Social trabalhismo | Por J. Carlos de Assis

A combinação entre energia limpa, inovação tecnológica e organização cooperativa é apresentada como base para uma nova sociedade pós-capitalista.
Publicado em 30 de junho de 2026 às 11:00
Editado em 29 de junho de 2026 às 23:26

Estamos na alvorada de um novo tipo de sociedade em termos materiais e espirituais. O custo virtualmente nulo da energia solar e eólica como fontes energéticas limpas – sobretudo  depois que a China começou a construir mega baterias com capacidade de armazenar grandes quantidades dessa energia para serem usadas à noite após  períodos do dia em que não há sol nem ventos -, determina mudanças comportamentais equivalentes às que foram impulsionadas pela energia suja do carvão e do petróleo no início da era industrial,. Com energia limpa ao custo de quase zero, cairá igualmente o custo da produção industrial, assim como o da produção agrícola, o que significará mais produtos e alimentos baratos para a Humanidade, em favor principalmente dos pobres.

Por outro lado, essa situação material, devida à evolução acelerada da tecnologia, resultará, no aumento do desemprego, do subemprego, da precarização do Trabalho e da marginalização de milhões de trabalhadoras e trabalhadores. As vítimas serão justamente também os mais pobres. A superação desse desafio implicará a superação do próprio Capitalismo, que destruiu, na sua trajetória consumista e materialista, os valores espirituais básicos da Civilização ocidental, como a solidariedade e o amor ao próximo. Entretanto,  a regeneração está à vista. No lugar da competição capitalista caracterizada pela exploração do homem pelo homem, teremos uma sociedade cooperativa, cujos sinais já são visíveis: são os chamados Arranjos Produtivos Locais e Territoriais, assim como Vocacionais, onde o trabalhador, e não o capitalista, comanda o processo produtivo.

Assim, com uma mudança de fundo nas relações humanas, desaparecerá o motivo fundamental da luta de classes, pois o trabalhador não se interessará por lutar contra a empresa onde trabalha de forma solidária. Ao contrário, considerando que o Trabalho cooperativo resulta em mais produtividade e eficiência produtiva,  ele tirará dele lucros superiores aos que tem na situação atual, onde a mais valia que produz é capturada exclusivamente pelo dono da empresa.  Com isso teremos uma Sociedade cada vez mais próspera e pacificada, já que o conflito social, na maioria das vezes, resulta da disputa dos trabalhadores e patrões pelos resultados do Trabalho.  

Podemos sustentar que a transição histórica por que passa o mundo, com seu modelo econômico  capitalista concentrador de riqueza e criador imensas disparidades de renda – o ultra bilionário sul africano Elon Musk acaba de celebrar seu primeiro trilhão de dólares de patrimônio – levará inexoravelmente ao fim do Capitalismo. O último suspiro dele  foi a  submissão da produção aos interesses do capital financeiro especulativo, que não produz um único prego. Esse capital exclusivamente rentista, por ser fruto de seu próprio crescimento exponencial e descontrolado, dá sinais cada vez mais evidentes de esgotamento já que não se apoia em nada de valor real. Em seu lugar começam a surgir, ainda de forma embrionária e dispersa, experiências que apontam para uma nova organização das sociedades,  fundada na cooperação, na inteligência coletiva e na valorização do trabalho humano, firmemente ancoradas na organização planejada dos territórios onde exercem suas atividades.

Nessa sociedade, a produção se organizará por meio de ecossistemas produtivos territorialmente integrados, estruturados, na área rural, em Arranjos Produtivos Locais e Territoriais (APLTs) , sendo estruturados, nas áreas urbanas,  em Arranjos Produtivos Vocacionais (APVs), nesse caso para trabalhadores que se dedicam a atividades em áreas afins. As empresas, como observado acima, deixarão de ser patrimônio de poucos para pertencer aos próprios trabalhadores que nelas produzem riqueza, compartilhando decisões, responsabilidades e resultados. O conhecimento, a inovação tecnológica e a sustentabilidade ambiental desenvolvidos neles serão instrumentos de emancipação coletiva, com reflexos em toda a Sociedade, e não de exclusão social.

Esta visão não é uma utopia distante. Ela nasce das necessidades do presente e das experiências que já florescem em diversos lugares. Cabe à cidadania organizada transformá-las em projeto nacional, alicerçado em bases territoriais, especialmente quando o rápido avanço da tecnologia gera uma escalada de desemprego, subemprego e precarização do Trabalho que exigem a reconquista, em Arranjos Produtivos,  do espaço que foi perdido pelos trabalhadores nas sociedades capitalistas apodrecidas. Com isso esvai-se o tempo de domínio absoluto das classes dominantes sobre o conjunto das Sociedades, na medida em que perdem o controle do trabalhador como classe dominada.  Desaparecem, igualmente, seus meios de produzir  a poluição ambiental insuportável em que vivemos e a irresponsável exaustão dos recursos naturais características da Sociedade capitalista atual, tendo em vista o sentido de responsabilidade comum em relação ao meio ambiente e à vida no contexto de sociedades cooperativas a serem organizadas nos Arranjos Produtivos..  

A Mutirão Solar aposta nessa causa. Vemos em pleno despertar uma sociedade que poderá ser chamada de Social Trabalhista, construída pela convergência entre mulheres e homens inspirados pelos ideais do socialismo democrático e a realidade concreta do mundo do Trabalho. Queremos que se manifeste logo, e lutaremos por essa causa. Não se trata, naturalmente, de reproduzir idealmente modelos do passado, e sim de criar efetivamente uma nova síntese histórica, em que a democracia econômica caminhe ao lado da democracia política.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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J. Carlos de Assis
Jornalista, economista, doutor em Engenharia de Produção, professor aposentado de Economia Política da UEPB, e atualmente economista chefe do Grupo Videirainvest-Agroviva e editor chefe do jornal online “Tribuna da Imprensa”, a ser relançado brevemente.

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