de pessoas. Durante a pandemia, atingiu aproximadamente 57,4 milhões. A recuperação posterior reduziu parcialmente esse estoque.
Ainda assim, estima-se que cerca de 46 milhões de pessoas permaneceram no Exército Industrial de Reserva em 2025. A redução observada após a pandemia merece atenção. Ela indica que a recuperação do mercado de trabalho foi real. Entretanto, a queda do Exército Industrial de Reserva não foi acompanhada de uma redução proporcional da taxa de exploração. Isso sugere que a recomposição distributiva iniciada após 2015 não dependeu exclusivamente da ampliação do desemprego nem da reserva de trabalho.
Mudanças institucionais, transformações nas relações de trabalho e formas mais precárias de inserção ocupacional parecem ter ampliado a capacidade do capital de preservar níveis elevados de exploração mesmo em um contexto de melhora relativa dos indicadores de emprego.
Tabela 2 – Taxa de Exploração e Exército Industrial de Reserva
| Ano | Taxa de exploração | EIR/SR (% da força de trabalho disponível) |
| 2012 | 0,788 | 45,8 |
| 2015 | 0,745 | 45,6 |
| 2019 | 0,777 | 50,5 |
| 2020 | 0,855 | 52,7 |
| 2021 | 0,959 | 53,1 |
| 2022 | 0,903 | 47,6 |
Fonte: elaboração própria.
A Tabela 2 mostra que a relação entre a taxa de exploração e o exército industrial de reserva não é mecânica. A taxa de exploração depende também da produtividade, dos salários reais, da intensidade do trabalho e das condições gerais de acumulação.
Mas há uma conexão estrutural entre elas. À medida que o Exército Industrial de Reserva se amplia, o poder de barganha dos trabalhadores tende a enfraquecer. O trabalhador empregado passa a negociar permanentemente com a sombra do trabalhador disponível: o desempregado, o subocupado e o desalentado. Todos compõem a reserva que disciplina os que permanecem empregados. A recente recuperação do emprego não eliminou esse mecanismo. Ela reduziu parcialmente o desemprego aberto. Mas não suprimiu a ampla reserva de força de trabalho existente na sociedade brasileira.
Essa persistência ajuda a compreender por que a recuperação do mercado de trabalho ocorreu simultaneamente à elevação da taxa de exploração. A economia absorveu trabalhadores. Mas preservou uma massa significativa de indivíduos disponíveis para futuras necessidades da acumulação.
A trajetória observada entre 2010 e 2025 revela uma característica fundamental do capitalismo brasileiro. Quando cresce, absorve apenas uma parte da força de trabalho disponível. Quando entra em crise, expulsa rapidamente. Quando se recupera, reincorpora parcialmente e, frequentemente, precariamente. O resultado é uma economia que combina elevada disponibilidade de trabalho excedente com crescente capacidade de extrair excedente econômico.
A taxa de exploração mede a relação entre a parcela do excedente apropriada pelo capital e a apropriada pelo trabalho. Já o Exército Industrial de Reserva revela a força social que a torna possível. Entre ambas aparece uma característica persistente do capitalismo brasileiro contemporâneo: a capacidade de reproduzir simultaneamente crescimento limitado, ampla disponibilidade de trabalho excedente e mecanismos permanentes de disciplinamento da força de trabalho.
A principal lição do período 2010–2025 é que a melhora dos indicadores de emprego não elimina automaticamente os mecanismos que sustentam a exploração. A redução do Exército Industrial de Reserva observada após a pandemia foi significativa, mas insuficiente para alterar substancialmente a distribuição funcional da renda.
Enquanto uma ampla reserva de trabalhadores permanecer disponível ao processo de acumulação, o conflito distributivo continuará ocorrendo em condições estruturalmente favoráveis ao capital. A recuperação do emprego foi real. Mas seus efeitos distributivos permaneceram limitados.
Foto de capa: IA


