Da REDAÇÃO
Há uma conclusão particularmente perturbadora em Public Opinion and Turmoil in Latin American Democracies: na América Latina, a democracia ainda não se consolidou como um valor consensual.
A afirmação é mais grave do que simplesmente constatar que governos são impopulares, partidos perderam prestígio ou parlamentos despertam desconfiança. Governos podem ser rejeitados e partidos podem entrar em crise sem que a democracia esteja ameaçada. O problema começa quando a frustração com o funcionamento das instituições se transforma em disponibilidade para aceitar soluções que enfraquecem as próprias regras democráticas.
É esse deslocamento que torna especialmente relevante a coletânea organizada por Helcimara Telles e Joscimar Silva, publicada pela Springer Nature em 2025. Em 13 capítulos, pesquisadores examinam diferentes dimensões das turbulências políticas que atingiram a América Latina nas últimas décadas. O capítulo de abertura trabalha comparativamente com dados de 18 países; os demais aprofundam casos e problemas específicos.
Mais do que a soma desses estudos, porém, interessa o quadro que emerge do conjunto.
O problema está também na sociedade
Durante muito tempo, a preocupação com a estabilidade democrática latino-americana esteve concentrada nas instituições: Forças Armadas, presidencialismo, partidos, parlamentos, tribunais, golpes e crises de governo.
O livro chama atenção para outra dimensão. Instituições democráticas dificilmente permanecem sólidas por muito tempo quando parcelas expressivas da sociedade deixam de confiar nelas e, mais importante, deixam de considerar a democracia um valor em si.
Os dados reunidos na obra revelam um terreno social propício à instabilidade. A confiança média nos partidos políticos latino-americanos gira em torno de apenas 25%. A identificação partidária, que alcançava aproximadamente 45% em 2010, havia caído para 29% em 2020.
Isso não significa que cidadãos insatisfeitos sejam necessariamente autoritários. Seria um salto analítico indevido. A insatisfação também pode produzir renovação democrática, novas formas de participação e pressão por instituições melhores.
O problema é outro: a desconfiança generalizada reduz as defesas sociais da democracia quando surgem lideranças dispostas a transformar frustração em antipolítica e antipolítica em contestação das próprias regras do jogo.
É nesse ponto que vários capítulos da coletânea passam a conversar entre si.
A extrema direita não surge do nada
O caso brasileiro é particularmente esclarecedor.
A ascensão de Jair Bolsonaro em 2018 às vezes é tratada como uma ruptura repentina provocada por uma eleição excepcional. Os estudos reunidos no livro sugerem uma interpretação mais estrutural.
Antes de Bolsonaro chegar à Presidência, já se desenvolviam no país movimentos de direita e extrema direita alimentados por antipetismo, rejeição às instituições políticas, punitivismo e liberalismo econômico, ao mesmo tempo em que as redes digitais criavam novas formas de organização e comunicação política.
O bolsonarismo encontrou, portanto, terreno previamente preparado.
Essa observação é importante porque desloca a explicação do indivíduo para o processo social. Bolsonaro foi decisivo para organizar politicamente esse campo, mas não o criou sozinho.
O capítulo inicial identifica justamente um novo ciclo de turbulência a partir de 2015, caracterizado por protestos antissistema, escândalos de corrupção, impeachments, tentativas de golpe, contestação de resultados eleitorais e ascensão de lideranças de extrema direita.
A democracia passa então a enfrentar um paradoxo: as próprias eleições podem levar ao poder forças que utilizam a legitimidade eleitoral para atacar instituições que tornam possíveis eleições livres.
Quando o partido desaparece, alguém ocupa seu lugar
A crise da representação partidária é, por isso, um dos elementos mais importantes do livro.
Partidos são instituições pouco amadas, mas cumprem uma função que nenhuma democracia representativa conseguiu eliminar: organizam interesses, selecionam lideranças, estruturam disputas e estabelecem algum vínculo entre sociedade e Estado.
Quando enfraquecem, a representação não desaparece.
Ela muda de mãos.
Líderes personalistas, influenciadores digitais, igrejas, movimentos antissistema e candidatos outsiders podem ocupar parte do espaço abandonado pelas organizações tradicionais.
As redes sociais aceleraram esse processo porque permitem estabelecer relações aparentemente diretas entre líder e eleitor. A mediação institucional é substituída pela sensação de proximidade pessoal.
Isso pode democratizar o acesso à esfera pública, mas também favorece uma política na qual identidade, ressentimento e pertencimento pesam mais do que programas e organizações.
A coletânea é particularmente útil ao mostrar que a crise dos partidos, a expansão das redes e a emergência dos outsiders não devem ser estudadas como fenômenos independentes. São dimensões diferentes de uma transformação da representação política.
Polarização não é o problema — eliminar o adversário é
Outro mérito do livro está em evitar uma condenação simplista da polarização.
Democracia significa conflito. Direita e esquerda não precisam aproximar seus programas para que uma sociedade seja democrática. Ao contrário: diferenças políticas reais dão sentido às eleições.
A questão decisiva é outra.
Há uma diferença entre disputar duramente com um adversário e negar a esse adversário o direito de participar da disputa.
O estudo comparativo sobre polarização distingue justamente formas de conflito compatíveis com a democracia daquelas em que o adversário passa a ser tratado como inimigo ilegítimo.
Essa distinção ajuda a compreender um dos problemas centrais da política contemporânea. O perigo não está na existência de projetos antagônicos, mas na transformação do antagonismo político em uma disputa na qual apenas um dos lados teria direito legítimo ao poder.
A experiência brasileira entre 2018 e 2022 torna essa discussão muito mais do que acadêmica.
Quando a política se transforma em guerra religiosa
É nesse contexto que o capítulo dedicado à religião ganha especial importância.
O crescimento político de setores evangélicos não constitui, em si, um problema democrático. Igrejas, fiéis e organizações religiosas têm o mesmo direito de participação política que quaisquer outros grupos sociais.
A questão surge quando determinadas concepções religiosas deixam de reivindicar espaço dentro de uma sociedade plural e passam a pretender subordinar essa sociedade a uma verdade religiosa específica.
A chamada Teologia do Domínio, discutida no livro, oferece um exemplo particularmente importante dessa passagem. Em suas formulações mais politizadas, a disputa pelo Estado integra uma luta destinada a fazer com que diferentes esferas da sociedade sejam orientadas por princípios cristãos.
Quando essa concepção se combina com a extrema direita, a política pode assumir a forma de uma batalha entre o bem e o mal.
E isso produz uma dificuldade democrática elementar.
É possível negociar com um adversário político. É muito mais difícil negociar com alguém considerado representante do mal.
A democracia depende justamente da ideia contrária: ninguém possui sozinho a verdade política e nenhum grupo pode reivindicar para si o monopólio moral da sociedade.
A realidade ainda importa
Talvez uma das conclusões mais interessantes do livro apareça justamente onde se poderia esperar maior pessimismo.
O capítulo sobre negacionismo e teorias conspiratórias mostra a força do raciocínio motivado entre eleitores politicamente identificados. Informações podem ser aceitas ou rejeitadas conforme confirmem identidades e crenças anteriores.
Mas essas barreiras não são absolutas.
Nas entrevistas analisadas pelos pesquisadores, a avaliação da condução da pandemia aparece como a principal explicação entre aqueles que votaram em Bolsonaro em 2018 e não repetiram o voto em 2022.
A constatação é politicamente importante.
Bolhas informacionais, identidades ideológicas e teorias conspiratórias podem alterar profundamente a percepção da realidade, mas a experiência concreta continua capaz de romper fidelidades políticas.
Esse talvez seja um dos antídotos contra interpretações excessivamente deterministas sobre redes sociais e polarização.
Uma obra importante, mas desigual
Como ocorre frequentemente em coletâneas, Public Opinion and Turmoil in Latin American Democracies não apresenta uma teoria única capaz de integrar perfeitamente todos os seus capítulos.
Os objetos e metodologias variam bastante. Há estudos sobre opinião pública, envelhecimento, protestos, impeachment, mulheres na política, raça e gênero, eleições, outsiders, negacionismo e religião. Alguns dialogam diretamente entre si; outros mantêm relação mais distante com o argumento geral.
Essa heterogeneidade é ao mesmo tempo uma limitação e uma qualidade.
Impede que o livro ofereça uma explicação inteiramente integrada da turbulência democrática latino-americana, mas permite enxergar um fenômeno que dificilmente seria compreendido por uma única variável.
Não existe uma causa isolada para a erosão democrática.
Há uma combinação de instituições desacreditadas, partidos enfraquecidos, desigualdades persistentes, novas formas de comunicação, lideranças personalistas, ressentimentos sociais, radicalização ideológica e transformações culturais e religiosas.
E esses elementos não produzem os mesmos resultados em todos os países.
A advertência central
A contribuição mais importante da obra talvez esteja, portanto, menos nas respostas individuais de seus capítulos do que na pergunta que o conjunto nos obriga a enfrentar.
Quanto tempo uma democracia pode permanecer estável quando parte significativa de seus cidadãos deixa de acreditar nas instituições que a sustentam?
Os autores do capítulo inicial chegam a uma conclusão preocupante: o apoio à democracia na América Latina é ambivalente e ela ainda não constitui um valor consensual.
Essa afirmação ajuda a colocar o problema no lugar correto.
Democracias não dependem de cidadãos satisfeitos com todos os governos. Muito menos exigem ausência de conflito, consenso ideológico ou confiança irrestrita nos políticos.
Dependem, porém, de um acordo mínimo: quem perde uma eleição continuará tendo direito de disputar a seguinte; quem pensa diferente continuará pertencendo à comunidade política; e nenhuma maioria eleitoral recebe autorização para eliminar os direitos da minoria.
Quando esse acordo começa a desaparecer, a democracia pode continuar formalmente funcionando.
Pode haver eleições. Congresso. Partidos. Tribunais.
Mas suas defesas sociais já estarão enfraquecidas.
É essa advertência que faz de Public Opinion and Turmoil in Latin American Democracies uma leitura particularmente oportuna para o Brasil e para a América Latina.
Referência
TELLES, Helcimara; SILVA, Joscimar (orgs.). Public Opinion and Turmoil in Latin American Democracies. Cham: Springer Nature Switzerland, 2025.
Acesse o livro:
Public Opinion and Turmoil in Latin American Democracies — Springer Nature
Nota de transparência editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para pesquisa, organização de informações e apoio à redação. O texto final é de responsabilidade da equipe da RED.
Ilustração da capa: Democracias latino-americanas enfrentam desconfiança nas instituições, crise de representação, polarização, impacto das redes digitais e avanço de forças autoritárias. Crédito: Ilustração produzida pela RED com auxílio de inteligência artificial (ChatGPT/OpenAI)

