Por Solon Saldanha *
Em reunião decisiva nesta terça-feira (31), no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda o processo de desincompatibilização de cerca de 20 ministros que deixarão seus cargos até sábado (4). O objetivo do encontro, além de formalizar as saídas para as disputas eleitorais e rearranjos de campanha, é municiar os aliados com dados de todas as áreas do governo para o enfrentamento direto à oposição nos estados.
O cenário político nacional passa por uma profunda reconfiguração nesta semana. Com o prazo legal de desincompatibilização eleitoral encerrando-se no próximo sábado, dia 4 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda, nesta terça-feira (31), uma reunião ministerial de caráter estratégico. O encontro sela a saída de aproximadamente 20 dos 38 ministros da atual Esplanada, que se afastarão para disputar cargos eletivos ou para assumir funções de coordenação na campanha do governo.
A reunião, realizada na Sala Suprema do Palácio do Planalto, tem como foco central a unificação do discurso governista. Lula cobrará dos ministros que saem e dos que ficam uma postura ativa e integrada de defesa do legado da gestão federal. A ordem expressa do presidente é que os candidatos não se limitem a defender as entregas de suas respectivas pastas, mas dominem as realizações de todo o governo para enfrentar o avanço da oposição nas bases regionais.
Balanço econômico e o embate com a oposição
Para dar sustentação técnica aos discursos dos futuros candidatos, a reunião contará com apresentações estratégicas. Dario Durigan, sucessor de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, foi escalado para apresentar um balanço minucioso dos avanços e desafios da área econômica. A apresentação inclui um estudo específico, encomendado pelo presidente, sobre os efeitos das taxas de juros na economia brasileira.
Além do panorama econômico, a comunicação do governo será tema de exposição conduzida por Sidônio Palmeira, da Secretaria de Comunicação. Os aliados foram expressamente orientados a pautar debates regionais com temas internacionais que afetam o país. Um dos pontos centrais dessa narrativa será a abordagem dos impactos negativos da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira, vinculando as iniciativas do governo de Donald Trump nos Estados Unidos ao apoio recebido pela família Bolsonaro no Brasil.
As principais baixas e as costuras políticas
A dança das cadeiras envolve nomes do primeiro escalão e altera diretamente o núcleo duro do governo. Entre as principais mudanças estão:
- Casa Civil: Rui Costa (PT) deixa a pasta para concorrer ao Senado pela Bahia e será o responsável por apresentar o balanço geral de realizações do governo nesta terça-feira.
- Relações Institucionais: Gleisi Hoffmann (PT) também se afasta do cargo para disputar uma vaga no Senado pelo estado do Paraná. O substituto para a articulação política ainda não foi definido. Lula recuou na indicação de Olavo Noleto (Conselhão) após resistências de líderes do Congresso Nacional.
- Ministério da Fazenda: Fernando Haddad (PT) deixa a economia para consolidar o palanque governista em São Paulo, lançando-se candidato ao governo do estado a pedido direto de Lula.
- MDIC e Empreendedorismo: Com o lançamento de Geraldo Alckmin (PSB) novamente à vice-presidência, a pasta do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços deve ser assumida por Márcio França (PSB), abrindo espaço no Ministério do Empreendedorismo.
Por outro lado, nomes como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral), Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) e o próprio Sidônio Palmeira permanecerão em seus postos no governo federal.
Indefinições e estabilidade administrativa
Apesar do grande volume de saídas confirmadas, o desenho final da Esplanada ainda possui arestas a serem aparadas, algumas dependendo de decisões personalíssimas do presidente Lula.
No Ministério da Educação, Camilo Santana estuda se assumirá a coordenação de campanha ou se disputará o governo do Ceará. Para garantir a continuidade, o secretário-executivo da pasta, Leonardo Barchini, foi anunciado nesta segunda-feira (30) para assumir o comando do MEC. Situação similar ocorre na Previdência Social, onde o pedetista Wolney Queiroz aguarda aval para definir sua candidatura a deputado federal por Pernambuco.
Há também casos em que o presidente atua para conter baixas. É a situação de Alexandre Silveira (PSD), titular de Minas e Energia. Lula teria solicitado a permanência do ministro no cargo para assegurar a estabilidade e a governabilidade técnica da chamada “cozinha” do Planalto, amortecendo o impacto da saída simultânea de pilares políticos como Haddad, Rui Costa e Gleisi Hoffmann.
Cobrança por engajamento
A exigência de Lula por combatividade e solidariedade da equipe não é inédita. Em novembro passado, o presidente já havia cobrado duramente os ministros que foram governadores para que adotassem uma postura mais ofensiva no debate público sobre a segurança nos estados.
A agenda desta terça-feira foi programada para ser mais enxuta que as reuniões ministeriais tradicionais de anos anteriores, com previsão de término por volta das 12h. O encurtamento do debate deve-se ao compromisso de viagem do presidente Lula para São Paulo no período da tarde. Para os secretários-executivos que assumirão as titularidades das pastas de forma interina ou definitiva, a ordem do Planalto é uma só: manter o ritmo acelerado de trabalho e entregas.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Reunião ministerial (arquivo). Crédito: Ricardo Stuckert




