Por PAULO CANNABRAVA FILHO*
O Brasil fechou o último período, 2025, com um superávit comercial de 68,3 bilhões de dólares, resultado que, à primeira vista, poderia ser apresentado como sinal de força da economia. Esse desempenho, porém, está fortemente concentrado na exportação de commodities, como soja, minério de ferro e outros produtos primários, dos quais o país se tornou um dos maiores fornecedores globais. O número impressiona, mas engana.
Quando se observa o conjunto das contas externas, o quadro se inverte de forma dramática. A balança de pagamentos registrou um déficit de 68,8 bilhões de dólares, equivalente a 3,02% do PIB, um dos piores resultados desde 2015. Ou seja, praticamente todo o superávit obtido no comércio exterior foi consumido por saídas de recursos que revelam fragilidades estruturais profundas da economia brasileira.
Uma parte significativa desse rombo está na conta de serviços, que sozinha absorveu 52,9 bilhões de dólares. Trata-se, em grande medida, de despesas com fretes e seguros, controlados por empresas estrangeiras. O país exporta volumes gigantescos, mas paga caro para transportar e assegurar suas próprias mercadorias, evidenciando a dependência logística e a perda de controle sobre etapas estratégicas do comércio exterior.
Ainda mais grave é a conta de rendas, onde aparecem as remessas de lucros e dividendos das empresas estrangeiras instaladas no Brasil. Somente nesse item, o país enviou para fora 81,3 bilhões de dólares. É o preço direto da desnacionalização da economia: empresas produzem aqui, exploram o mercado interno, mas transferem sistematicamente a riqueza gerada para suas matrizes no exterior.
Esse conjunto de dados expõe um paradoxo cruel. O Brasil exporta mais, mas retém menos. Gera superávit comercial, mas acumula déficit externo. Produz riqueza, mas não a internaliza. Sem um projeto nacional de desenvolvimento, capaz de promover a reindustrialização, reduzir a dependência de serviços externos e recuperar o controle sobre setores estratégicos, o país continuará preso a um modelo primário-exportador que aprofunda a vulnerabilidade externa e compromete o futuro.
Diante desse quadro, torna-se inadiável a construção de um projeto nacional de desenvolvimento que enfrente, de forma consciente, a dependência externa e a drenagem permanente de riquezas. Reindustrializar o país, recuperar cadeias produtivas estratégicas, fortalecer empresas nacionais, reduzir a vulnerabilidade logística e subordinar o capital financeiro aos interesses do desenvolvimento são tarefas centrais. Sem isso, o Brasil seguirá condenado a exportar volumes crescentes de produtos primários para sustentar lucros alheios, enquanto importa déficits, fragilidade externa e perda de soberania. As contas externas mostram, com números incontestáveis, que não há futuro possível sem um projeto nacional que reconstrua a economia a partir do interesse do país e do seu povo.
Publicado originalmente em Diálogos do Sul.
*Paulo Cannabrava FilhoIniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.
Foto de capa: Sem um projeto nacional de desenvolvimento, o país continuará preso a um modelo primário-exportador que aprofunda a vulnerabilidade externa e compromete o futuro | Porto de Santos | divulgação




