Rede internacional de extrema-direita acende alerta sobre interferência digital na eleição brasileira

Governo acompanha risco de desinformação, perfis falsos, inteligência artificial e deepfakes serem utilizados principalmente nos últimos dias da campanha.
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 11:30
Editado em 24 de agosto de 2026 às 11:39
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Da Redação*

As conexões de integrantes do bolsonarismo com estrategistas e governos estrangeiros aumentaram a preocupação do Palácio do Planalto com uma possível ofensiva internacional de desinformação na reta final da eleição presidencial. O temor é de que conteúdos produzidos ou impulsionados no exterior, inclusive por perfis falsos, inteligência artificial e deepfakes, sejam utilizados para tentar alterar o comportamento do eleitorado quando houver pouco tempo para reação das autoridades.

Um dos personagens observados é o estrategista argentino Fernando Cerimedo, que ganhou notoriedade no Brasil ao questionar o resultado da eleição de 2022. Ele permanece próximo de Eduardo Bolsonaro e, mais recentemente, participou da campanha presidencial de Honduras, trabalhando para o grupo político de Nasry “Tito” Asfura.

De 2022 a uma articulação internacional

Cerimedo realizou, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, a transmissão “Brasil fue robado”, na qual utilizou dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral para levantar suspeitas sobre diferentes modelos de urnas. A apresentação passou a integrar a ofensiva bolsonarista contra a confiabilidade do sistema eleitoral, embora a Procuradoria-Geral da República não tenha encontrado elementos suficientes para denunciá-lo por participação no plano de ruptura institucional.

Neste ano, Eduardo Bolsonaro voltou a aparecer publicamente ao lado do argentino e elogiou sua atuação. Cerimedo, por sua vez, relatou ter trabalhado na eleição hondurenha com Andy Rivas e agradeceu o apoio de Brad Parscale, ex-chefe da campanha digital de Donald Trump, que, segundo ele, forneceu tecnologia e equipe para operações políticas na América Latina.

A rede inclui ainda o consultor norte-americano Dick Morris, antigo estrategista de Bill Clinton que posteriormente se aproximou de Trump. Morris participou da articulação entre a candidatura de Asfura e o entorno do presidente norte-americano, reforçando a dimensão internacional da operação política em Honduras.

Hondurasgate e a conexão israelense

Outro elemento acompanhado é o chamado Hondurasgate, baseado em 37 gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Os áudios descrevem supostas articulações envolvendo personagens de Honduras, Estados Unidos, Argentina e Israel, mas ainda dependem de autenticação independente. Cerimedo não aparece comprovadamente como integrante da operação mencionada nas gravações e rejeitou publicamente qualquer participação.

Israel também mantém uma conexão documentada com Eduardo Bolsonaro. Em janeiro de 2025, o ministro israelense Amichai Chikli confirmou ter fornecido ao então deputado informações sobre a Fundação Hind Rajab, que tentara responsabilizar judicialmente no Brasil um militar israelense por supostos crimes na Faixa de Gaza. Chikli afirmou que seu governo trabalhou com “amigos na oposição brasileira” para divulgar informações contra a organização.

Planalto teme ofensiva nos últimos dias

É a combinação dessas experiências que preocupa o governo brasileiro. Integrantes do Planalto avaliam que uma operação concentrada nos últimos dias da campanha, baseada em conteúdos produzidos no exterior e distribuídos em grande escala pelas redes sociais, poderia produzir mudanças eleitorais antes que sua origem e seus financiadores fossem identificados.

As plataformas digitais também estão sob observação. Na avaliação de integrantes do governo, uma eventual reeleição de Lula poderia ampliar a pressão pela regulamentação das redes, enquanto um possível retorno do ativismo político de Elon Musk é acompanhado diante de suas intervenções anteriores em debates políticos de outros países.

O principal receio, portanto, não está apenas na circulação de informações falsas, mas na velocidade e na escala de uma eventual operação coordenada. Uma ofensiva lançada às vésperas da votação poderia alcançar milhões de brasileiros antes que as instituições conseguissem descobrir quem a organizou, quem a financiou e de onde partiu.


Redator: Solon Saldanha

Ilustração: Cerimedo entre os Bolsonaro. Crédito: RED, com uso de IA

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