Preliminarmente, é necessário registrar que se existia alguma dúvida sobre a viabilidade eleitoral do companheiro Edegar, a atual situação dissipou quaisquer questionamentos. Edegar tem sido sabotado e duramente combatido, ainda assim, mantém-se nos primeiros lugares nas pesquisas, de 1º a 3º com diferenças mínimas em relação aos seus adversários (ou adversária).
Fico imaginando como seria seu desempenho se estivesse recebendo o apoio da direção nacional e do governo da qual faz parte, além de outras medidas que poderiam potencializá-lo. Porém a realidade é outra.
Baseado em entrevista à Rádio Gaúcha, o presidente nacional do PT considera que a retirada do Edegar e o apoio do PT à Juliana Brizola são essenciais para que o PDT esteja com Lula na disputa presidencial e componha o chamado campo democrático, uma abstração que, segundo ele, vai de “setores” do PSDB até, digamos, o PSOL.
Igualmente, segundo Edinho, somente este campo será capaz de enfrentar e derrotar o bolsonarismo e trazer a vitória ao presidente Lula. E que, portanto, os interesses locais não podem se sobrepor as necessidades nacionais. Isto dito numa reunião interna do PT é aceitável, na rádio com maior audiência do estado, foi um erro lamentável, pois transparece a ideia de que governar o Rio Grande é algo secundário para o PT. Como o mundo não vai acabar em outubro de 2026 e tampouco gira em torno do Lula, apesar da sua gigantesca importância, isto será usado fartamente contra nós.
Edinho deveria se informar melhor a respeito da cultura do povo gaúcho.
Costumo dizer, que na política, o método é tudo, e o nosso presidente nacional fala em convencimento, mas na prática, estabelece um movimento inequívoco de constrangimento público não apenas sobre o companheiro Edegar, mas sobre a grande maioria da militância do PT e da esquerda gaúcha, com consequências desastrosas no futuro. Destruir é sempre mais fácil que construir, reconstruir o que está sendo destruído agora, nos custará décadas.
Mas nada disto é tão relevante quanto o problema da estratégia:
A maioria da direção nacional do PT e o grupo de ministros que coordenam o Governo Federal, na minha opinião, sofrem daquilo que Carlos Matus (ex-ministro de Allende) denominava de cegueira situacional, que representa (grosso modo) a dificuldade de enxergar a realidade para além da esfera que os envolve e onde atuam.
Evidente que a articulação de políticos, de parcelas ou da integridade de partidos comprometidos com a democracia, que podem se conformar como campo, é extremamente importante, mas não pode ser uma construção artificial, um exercício de vontade que não se coaduna com alicerces sociais, programáticos e ideológicos a serem estabelecidos na sociedade.
Para que este possível campo cumpra seu papel, é necessário esteja orientado por um programa de avanços e de transformações que nos retire da armadilha que a extrema-direita nos colocou, que é a defesa do status quo (os parâmetros da democracia burguesa e suas instituições), enquanto eles se afirmam como forças antissistêmicas.
Diante disto, precisamos de nitidez política, de posicionamentos firmes e de uma agenda de propostas e lutas capazes de reencantar e mobilizar o povo brasileiro para a reeleição de Lula, alcançar a maioria do Congresso Nacional e conquistar vários governos estaduais.
Neste desafio, também é necessário levar em consideração (que a direção nacional parece secundarizar) que somos um território continental composto de várias nações com seus povos e suas respectivas culturas que conformam a grande nação brasileira.
As questões estaduais têm significativa relevância, carregam suas especificidades que precisam encontrar seus nexos com o projeto nacional, para tanto, precisam de uma representação coerente, com uma construção sólida capaz de enfrentar a extrema direita e articular as forças populares em defesa da candidatura Lula.
Isto posto, a questão colocada sobre o “palanque” a ser constituído no RS para a vitória do Lula nacionalmente e no estado, não se situa na “generosidade” do PT em ceder espaço para um aliado, se fosse para ceder este espaço para o PSOL, por exemplo, eu consideraria como razoável. O PT, PSOL e o PC do B estiveram juntos na resistência ao bolsonarismo e oposição ao neoliberalismo implementado por Leite no governo estadual, no mínimo, nos últimos oito anos.
Particularmente tenho como princípio não opinar sobre as decisões de outros partidos, mas como o PDT/RS resolveu estabelecer prazos ao PT e incidir sobre os nossos processos internos de debate, me sinto à vontade para fazê-lo de modo crítico.
A verdade é que, enquanto a Frente Política liderada pelo Edegar Pretto lutava contra os nossos inimigos, o PDT gaúcho estava flertando com os mesmos, até hoje compõe o governo Leite e está na base aliada de vários governos da extrema-direita nos principais municípios do RS.
Enquanto Edegar articulava e reorganizada a base social da esquerda gaúcha para lutar contra o feminicídio que chegou à marca de 26 vítimas neste primeiro trimestre; contra a privatização da CORSAN, contra os pedágios, contra a tragédia que é a gestão Leite sobre a saúde pública, o descalabro na educação e, a inércia na reconstrução do estado, apesar dos 6 bilhões destinados pelo Governo Lula; Juliana Brizola nada disse e nada fez.
E agora, quem nada disse e nada fez a respeito dos temas cruciais para o povo gaúcho e, principalmente, não se posicionou na defesa do Governo Lula, pretende nos representar na disputa eleitoral deste ano?
Edegar Pretto não é candidato dele mesmo, não é uma invenção de última hora que pode ser descartado irresponsavelmente, sua candidatura ultrapassa o PT e alcançou a representatividade das forças populares no RS, tem plenas condições de vencer e ser o principal instrumento para a vitória de Lula no nosso Estado.
Todos nós concordamos a respeito da principalidade da reeleição do companheiro Lula neste momento histórico, mas, por favor, não nos peçam para trocar anos de construção por um arranjo político artificial que nos levará à derrota no RS e, seguindo esta toada, poderá nos derrotar nacionalmente.
Agora é Lula lá e Edegar aqui!
Foto de capa: Ricardo Stuckert






Uma resposta
O Brasil é um país de centro-direita e o eleitor consciente e engajado de esquerda é minoria. É só olhar dos estudos da Rosana Pinheiro Machado e do Marcos Nobre sobre o perfil do eleitor brasileiro. Existe uma massa de votantes que migrou de Lula para Bolsonaro e deposi voltou ao Lula. O PSOL é um partido de vereadores e deputados engajados mas nao cresce ha anos pois seus eleitores sao os mesmos do PT e disputam votos no mesmo campo. Uma eleição majoritária se ganha hoje com votos de eleitores de centro e nao engajados. O PT sozinho consegue o que as pesquisas dizem. 30 por cento no máximo.
O texto demonstra que os militantes engajados do PT e que agem como gado dos velhos caciques vivem no paraíso perdido dos anos 90 e estao desconectados da conjuntura política. ” o presidente do PT nao conhece a cultura gaucha ” sim no caso do nosso partido é muito condizente com a cultura gaúcha se achar a última bolacha do pacote quando na realidade nao se elege mais nem para síndico de prédio. Olhem a surra que tomamos em POA sendo que Lula e Pretto tiveram.mais votos aqui em 2022. Sem Lula nao ha PT no RS O mundo não acaba em 2026? Como o autor imagina o governo Flávio Bolsonaro com maioria no Congresso e escolhendo 6 ministros do STF?