A história do racismo nos Estados Unidos, em linha estruturante, teve origem fundacional nos séculos XVII–XIX. O racismo não é um “desvio” posterior porque ele organiza desde a formação do país.
A escravidão foi “racializada”, apesar de só existir uma única raça humana, como base econômica com base na superficial cor da pele. Brancos mataram os nativos e sempre foram livres, enquanto negros vindos da África foram escravizados.
Nessa hierarquia legal, o racismo se apresenta como tecnologia de dominação, não como preconceito espontâneo, mesmo no pós-abolição sem integração dos negros aos plenos direitos civis entre 1863 e 1964. O fim da escravidão aconteceu sem redistribuição de terra ou riqueza para os negros libertos.
As Leis Jim Crow foram um conjunto de leis estaduais e locais nos Estados Unidos, vigentes principalmente no Sul entre 1877 e 1964. Institucionalizaram a segregação racial e a discriminação contra afro-americanos.
Elas impunham a separação física em escolas, transporte, bebedouros, banheiros e restaurantes (veja a impressionante exposição de fotografias de Gordon Parks – A América sou eu – no Instituto Moreira Salles em São Paulo), sob o princípio falso de “separados, mas iguais”, tornando negros cidadãos de segunda classe. Essa segregação se transformou em violência institucional com a “supremacia branca” mantida por meios legais e paraestatais.
Mesmo nos anos 1960 em diante, os direitos civis foram conquistados sem obtenção de igualdade material . Ficou tudo no plano da igualdade jurídica formal com a persistência da desigualdade econômica, urbana e educacional. O racismo foi deslocado do explícito para o estrutural e institucional.
Portanto, o racismo americano não foi superado. Ele foi reconfigurado. Hoje, o racismo nos Estados Unidos raramente se apresenta como lei explícita, mas aparece como encarceramento em massa, violência policial seletiva, segregação urbana, desigualdade patrimonial herdada e estigmatização midiática. O discurso mudou, mas a hierarquia social persiste.
O racismo se espalhou contra latinos e imigrantes hoje — e de forma crescente. Ele se manifesta como criminalização da imigração como fosse “invasão” ou “ameaça”. Os racistas americanos fazem associação entre latinos e crime, informalidade e peso fiscal.
No governo Trump, adotam políticas migratórias seletivamente repressivas. Demonstram tolerância social a abusos contra indocumentados.
Um ponto crucial é o racismo atual ser flexível e funcional: aceita o imigrante como trabalhador precarizado e rejeita-o como cidadão pleno. É um racismo econômico-cultural, não apenas biológico.
Retoma o padrão histórico recorrente desde a conquista do território dos nativos pelos imigrantes anglo-saxões. O alvo muda, mas a lógica permanece.
No passado, agia contra os negros escravizados. Depois, voltou-se contra os negros segregados. Hoje, injustamente, muitos negros estão encarcerados, latinos precarizados, muçulmanos vigiados e asiáticos racializados conforme o ciclo político. O racismo nos EUA opera como mecanismo de ordenação do mercado de trabalho e da cidadania.
O racismo é estrutural e constitutivo dos EUA. Não foi superado, foi sim adaptado.
Hoje, incide fortemente sobre negros (sob controle penal), latinos e imigrantes (sob controle migratório e laboral), e outros grupos conforme a conjuntura geopolítica.
O racismo no Brasil é muito diferente na forma, mas é semelhante na função. É diferente na forma, porque nos Estados Unidos, historicamente, o racismo é aberto, binário e jurídico, opondo branco versus negro com segregação explícita e categorias raciais rígidas.
Mesmo hoje, lá, o conflito racial é nomeado, polarizado e visível. A identidade racial organiza o conflito político. É um racismo frontal, declarativo, frequentemente violento.
No Brasil, o racismo é difuso, negado e camuflado com o mito da democracia racial, gradações de cor (“moreno”, “pardo”, “escuro”) e discriminação sem nome. Opera por silêncio, humor, informalidade e naturalização. É um racismo envergonhado, mas persistente.
Mas sua função é semelhante. Este é o ponto estrutural.
Nos dois países, o racismo serve para organizar o mercado de trabalho, concentrar negros (e no Brasil também pardos) nos piores salários, trabalhos mais precários, maior informalidade. Cria uma hierarquia racial funcional ao capital.
Ao justificar desigualdade social como “natural” nos Estados Unidos atribui à “falha individual”, ao “crime” e à “cultura”. No Brasil, o discurso racista se expressa com a justificativa de “falta de qualificação”, “jeitinho”, “pobreza sem cor”. A desigualdade deixa de parecer produto histórico e vira traço pessoal.
Lá e cá, o controle social é violento. Nos Estados Unidos, com encarceramento em massa, policiamento racializado. No Brasil, com letalidade policial, encarceramento seletivo, abandono territorial. Mudam os instrumentos, mas o alvo social é o mesmo.
Há uma diferença crucial de efeito político por, nos EUA, o racismo ser explícito, gerar conflito aberto, permitir organização política racial, produzir direitos civis, mas também backlash violento. Esse efeito rebote refere-se a uma reação intensa, hostil e agressiva de setores da sociedade, grupos políticos ou instituições contra mudanças sociais, avanços nos direitos fundamentais ou decisões judiciais progressistas.
Esse contra-ataque de extrema-direita busca reverter conquistas de direitos (como os de minorias, mulheres ou pautas ambientais) através de intimidação, violência física, discursos de ódio ou pressão política, alegando “defesa de valores tradicionais”.
No Brasil, o racismo negado dificulta mobilização coletiva, dissolve o conflito em ambiguidades e mantém a hierarquia com menos custo político. Em paradoxo, o racismo brasileiro é menos declarado, mas mais estável.
Na atualização contemporânea, ambos racismos convergem em algo novo: racialização da pobreza, criminalização territorial, associação entre cor, informalidade e risco. Nos EUA isso aparece fortemente contra negros e latinos. No Brasil, contra negros e pobres das periferias, com ou sem nome racial explícito.
Em consequência, ambos racismos se diferenciam na forma, porque nos EUA é explícita, binária, conflitiva. No Brasil é ambígua, negada, cordial. Mas na função é idêntica: hierarquizar o trabalho, naturalizar desigualdade, facilitar controle social.
Em termos de Economia Política, o racismo não é um “desvio moral”, mas um dispositivo de gestão da desigualdade com estilos nacionais distintos.
Na herança escravista comparada entre a dos EUA e a do Brasil, lá a escravidão foi racialmente binária: branco livre versus negro escravizado. Após a abolição em 1863, durante a Guerra Civil, houve segregação legal, exclusão explícita, conflito racial aberto. A desigualdade foi racializada e politizada desde cedo. A clivagem racial virou eixo central do conflito social.
No Brasil, a escravidão foi mais longa e numericamente maior. Abolição foi tardia, em 1888, sem nenhuma ruptura institucional, isto é, sem reforma agrária, sem inclusão educacional, sem políticas de integração.
A miscigenação passou a ser usada como ideologia de pacificação. Aqui, a escravidão não foi superada: foi dissolvida simbolicamente, preservando a hierarquia material.
Houve menos conflito racial aberto e mais desigualdade persistente no Brasil. O racismo aqui não se assume como racismo e se expressa como “classe”, “território”, “cultura”, “mérito”. Isso produz menor polarização racial explícita, maior dificuldade de organização política racial e naturalização prolongada da desigualdade.
O resultado paradoxal é menos conflito aberto, mais estabilidade da hierarquia racial-social. Nos Estados Unidos, o conflito racial explícito gera backlash violento, mas também força reformas em direitos civis e ações afirmativas. A desigualdade persiste, mas é constantemente disputada.
Em termos sistêmicos, o Brasil escolheu a paz social excludente. Os EUA têm o conflito permanente regulado.
Quanto à articulação com políticas públicas, ações afirmativas nos EUA surgem nos anos 1960 como resposta a conflito racial explícito. No Brasil, só avançam nos anos de governos social-desenvolvimentistas, contra uma forte resistência simbólica (“não somos racistas”) da direita conservadora. A resistência em Santa Catarina às cotas nas Universidades públicas revela exatamente o racismo negado.
Quanto à imigração, nos Estados Unidos, o racismo está sendo deslocado para também ir contra latinos, muçulmanos, asiáticos. A imigração atua como mecanismo de segmentação do trabalho.
No Brasil, a imigração é menos central hoje, mas racialização opera internamente em preconceito contra o Nordeste, as periferias, as favelas etc. A função comum, em ambos os países, é disciplinar o trabalho barato.
Nos Estados Unidos, o encarceramento em massa é racializado contra negros e latinos. No Brasil, a prisão e a letalidade policial estão concentradas em jovens negros pobres. Mudam os números e a forma, mas a função é idêntica: controle penal da desigualdade racializada.
A escravidão moldou regimes distintos de racismo. Os EUA produziram conflito aberto e reformas parciais. O Brasil produziu negação, conciliação simbólica e desigualdade duradoura.
Em termos de Economia Política, o racismo, em ambos os países, não é resíduo do passado, mas infraestrutura silenciosa (ou ruidosa) da ordem social.
Foto de capa: Missa afro em São Paulo em comemoração ao Dia da Consciência Negra.| Rovena Rosa (Agência Brasil)





