Por RUDOLFO LAGO*, do Correio da Manhã
O governo não passou recibo público. Mas o recado dado há alguns dias pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, sacudiu as entranhas do Palácio do Planalto. Em um encontro com empresários em São Paulo, Kassab disse que Lula não venceria as eleições se elas fossem hoje. E completou dizendo que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, era um “ministro fraco”. No dia seguinte, Lula saiu em defesa pública de Haddad. Mas, principalmente, as críticas ao ministro da Fazenda, que partiam da esquerda do próprio governo, cessaram. E outras defesas públicas a Haddad vieram. Atribui-se ao freio de arrumação dado nesse sentido a demissão no Psol do economista Davi Deccache, que era forte crítico da política imprimida por Haddad.
Fogo de bazuca
Kassab pôs o dedo na ferida, e constatou-se o óbvio. As críticas à política de Haddad, que o próprio PT batizara de “austericídio”, eram um fogo amigo de bazuca atômica. Um dos principais ministros, que já foi testado como alternativa a Lula, era atacado por seu próprio governo.
Psol
No caso do Psol, a briga não foi pacificada. A demissão de Deccache ficou longe de uma unanimidade, e parte do partido fez um abaixo-assinado em sua defesa. Mas prevaleceu a ala que votou poe sua saída, alegando que ele ajudava a promover “disputas internas”.
Haddad vinha sofrendo forte ataque especulativo
Até Lindbergh agora elogia feitos de Haddad | Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados
Após o ataque, a avaliação interna no governo foi de que o fogo amigo vinha apontando como metralhadora os tiros para os pés de Lula. Lembrou-se de famoso cartaz exibido em uma manifestação em 1973, durante o governo socialista de Salvador Allende: “É um governo de m…, mas é o nosso governo”. Concorde-se ou não da política de Haddad, se ele a tem conduzido, a primeira constatação é de que isso tem o aval de Lula. Se não fosse assim, o fraco não seria Haddad, mas o próprio Lula. Assim, se Haddad conduz e Lula avaliza, não deveria caber ao próprio partido tanto de Haddad como de Lula mover a maior quantidade das críticas.
Abalo
Na avaliação interna, ficou claro como o conjunto das coisas abalou a posição de Haddad. No ano passado, o Instituto Quaest fez uma simulação eleitoral com o ministro no lugar de Lula. Na ocasião, venceu todos os adversários testados. Agora, virou o mais rejeitado.
Complicado
Um cenário complicado diante do fato de que não há alternativa à esquerda posta para Lula em 2026. E ele próprio já deus sinais de que mesmo muitas vezes questiona se terá vitalidade para disputar nova eleição, aos 81 anos. Vale, assim, queimar uma alternativa?
Defesas
O fato é que as defesas surgiram na esteira da cessação dos ataques. Um dos quadros à esquerda, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, foi dos primeiros a enumerar as realizações do ministro da Fazenda. Depois, foi o próprio Lula a sair em sua defesa.
Armistício
E, finalmente, um dos mais críticos a Haddad, o novo líder do PT, Lindbergh Farias (RJ). Em entrevista na quarta-feira (5) à Globo News, ao lado do novo líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), encheu Haddad de elogios. O armistício encerrou o fogo amigo.
*Rudolfo Lago é jornalista do Correio da Manhã / Brasília, foi editor do site Congresso em Foco e é diretor da Consultoria Imagem e Credibilidade
Publicado originalmente no Correio da Manhã
Foto de capa: Fogo amigo contra Haddad foi contido | Ricardo Stuckert/PR
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