Por Solon Saldanha *
Ao encerrar seu ciclo à frente do Palácio das Esmeraldas para focar em ambições nacionais, o ex-governador Ronaldo Caiado deixa para trás uma estrutura estatal marcada pela presença maciça de familiares. O caso levanta um debate profundo sobre os limites das brechas jurídicas diante dos princípios constitucionais que regem o serviço público brasileiro.
No tabuleiro político de Goiás, o sobrenome Caiado historicamente carrega peso, mas dados recentes revelam que esse prestígio se traduz em uma ocupação extensiva de cargos na administração estadual. No dia 31 de março, ao se afastar do cargo de governador para consolidar sua pré-candidatura à Presidência da República, Ronaldo Caiado (PSD) não apenas transmitiu o comando a Daniel Vilela (MDB), mas deixou uma herança funcional que inclui, no mínimo, dez parentes diretos em posições estratégicas de confiança.
Um levantamento detalhado na folha de pagamento do Estado expõe a magnitude do fenômeno: em março de 2026, 50 pessoas com o sobrenome Caiado constavam nos registros financeiros do governo goiano. O custo mensal para manter esse grupo, que abrange desde servidores efetivos e temporários até aposentados e comissionados, ultrapassa a cifra de R$ 650 mil. Se forem contabilizados familiares que não carregam o sobrenome principal, o alcance da rede familiar na estrutura pública torna-se ainda mais vasto.
A engenharia das nomeações e as “brechas” do parentesco
A polêmica centra-se, primordialmente, nos dez nomes identificados em cargos de livre nomeação e exoneração — os chamados cargos comissionados. O grupo é composto majoritariamente por primos de Caiado e o cônjuge de uma prima. Juridicamente, o ex-governador sustenta-se em uma interpretação estrita da Súmula Vinculante nº 13 do Supremo Tribunal Federal (STF). O entendimento atual do STF veda o nepotismo para parentes até o terceiro grau (pais, filhos, irmãos, avós, netos, tios e sobrinhos). Ao nomear primos (parentes de quarto grau), a gestão Caiado opera dentro de uma zona cinzenta da legislação.
Entre os nomes de destaque está Adriano da Rocha Lima, primo do ex-governador e assessor na Secretaria de Relações Institucionais, cujo nome circula como possível candidato a vice-governador na chapa de Vilela. Outros exemplos incluem chefias de gabinete e assessorias especiais em pastas fundamentais como Esporte, Desenvolvimento Social e Segurança Pública. Em nota oficial, Ronaldo Caiado defende que todas as contratações passaram pelo crivo da Procuradoria-Geral do Estado e possuem amparo técnico e legal.
Contudo, para especialistas em Direito Administrativo, a conformidade com a letra fria da lei não encerra a questão. O argumento central de juristas é que a concentração de familiares em uma única gestão, ainda que de quarto grau, pode configurar uma afronta direta aos princípios da impessoalidade e da moralidade administrativa, previstos no Artigo 37 da Constituição Federal. Segundo essa visão, a máquina pública não pode ser utilizada como extensão do núcleo familiar, sob o risco de comprometer a eficiência e a justiça na ocupação de funções de Estado.
O braço social e o salto orçamentário na OVG
A influência familiar estende-se também à Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), entidade sem fins lucrativos que atua em parceria estreita com o governo. Sob a presidência de honra da ex-primeira-dama Gracinha Caiado — agora pré-candidata ao Senado —, a OVG viu seu orçamento saltar de R$ 434 milhões para impressionantes R$ 738 milhões no aditivo mais recente.
Dentro da organização, a diretoria-geral é exercida por Adryanna Leonor Melo de Oliveira Caiado, casada com um primo do ex-governador. Adryanna acumula funções e remunerações que totalizam R$ 67,6 mil mensais, somando seus vencimentos na OVG com participações nos conselhos da Goiás Parcerias e da Saneago. Além dela, dois sobrinhos de Gracinha ocupam cargos de diretoria e assessoria especial na entidade, com salários que superam os R$ 19 mil.
A defesa de Adryanna e da OVG enfatiza a trajetória de quase três décadas da servidora e os resultados “históricos” alcançados pela gestão no combate à pobreza. Gracinha Caiado, por sua vez, reitera que sua liderança na instituição foi pautada pelo voluntariado e pela eficiência técnica dos escolhidos.
Perspectivas e reflexos políticos
O cenário em Goiás coloca Ronaldo Caiado sob os holofotes no momento em que ele busca o eleitorado nacional. Enquanto o ex-governador assegura a qualificação técnica de sua equipe, o Ministério Público e observadores políticos monitoram o caso. O desafio do novo governador, Daniel Vilela, será gerir essa estrutura herdada, equilibrando a lealdade política ao clã Caiado com a necessidade de transparência exigida por uma sociedade cada vez mais vigilante em relação ao uso dos recursos públicos.
A seguir, a relação dos familiares identificados em funções de confiança na administração direta e na OVG:
No Governo de Goiás:
- Adriano da Rocha Lima (Primo): Secretaria de Relações Institucionais.
- Andrea Parrode da Rocha Lima Dantas (Prima): Gabinete da Sec. de Esporte.
- Antonio Lopes Xavier Nunes (Primo): Sec. de Segurança Pública.
- Cesar Augusto de Sotkeviciene Moura (Cônjuge de prima): Secretário da Retomada.
- Jorge Luiz Ramos Caiado Júnior (Primo): Gabinete da Sec. de Administração.
- Juliana Ramos Caiado (Prima): Sec. de Desenvolvimento Social.
- Leoni di Ramos Caiado Neto (Primo): Superintendência da Polícia Penal.
- Marlon Antonio Santos Ramos Caiado (Primo): Assessoria da Governadoria.
- Patricia Mundim Caiado (Prima): Sec. de Saúde.
- Paulo Henrique Caiado Canedo (Primo): Conselho Administrativo Tributário.
Na OVG e órgãos vinculados:
- Adryanna Leonor Melo de Oliveira Caiado (Cônjuge de primo): Diretoria-geral da OVG, Conselhos da Goiás Parcerias e Saneago.
- Roberta Wendorf de Carvalho (Sobrinha de Gracinha): Diretoria na OVG.
- Décio Agrário Calazans Wendorf de Carvalho (Sobrinho de Gracinha): Assessoria na OVG e Conselho do Detran.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Crédito: reprodução Carta Capital




