Por ADÃO VILLAVERDE e LUCAS TEDESCO*
O Rio Grande do Sul está diante de uma oportunidade rara – talvez a mais relevante de nossa geração – e a maior parte da sociedade ainda não percebeu. Enquanto o debate público segue concentrado nas urgências fiscais, na crise climática ou nas dificuldades do setor primário, que evidentemente têm importância, uma transformação silenciosa acontece no tabuleiro global: a reorganização da cadeia produtiva e de suprimentos mundial de semicondutores. E, pela primeira vez em décadas, o Brasil – e particularmente o Rio Grande do Sul – não está completamente fora do jogo.
A indústria de semicondutores deixou de ser apenas um segmento tecnológico. Tornou-se eixo de business, de independência científico-técnica, de soberania, de política industrial e de poder geopolítico. Inteligência artificial, data centers, veículos elétricos, energia renovável, sistemas militares, telecomunicações avançadas – todos dependem de chips. O domínio e a expertise nesta cadeia, passou a definir quem lidera e quem depende. E o mundo está se reorganizando, e se movimentando muito.
Um rearranjo que abre espaço para novos atores
A disputa entre Estados Unidos e China acelerou o movimento de desconcentração da produção asiática, no Pacífico do Leste. Governos estão injetando bilhões em incentivos, atraindo fábricas, centros de design, encapsulamento e pesquisa. A lógica não é mais apenas eficiência de custos – é segurança estratégica.
Nesse cenário, surge uma brecha histórica para países que consigam oferecer três ativos fundamentais: estabilidade institucional, energias limpas e capital humano qualificado. O Brasil tem esses ativos, e o Rio Grande do Sul, talvez mais do que qualquer outro estado brasileiro, reúne as condições para se posicionar de maneira consistente.
Não se trata de competir com Taiwan ou Coreia do Sul na fabricação de wafers ultrafinos no “estado da arte”. Esse é um jogo de gigantes, intensivo em capital e com décadas de aprendizado acumulado. Trata-se de ocupar posições estratégicas em outras etapas da cadeia: design de circuitos, encapsulamento, testes, chips maduros, semicondutores de potência, aplicações para energia e indústria, e, sobretudo, infraestrutura para inteligência artificial. É aqui que o RS entra.
Um estado “envelhecido” que precisa mudar sua trajetória
O Rio Grande do Sul envelheceu antes de enriquecer. Perdeu dinamismo demográfico. Ainda depende fortemente de atividades primárias e extensivas, altamente eficientes, mas com baixo efeito multiplicador tecnológico.
O agro é fundamental – e continuará sendo. Mas ele não resolve sozinho o desafio de retenção de talentos, de geração de empregos altamente qualificados e de inserção em cadeias globais de alto valor agregado. Sem uma inflexão tecnológico-inovativa, o RS corre o risco de aprofundar sua estagnação relativa.
A indústria de semicondutores e as cadeias associadas oferecem exatamente o tipo de transformação estrutural que tanto necessitamos:
– empregos qualificados e bem remunerados;
– retenção de jovens engenheiros e pesquisadores;
– atração de centros de pesquisa internacionais;
– integração a cadeias globais de longo prazo;
– investimentos privados com horizonte de décadas, não de safras.
E, diferentemente do que muitos imaginam, o RS já possui uma base concreta e os requisitos e os elementos chaves, na cadeia completa.
O maior ecossistema brasileiro está aqui
A reativação da Ceitec, as consolidações da HT Micron e da ittCHIP, as instalações da EnSilica e da Impinj no TECNOPUC, os planos e a chegada da Tellescom (parceria com Malásia) em solo rio-grandense, a tradição da UFRGS e da PUCRS em microeletrônica, além de programas estaduais de formação de mão de obra, e o Programa Gaúcho de SemiCon, e os benefícios de ações de instrumentos nacionais como o PADIS (Programa de Apoio à Indústria de SemiCon), transformaram no Rio Grande do Sul como o principal ecossistema brasileiro no setor. E isso não é retórica, é fato, basta verificar o que disse o CEO da associada malaia, porque escolheram o RS. Exatamente pelo que foi descrito acima.
Formar engenheiros, dominar etapas de design e encapsulamento, ter capacidade de produzir dispositivos com nanometria mediana (maduros), operar em semicondutores de potência – como o carbeto de silício, estratégico para transição energética – não acontece da noite para o dia. É resultado de décadas de acumulação técnica. O Brasil e o RS investem na área desde o Plano Nacional de Informática – PNI -, início da década de 80, do século passado.
O RS tem essa massa crítica. E, em um setor onde previsibilidade é fundamental – projetos levam meses entre design e produção – ter um polo institucionalmente estável e tecnicamente maduro é um ativo valioso e atraente.
A questão é saber se teremos visão estratégica para consolidar essa posição.
A Ceitec: símbolo e instrumento
É nesse ponto que entra a discussão sobre a Ceitec. Nenhum país relevante no setor de semicondutores construiu capacidade industrial sem apoio estatal significativo. A indústria é intensiva em capital, conhecimento e tempo de maturação. Mesmo as gigantes privadas operam em ecossistemas profundamente subsidiados.
Foi assim com a taiwanesa TSMC, com a Samsung coreana, com a ASML holandesa e tantas outras empresas. Inclusive asencubadas a partir do Silicon Valley, se não fossem as inversões governamentais e as chamadas encomendas de Estado americano, nas áreas de segurança, energia, indústria militar e tantas outras, não se tornariam players globais como são hoje.
A Ceitec nunca foi – e não precisa ser – uma nova TSMC. Sua função estratégica é outra:
– formar competências industriais;
– operar nichos específicos, com chips maduros ou semicondutores de potência;
– sustentar a capacidade nacional mínima em etapas críticas;
– ancorar um ecossistema que permita ao país negociar em melhores condições no cenário global;
– ser atrativa e geradora de spin offs,como já vem fazendo.
Sua reativação não é apenas uma decisão empresarial. É uma decisão de posicionamento estratégico. Abandonar completamente essa infraestrutura, como foi tentativa recente, significaria abrir mão de duas décadas de aprendizado e da única base industrial pública brasileira no setor. Aperfeiçoá-la, integrá-la à parcerias privadas e inseri-la numa estratégia nacional, de forma coordenada e planejada é o caminho mais racional. A Ceitec não deve ser vista como solução isolada, mas como peça de um arranjo maior.
A nova fronteira: energia, IA, IoT, big data, data centers ….
Há ainda outro vetor pouco explorado no debate gaúcho: a infraestrutura para inteligência artificial. Data centers e supercomputadores exigem energia abundante e limpa, água para resfriamento e estabilidade institucional. Empresas globais buscam exatamente esses atributos para diversificar suas operações fora de zonas de tensão geopolítica.
O Rio Grande do Sul, com sua matriz energética cada vez mais limpa e seu ambiente acadêmico consolidado, pode se tornar um polo de infraestrutura de IA associada à cadeia de semicondutores. Não se trata apenas de fabricar chips, mas de integrar-se ao ecossistema que os utiliza.
Essa integração gera demanda contínua, cria empregos qualificados e estabelece vínculos de longo prazo com empresas globais.
A janela histórica
Especialistas são unânimes em um ponto: o Brasil perdeu oportunidades anteriores na microeletrônica. Mas o cenário atual é diferente. A desconcentração global, o reshoring para o Ocidente e a busca por alternativas fora da Ásia, criaram uma nova janela de oportunidade.
Todos sabemos que janelas históricas não permanecem abertas indefinidamente. Se o RS hesitar, outros ocuparão o espaço. Estados com políticas industriais mais agressivas, países latino-americanos mais coordenados ou regiões que ofereçam pacotes mais robustos de incentivos, podem se posicionar na nossa frente.
O que está em jogo não é apenas um setor. É o posicionamento do Estado na economia do século XXI. Não é sobre chips. É sobre projeto de futuro do Rio Grande
Reduzir esse debate a uma discussão técnica ou ideológica é um erro estratégico. Estamos falando de redefinir a matriz produtiva de um estado envelhecido, que precisa gerar renda sofisticada, atrair cérebros e participar das cadeias globais que moverão a economia nas próximas décadas.
O agro continuará forte. A indústria tradicional seguirá relevante. Mas, sem densidade tecnológico-inovativa, o crescimento será limitado.
A cadeia de semicondutores oferece algo raro: uma combinação de business, independência científico-técnica, soberania geopolítica e desenvolvimento sustentável de longo prazo, com inserção internacional.
O Rio Grande do Sul já possui requisitos e elementos chaves, que são ativos enormes. Já tem empresas, universidades, infraestrutura e capital humano. E também possui, inclusive, uma empresa que já gerou e atraiu spin offs, se preparando inclusive para cumprir seu papel na Nova Indústria Brasil – NIB.
O que parece que falta é consciência coletiva, principalmente da comunidade empresarial e dos gestores públicos e da política, acerca da importância estratégica deste tema para a Nação.
O mundo já entendeu que semicondutores são estratégicos. A pergunta que precisa ser feita, aqui, é simples: Rio Grande do Sul e o Brasil estão dispostos a entender também – e agir de acordo?
Os primeiros passos, já foram dados!
*Adão Villaverde é engenheiro, Professor de Gestão do Conhecimento e da Inovação da Escola Politécnica da PUCRS e Consultor de SemiCon do TECNOPUC.
*Lucas Tedesco é Publicitário e funcionário da CEITEC S.A.
Foto de capa: IA




