Não foi a beleza da praia que me fascinou em Cidreira, é o seu silêncio. Estou em casa. São mais ou menos 8h da manhã e não ouço nada. Estou acordando, preparando-me para o meu dia. Há, talvez, um som de quero-quero no ar, emitido pelos pássaros que caminham pela minha rua. Sequer há vizinhos barulhentos, ainda que, eventualmente, meu vizinho trabalhador, que chega cedo da manhã de seu plantão, eventualmente corte sua grama logo em seguida.
Tenho um silêncio na praia que não tenho na cidade: o silêncio da rua. Eu ouço, ao final da noite, o barulho do mar, porque as ruas entre minha casa e a praia também são silenciosas. Há alguns moradores no inverno, e mais no verão, mas mesmo na alta estação, o barulho é mínimo. Estou na cidade e sou acordado às 6h da manhã pela buzina de inúmeros carros na minha rua. Eles querem sair de minha rua para acessar a transversal, no Bairro Petrópolis, e ficam enlouquecidos. Mas na praia, o silêncio é inspirador, uma dádiva do universo poder viver sem barulho.
Silêncio na era do ruido
Erlling Kagge, em Silêncio: na era do ruído (Objetiva, 2016), afirma que precisou aprender a trancar o barulho do lado de fora de casa para redescobrir o sentido do silêncio. Ele diz que recebeu de presente uma coletânea de poemas de Jon Fosse, que dizia que “existe um silêncio de que ninguém se lembra”. Ele queria saber o que isso significava e escreveu para o escritor, que respondeu: “De certa maneira, é o silêncio que deve falar”. A ideia de que o silêncio nos fala lhe fascinou. “Talvez porque o silêncio traga consigo o deslumbramento, mas também porque traz uma certa majestade em si, como um mar ou uma infinita planície nevada” (p.19). O mar de Cidreira é silencioso quando não percebemos o som de suas ondas, quando nos focamos apenas na majestade de sua extensão. Por outro lado, ele diz que o silêncio também nos dá medo, e eu penso no suspense dos filmes de terror como ele pensa na música de fundo que está nos escritórios médicos como pano de fundo do medo que temos de algum lugar.
Kagge diz que temos medo do silêncio e, por isso, o evitamos. Talvez por isso, no mar de Cidreira, os visitantes tragam suas caixas de som, façam suas dancinhas para TikTok, ao invés de contemplar simplesmente o silêncio do mar. “Esse medo a que Fosse se refere sem nomear é um medo de conhecer melhor a si mesmo. Quando tento evitar essa situação, há um sopro de covardia no ar.” (p.20). Eu reconheço isso no mar de Cidreira, mas não tenho medo. Aliás, é minha inspiração para escrever. O silêncio do mar, das ruas de Cidreira, é inspirador. Não é só para conhecer a si mesmo, avaliar o que se é com um aposentado, mas também analisar o mundo em que se vive, uma cidade litorânea do sul do Brasil. Kaage já foi a lugares muito mais silenciosos, como a Antártica, sozinho, e viu um panorama infinito e monótono, exatamente como muitos descrevem a praia de Cidreira em sua extensão. Você olha o litoral e não consegue saber onde começa Nazaré, o centro de Cidreira, ou a Zona A. Tudo faz parte de uma linha única, extensão da praia. No inverno, não há som construído pelo homem, não há barulho de carros, não há festas na beira do mar; há apenas o ruído das ondas, dos pássaros, o que reforça sua solidão no meio da areia, onde “eu tanto podia ouvir como sentir o silêncio”, como diz Kagge.
Silêncio das grandes extensões
Aqui, as grandes extensões de gelo branco são substituídas pelas extensões de areia dourada, e, enquanto você avança em direção a outra praia, Kagge avança em direção ao sul pelo continente mais frio do mundo. Quantos quilômetros cúbicos de areia existem sob meus pés? Kagge diz que são trinta milhões de quilômetros de gelo sobre os dele que empurram a superfície da terra para baixo; eu não ficaria surpreso se algo assim ou maior estiver na costa onde se situa a praia de Cidreira ou todo o litoral, apenas não tive paciência ou tempo para pesquisar. Você caminha pelas areias de Cidreira e começa a perceber as nuances da areia, as cores que se modificam e ficam imensamente belas ao entardecer, você caminha e a natureza se transforma “o ambiente era sempre o mesmo – era eu quem estava se transformando (p.22), diz Kagge, o que vale para mim também. A praia, como o gelo de Kagge, me ensina a apreciar pequenas alegrias que a natureza oferece, mas eu preciso estar em silêncio para percebê-las. É como ele diferencia as expedições de viver em casa, eu diferencio viver na praia de viver na cidade. “Em casa sempre tem um carro que passa, um telefone que toca, apita ou vibra, alguém que fala, sussurra ou grita. No fim, os barulhos são tantos que mal os escutamos. Lá foi completamente diferente. A natureza falou comigo ao se mostrar como silêncio. Quanto mais quieto eu ficava, mais eu escutava” (p.23).
Enquanto só o vento rompe o silêncio de Kagge, o vento da praia parece fazer um esforço para não ser ouvido. Por isso eu também passei a perceber cada vez mais o mundo do qual eu fazia parte, caminhando pela praia, em silêncio, onde eu estou sozinho com minhas ideias. Eu lembro dos autores que li, os que mais me influenciaram. Penso no que vou escrever para os meus leitores de (são quantos, um, dois, nenhum às vezes?), eu fico mais presente na minha escrita quando estou em silêncio “O mundo desaparece à medida que você entra nele”, lembra Kagge a fala de Heidegger. Não é como o continente antártico, que Kagge visita e compartilha com aqueles que jamais poderão vê-lo através de fotos. Não é um local distante, Cidreira está a 120 km de Porto Alegre e qualquer um pode ter a experiência da imensidão, da solidão e do silêncio – basta ir no inverno. Se a Antártida é o continente desconhecido de Kagge, Cidreira é a praia desconhecida dos porto-alegrenses.
Silêncio da natureza
O silêncio praiano é menos um fenômeno composto por ondas acústicas, como aprendem os alunos da escola perto de minha casa, e mais parece uma ideia, um sentimento, um conceito. Ele ocupa o meu vazio, não o preenchendo, mas sendo a areia com a qual construo meu edifício interior. “Por isso, não busco mais o silêncio absoluto ao meu redor. O silêncio que busco é uma experiência pessoal” (p.33). Eu sei que quando mergulho no mar de Cidreira, é mais próximo do silêncio que a praia pode me oferecer, eu estou a um metro da superfície, de cabeça para baixo, sinto a oscilação e as ondas em silêncio. Em Porto Alegre, dificilmente consigo ficar em silêncio, ainda mais agora, com obras na casa ao lado para transformá-la em uma clínica de idosos, além da vizinha que pede licença para fazer uma reforma.
Por isso, o silêncio da natureza é tão valioso. O mar, a extensão da praia em silêncio, é inspirador. Você pode ter silêncio em casa, e Kagge pensa na paz e silêncio interior de quem tricota, como minha esposa faz em nossa sala da casa de praia. Ela está preparando algumas peças para nosso neto – um par de sapatinhos, um boné – e fica quieta sem ser perturbada. Na praia, é tão comum as vovós tricotarem que elas terminam na feira da concha acústica vendendo o seu excedente produtivo, diria Marx. “É como se nós desejássemos retornar a um modo de vida original e autêntico – e encontrar a paz” (p.37). Quando minha esposa tricota, ela faz devagar, e fazer as peças de nosso neto leva tempo. Ela mesma diz que, para ela, a mente esvazia por alguns momentos. “Não penso em nada”, diz.
Silêncio do céu estrelado
Esse “nada” é como olho o “céu estrelado” de Cidreira, espaço vazio, silencioso que está sempre lá, conforta. “O universo é e há de permanecer impassível”, diz Kagge (p. 95). Ele está citando Fridtjof Nansen, para quem tudo ao nosso redor, frente à natureza, deixa de ser importante e extraordinário. E ele lembra que Kant dizia que “o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim são os dois grandes pilares” (Idem).Estou na praia caminhando ao anoitecer com minha collie Lola e minha esposa, e vejo o céu acima de mim. Nesse momento, não há preocupações – viagens, estudo, leitura – você vê apenas quem você é. É diferente de Kagge, porque, ele como norueguês, está acostumado a ver o céu noturno; eu não, na cidade, raramente consegui vê-lo pela poluição e por isso o azul limpo da noite na praia é comovente. “As estrelas desaparecem quando a iluminação pública se coloca entre você e as estrelas”, diz Kagge, exatamente como ocorre na cidade de Porto Alegre. Em Cidreira não é como diz o escritor, “esse silêncio visual é um espetáculo raro. Um luxo” (p. 96). Ele serve para olharmos para dentro de nós mesmos em busca daquilo que esquecemos. Estou na praia e vejo que o silêncio da infância e adolescência que passava aqui era o que ficou da época em que era feliz.
É que nos trancamos no silêncio de nosso mundo interior para nos isolarmos do mundo do lado de fora. Na infância e na adolescência, o meu mundo exterior era da pobreza e da obrigação de comer bife de fígado porque era mais barato. Além disso, havia brigas na saída da escola por causa do cabelo grande que não tinha dinheiro para cortar. Tudo isso fazia com que recorrer a um lugar interior silencioso fosse uma estratégia. Eu, é claro, passei a estudar e estudar. Era nos livros, no silêncio que eles exigiam para serem lidos, que eu podia me isolar do mundo. Ainda faço isso? Talvez sim, já que estou aqui em meu escritório lendo e escrevendo sobre os sentidos do silêncio em Cidreira. Kagge, neste ponto, revela-se um tanto à direita: ele elogia Elon Musk por ser assim, por ser um pensador autônomo, que não dá valor a conselhos, que inventa o que bem entende do mundo. “Musk simplesmente desliga o mundo” (p.100).
Silêncio nos desliga do mundo
Precisamos do silêncio para nos desligarmos do mundo. Estou desligando-me, lentamente, dos problemas do mundo. Que fazer, sou um aposentado. Resta-me pouco menos de um terço da minha existência. Tentei mudar o mundo, fracassei. Em Cidreira, em seu silêncio, reflito. Eu não quero me transformar num Musk, para quem desligar-se do mundo é desligar o mundo, cujo poder faz com que milhares de pessoas sofram as consequências, seja de suas opções tecnológicas que ameaçam o ambiente, como de suas soluções de informação que trazem mais ignorância. Eu ainda quero ver o resto do mundo de Cidreira. Talvez a vida na praia seja uma mensagem a ser divulgada: por favor, esqueçam um pouco o capitalismo, vão curtir sua vida na praia, olhem as estrelas. Mas Kagge, não deixa de ter oferecido boas lições: “quando recordo essa época, penso que a única coisa que fiz de incomum, e de forma mais modesta do que Musk, foi lavar tranquilamente a louça e questionar certas verdades amplamente aceitas e sempre repetidas” (p. 103).
O silêncio da vida praiana permite que surjam esses momentos fugazes. Você caminha pela praia enquanto o vento passa, você olha o azul do céu e vê estrelas, e mesmo o ambiente em que você está, simplesmente, lavando a louça do dia, é meio que tomado de uma sensação de estranhamento. Você está presente, mas ao mesmo tempo ausente. O silêncio permite isso. “O tempo de repente para, e eu me sinto ao mesmo tempo profundamente ausente. De repente, um desses momentos fugazes parece uma eternidade” (p.109). Você se tranca do lado de fora do mundo por alguns instantes para viver momentos de paz e silêncio. Vivi a vida inteira falando, dando palestras, lendo para, de novo, dar palestras, e também escrevendo. O silêncio, entretanto, faz você ouvir o que vem de dentro, como agora, enquanto escrevo, no silêncio de um quarto em uma casa a sete quadras da praia.
Silêncio nos devolve a paz
Para isso, você precisa retornar à sua própria paz. Há uma guerra no mundo, e a outra, se aproximando, na política brasileira. Você ainda está ligado ao mundo porque tem algo que, como o mar, funciona com base em ondas: sua televisão. Você sai do mundo, mas os apetrechos o seguem para lembrá-lo de que ele ainda está lá. Eu sei que não posso viver o tempo todo em isolamento, que preciso ainda me posicionar no mundo pelo que escrevo, eu apenas me dou o direito de me afastar um pouco dele, pois durante toda a minha vida me neguei isto: um instante meu. O que havia de silencioso em mim durante todo este tempo? Que enigmas atravessaram minha vida de trabalho que não solucionei? Vivi com base no conhecimento sócio-histórico, minhas aulas sempre tiveram seu embasamento, mas sempre foi tratar de fazer algo que podia ser comprovado, coisas materiais. “Para além do reconhecimento, está o silêncio”, diz Kagge. Tive silêncios ao longo de minha existência e ainda os tenho; eles são diferentes do seu ou de outra pessoa qualquer.
Mas Kagge é ainda muito intuitivo com o silêncio. Eu uso suas reflexões para pensar o silêncio que vivo na praia, numa casa um pouco distante do mar. Ele não é a melhor referência para refletir sobre o tema, pois há outras. Eu gosto muito de Alain Corbin, que em seu História do silêncio (Vozes, 2021), fez uma concisa, mas importante obra que resgata o silêncio como história interior. Ele vê essa “presença palpável do silêncio” na cultura, na arte, na poesia; eu só podia vê-la até aqui nas relações sociais, na minha observação, na minha reflexão. Corbin afirma que, no passado, os ocidentais apreciavam a profundidade do silêncio. O silêncio tinha um… sabor, era condição para escuta de si, recolhimento, meditação, mas também sonho e criação. Era, fundamentalmente, “o lugar interior do qual a palavra emergia. Para eles, a pintura era a palavra do silêncio.” (p.9).
Iconografia do silêncio
Talvez por isso a iconografia artística tenha tantas imagens de praias e mar. Procuro as que existem sobre Cidreira, artistas que se dedicaram a ela. Descubro que são praticamente desconhecidos. Encontro uma imagem de uma pintura que se diz do CPC dos anos 70, que nada tem, entretanto, relação com ele. Ela é uma pintura de um prédio que mais parece um hotel, com uma possível guarita salva-vidas ao lado. Eu já havia localizado somente outra imagem, de casas à beira do mar. A poesia dessas obras, em geral, é instigante, mas o silêncio sobre a produção artística de Cidreira também existe. Quem era o artista que fazia pinturas em azulejos na beira do restaurante 541?
Corbin afirma que, no passado, a intimidade dos lugares, dos quartos e objetos da casa, era cercada pelo silêncio. Era o código do sublime que desviava o olhar para o deserto, para as montanhas, mas também para o mar. Vejo que me aproximo na praia, dos solitários, artistas e escritores descritos por Corbin, afastados da vida agitada nas cidades, e que como eu se calam em busca do silêncio que mantém viva suas sensibilidades. “Mas são como náufragos em uma ilha, em breve deserta, cujas margens deterioram-se” (p.11) Tento viver no presente o que significava no passado o silêncio, e, como diz Corbin, quando reaprendemos a fazer silêncio, estamos mais próximos de nós mesmos. E, quando ouvimos com atenção o silêncio, descobrimos o mundo que nos cerca.
Meus silêncios
É o que Corbin diz quando retoma o depoimento de Maurice de Guérin, que afirma que “alguns sons fazem ecoar o silêncio, como os ruídos que se erguem longe no campo, os cantos dos lavradores, das vozes das crianças, dos pios e das cantigas de animais e, de vez em quando, um cão que ladra” (p.39). No silêncio de minha rua, os primeiros sons que distingui logo que vim morar em Cidreira eram os dos sapos, o coaxar que produzem para atrair as fêmeas, e eu constatava que seu saco vocal era poderoso, rouquejando em uníssono pelas ruas. Alguns, de dentro de minha própria casa, no cano de saída de água da calha. Esses animais são românticos, pois coaxam atrás de suas fêmeas após o pôr do sol, quando a iluminação cria o clima do romance, mas de fato, é por causa da umidade: o sapo canta quando chove.“Um grande silêncio estabeleceu-se, e eu ouço como as vozes de milhares de lembranças doces e comoventes, que se erguem na distância do tempo passado” (idem).
Corbin afirma que diversos poetas mostraram a ligação do silêncio com a natureza. O primeiro é Henry David Thoreau, que dizia que, quando passeava nos bosques ou no campo, sentia que “o som é quase parecido ao silêncio; é, na superfície do silêncio, uma bolha que se rompe imediatamente[…] é uma frágil articulação do silêncio e que só apraz o nosso nervo auditivo pelo contraste criado. O silêncio sozinho é digno de ser ouvido”. (p.40-41). Thoreau nos ensina a ouvir o mínimo som, como o do estalido do feno, a modéstia sonora dos musgos. É verdade que Thoreau, como eu, tem condições de analisar os pequenos ruídos e o silêncio ao seu redor; ele, um pequeno milionário; eu, um felizardo aposentado. As futuras gerações, que terão muita dificuldade para se aposentar, terão condições de ouvir o que a geração dele e a minha consegue? A superexploração e o trabalho precarizado vêm para nos tornar surdos; e esse silêncio interior será doentio.
Silêncios de Thoreau
Thoreau estava instalado em Walden, no meio do campo e próximo a bosques com uma multidão de pequenos ruídos que salientavam o silêncio. É mais ou menos como minha casa de Cidreira, onde o silêncio é rompido pelos sons dos pássaros, rãs e até das folhas, como já mencionei. São regiões que não faz sentido procurar o silêncio, simplesmente porque ele já está lá, está na natureza. Cidreira já é, é verdade, uma cidade. Por isso, ela possui algum barulho: são as crianças que chegam à escola, são alguns equipamentos da prefeitura que realizam obras, etc. Mas é sua característica de vida do interior que lhe dá a qualidade do silêncio, a tranquilidade das ruas. Mesmo a vizinha da minha rua que cuida de seu jardim, onde há muitas peças de artesanato, o faz em silêncio, que é o mesmo que cobre seu lar.
Esse componente silencioso é, na verdade, outro personagem da praia. Corbin lembra o fato de que, por essa razão, muitos cineastas se mostraram atentos ao silêncio, como Nicolas Klotz, que defende que os bons filmes façam silêncio. “Fazer silêncio de forma alguma é a mesma coisa que se calar”, teria dito. Há filmes silenciosos, mas poucos filmes que fazem silêncio, pois este “está lá onde começa o mundo, mas hoje, ele causa medo”. Já para o cineasta Jean Breschand, o silêncio do cinema é um ambiente, um “ruído doce, ligeiro e contínuo”, diz (p.4). É por isso que Cidreira foi objeto de alguns filmes. O pesquisador de Cidreira, Ivan Therra, em seu livro Praia de Cidreira: história, cotidiano, cultura e sentimento (Casa de Cultura do Litoral, 2007), lista os filmes que se passaram em Cidreira.
O silêncio da praia no cinema
O primeiro é Dois Córregos, filmado em Cidreira em 1998 e dirigido por Carlos Reichenbach, com Carlos Alberto Ricceli, sobre duas adolescentes que passam um fim de semana com o tio de uma delas em Cidreira; outro foi Houve uma vez dois verões, filmado em 2001, dirigido por Jorge Furtado e que narra o encontro de um garoto ingênuo e uma garota que só pensa em dinheiro e vivem uma paixão; o outro é Bens Confiscados, de que já falei em artigo anterior, filmado em Cidreira em 2014 também por Carlos Reichenbach e o último, Maestro da Areia, dirigido pelo próprio Ivan Terra , que o faz o primeiro filme genuinamente cidreirense, sobre um pescador que percorria as dunas para escolher madeira para fazer instrumentos musicais para crianças. Mas Cidreira não tem cinema. E sem cinema, os moradores tiveram de ir a Porto Alegre, na Usina do Gasômetro, para ver o filme.
Penso nos filmes que usam Cidreira como cenário. Por que o fazem? Vemos que o lugar, a natureza, as texturas do silêncio são fundamentais em determinadas narrativas. Em O Sétimo Selo (1957), dirigido por Ingmar Bergman, a cena clássica se passa com um cavaleiro jogando xadrez com a Morte em uma praia pedregosa. A Lagoa Azul (1980), o clássico da “Sessão da Tarde”, uma praia é o cenário de despertar amoroso de dois jovens náufragos. Talvez a síntese melhor seja Limite (1931), um clássico absoluto do cinema brasileiro, mudo e experimental, onde o mar é usado de forma metafórica, com enquadramentos vanguardistas que capturam a vastidão e a textura das águas de maneira artística e melancólica.
No fundo, o silêncio é um alerta do futuro
Não há nada nos autores citados por Corbin que seja estranho ao silêncio na praia de Cidreira. A relação entre o silêncio e o espaço noturno, evocado por Lúcrecio em A natureza das coisas, é o mesmo; eu me detenho no cair da noite e o silêncio que envolve a praia, com o silêncio sucessivo dos ventos, arbustos e homens como descritos por Maurice Guerin; é o mesmo silêncio associado aos efeitos da lua, que tanto cai em Cidreira, como na prosa de F. Chateaubriand, quando “nem um só musgo suspira quando a lua está no céu”. Os elementos que estão nos poemas de Walt Whitman, nos Estados Unidos, e de tantos outros escritores mundo afora também estão em Cidreira, simplesmente porque aqui, à noite, a praia e o silêncio também se conjugam em harmonia.
Na filosofia, o próprio Gastão Bachelard, em seu A poética do espaço, teria afirmado que o ouvido é o sentido da noite. É ele que nos faz perceber os ruídos inseridos no silêncio do espaço noturno, e talvez, uma passagem simplesmente sensacional de Proust, em seu Em busca do tempo perdido, que exalta o silêncio, seja digna de destaque: “Existe na vida uma hora em que os olhos não toleram mais que uma luz, a da bela noite… em que os ouvidos não podem mais escutar outra música se não a tocada pelo luar na flauta do silêncio”. Corbin, como se pode ver, é notável explorador dos sentidos do silêncio na arte e na cultura. Contudo, existe em sua conclusão, algo que é muito anterior aos conflitos políticos que vivemos hoje, quando o anúncio de uma guerra mundial é uma opção realista, ainda que distante: é o mais trágico de todos os silêncios “o que reinará quando a Terra estiver morta, quando sua dissolução realizar-se-á no silêncio, o dia em que tudo calar-se-á”, evocado por Vigny” (p.216). Nesse mundo em que “com um só golpe a natureza interromperá seus ruídos”, trecho dos Poemas de Leconte de Lisle, Corbin nos alerta para a verdadeira consciência do silêncio. Ela é profundamente trágica, ela é a morte do mundo, o que é, contudo, possível cada vez mais. Aprendemos a ouvir na praia o som do silêncio para nos alertarmos para os destinos de uma humanidade na qual o capitalismo predador preda tudo, inclusive o próprio planeta.
Foto de capa: Jakub Schikaneder (1855–1924). Mar Silencioso. Óleo sobre tela, 1922–1924. Reproduzido de https://www.galeriekodl.cz/en/polozka/5491/





