Em períodos de intensa disputa política, determinados acontecimentos raramente se esgotam em si mesmos. Logo passam a compor um quadro mais amplo, no qual se confrontam projetos de poder, interesses econômicos e, sobretudo, estratégias eleitorais. Estamos assistindo, neste exato momento, à resposta dos endinheirados às boas notícias colhidas pelo governo Lula nas últimas semanas.
O cenário recente merece atenção. O que ocorreu nos últimos trinta dias é amplamente conhecido. Lula lidera com folga em todas as pesquisas, enquanto o governo finalmente registra bons índices de aprovação. Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo recursos financeiros a Daniel Vorcaro, afunda no abismo cavado pelo excessivo apego ao dinheiro fácil. Anteontem, uma pesquisa mostrou Lula abrindo ao menos doze pontos de vantagem em todos os cenários de segundo turno. Para os donos do poder econômico-financeiro, esse quadro está longe de ser confortável.
Ontem, em sessão no STF, Gilmar Mendes enquadrou a tríade formada por Mendonça, Nunes Marques e Fux, frequentemente associada às tentativas de reabilitar métodos que marcaram a Lava Jato. Hoje, a resposta veio por outro caminho. Jaques Wagner, que até aqui parecia condenado ao banco de reservas do Caso Master, foi subitamente promovido a protagonista.
A discussão, contudo, não deve girar em torno da culpa ou da inocência de ninguém, muito menos da de um senador cuja trajetória pública é amplamente conhecida. O elemento mais relevante encontra-se em outra dimensão. Em poucas horas, o caso passou a ocupar posição central no debate público. Multiplicaram-se interpretações, acusações e conclusões. Em muitos casos, elas avançaram muito mais depressa do que os fatos disponíveis permitiam.
A mídia tradicional fez a sua parte. Em tempo recorde, produziu as manchetes, os enquadramentos e a atmosfera necessários para transformar o episódio no principal assunto do dia. Os algoritmos completaram o trabalho. Em poucas horas, Jaques Wagner ocupava espaços de destaque nas tendências das redes, como se nenhum outro tema merecesse atenção. Saiu a Copa do Mundo, entrou Jaques Wagner.
Convém preservar uma distinção elementar.
É perfeitamente possível que as suspeitas venham a ser confirmadas.
Também é perfeitamente possível que não venham.
Entre essas duas hipóteses existe um espaço que não pode ser eliminado por conveniência política, interesses eleitorais ou pela ansiedade característica do ambiente digital. Esse espaço chama-se prova.
Se houver crime, que haja investigação.
Se houver prova, que haja julgamento.
Se houver culpa, que haja punição.
A validade dessa regra depende precisamente de sua aplicação universal.
O problema decisivo, portanto, não consiste em saber o que cada campo político deseja acreditar. Trata-se de compreender como determinados acontecimentos passam a ser utilizados na disputa pela formação da opinião pública.
É aí que entra em cena o jornalismo malugaspariano. A máquina colocada hoje em movimento, trabalhando freneticamente, continuará assim nos próximos dias. Bastaram quatro horas após a operação da Polícia Federal para que Jaques Wagner e o PT ocupassem mais espaço na mídia do que inúmeras questões de interesse público que, até então, dominavam o debate nacional.
O objetivo é evidente. Transformar o episódio em espetáculo, desgastar Lula e, ao mesmo tempo, criar espaço para uma alternativa eleitoral capaz de conter sua vantagem nas pesquisas. Os endinheirados seguem sonhando com uma terceira via que nunca existiu de fato e dificilmente existirá, enquanto aproveitam o momento para fazer Lula sangrar politicamente a cada manchete sobre Jaques Wagner.
É assim desde que Lula e o PT existem.
No entanto, o surgimento de Jaques Wagner como fator de interrupção de uma sequência de boas notícias para a candidatura de Lula envolve mais do que uma aparente tentativa de frenagem. Estão em jogo a confiança pública nas instituições, a qualidade do ambiente democrático, a capacidade de uma sociedade distinguir investigação de condenação antecipada e o eventual uso dos poderes de Estado, especialmente da polícia e do Judiciário, para influenciar a percepção pública em períodos decisivos do processo eleitoral.
Os custos da confusão entre essas esferas já foram experimentados pelo país em diferentes momentos de sua história recente. Por essa razão, toda cautela é insuficiente quando denúncias, operações policiais, disputas eleitorais e coberturas midiáticas passam a se entrecruzar no mesmo espaço político.
Para confirmar todas as suspeitas de manipulação possíveis, a sanha lavajatista — leia-se, antipetista — volta a se manifestar com raiva, unhas, dentes, pelos e contrapelos. Não sei se amparada em algum dispositivo legal específico, o fato é que o ministro André Mendonça determinou que a direção da Polícia Federal não seja informada sobre operações por ele autorizadas. Não me recordo de algo semelhante em qualquer momento da história republicana brasileira. Ainda que tenha suporte legal, é razoável pensar que, quando o objetivo é alvejar a candidatura de Lula, qualquer expediente parece admissível — e, não raro, convenientemente não publicado pela velha mídia, velha.
A maturidade democrática exige precisamente isso: nem adesão automática às acusações, nem absolvições preventivas. Antes de tudo, impõe-se o compromisso com os fatos, o respeito às garantias jurídicas e a vigilância permanente diante de mecanismos que procuram converter hipóteses em certezas antes que as evidências tenham sido devidamente produzidas. O que está em jogo agora não é apenas a reputação de Jaques Wagner. Está em questão a capacidade de impedir que a suspeita ocupe o lugar da investigação, que conjecturas sejam tratadas como provas e que a disputa política se sobreponha à Justiça. Quando essa fronteira se desfaz, deixam de estar em risco apenas os direitos de um indivíduo. No horizonte próximo encontra-se algo ainda mais valioso: a integridade das próximas eleições
Foto de capa: © Valter Campanato/Agência Brasil


