PT sacrifica candidatura própria ao Piratini em favor de projeto ao Senado e aliança com PDT

Última edição em abril 7, 2026, 06:07

translate

Paulo Pimenta

Por Solon Saldanha *

Articulação liderada por alas internas do partido busca atrair o eleitorado de centro e interromper ciclo de derrotas recentes no Rio Grande do Sul.


Diferente da narrativa que atribui a retirada da candidatura de Edegar Pretto exclusivamente a uma imposição da Executiva Nacional, a decisão de apoiar Juliana Brizola (PDT) ao governo gaúcho foi sedimentada por uma intensa movimentação de lideranças locais. O recuo estratégico, embora cause fraturas no diretório estadual, é visto por articuladores como uma necessidade pragmática para fortalecer a candidatura petista ao Senado e tentar furar a bolha, deixando de receber votos apenas da esquerda tradicional ao buscar um diálogo com “setores moderados”.

A Tática do Senado e o “Fator Centro”

Pode-se dizer que o movimento é capitaneado pelo grupo de Paulo Pimenta, que identifica na aliança com o PDT a oportunidade de apresentar uma plataforma que transite além das fronteiras ideológicas do PT. Mas, não é apenas ele e os seus que pensam assim. A tese central é que a disputa pelo Palácio Piratini se tornou secundária frente ao objetivo de conquistar uma cadeira na Câmara Alta. A reeleição de Lula precisa vir acompanhada da garantia de o Senado não ser controlado pela direita e extrema-direita. Ou a governabilidade ficará comprometida.

Para os defensores da aliança, a figura de Juliana Brizola oferece a “capa” necessária para que a chapa se comunique com o eleitor de centro. O cálculo político ignora, em partes, a fidelidade programática em prol da sobrevivência eleitoral: acredita-se que, sem o protagonismo da cabeça de chapa, Pimenta terá mais liberdade para angariar votos em segmentos que hoje rejeitam a sigla.

O Peso do Retrospecto: Um Histórico de Reveses

A mudança de rota ocorre em um momento de fragilidade estatística para o PT no Rio Grande do Sul. O partido, que já foi a força dominante na política gaúcha, enfrenta um cenário de declínio em disputas majoritárias estaduais. Das últimas seis eleições para o governo, o PT saiu derrotado em cinco, evidenciando uma dificuldade crônica em retomar o Piratini.

O desempenho recente acendeu o sinal de alerta na cúpula partidária:

  • As Derrotas no 2º Turno: Em 2002 e 2006, o partido ainda demonstrava fôlego, alcançando 43,74% e 46,06% dos votos válidos, respectivamente. Após o hiato da vitória de Tarso Genro em 2010, o declínio recomeçou em 2014, quando o próprio Tarso não conseguiu a reeleição, parando nos 38,73%.
  • O Isolamento Recente: O cenário agravou-se severamente nos últimos dois pleitos. Em 2018, Miguel Rossetto obteve apenas 17,76%, o pior resultado da história recente do partido no Estado. Em 2022, Edegar Pretto registrou uma recuperação para 26,77%, mas o crescimento foi insuficiente para levá-lo ao segundo turno, perdendo a vaga para Eduardo Leite, por uma margem ínfima de 0,04%.

No segundo turno, boa parte do eleitorado petista se viu obrigado a votar no atual governador, que estava do PSDB. Isso para evitar que Onix Lorenzoni (PL) chegasse ao poder, alternativa vista como ainda muito pior.

Fragmentação Interna e Intervenção

A decisão atual pela intervenção expõe as vísceras de um diretório profundamente dividido. O PT gaúcho é hoje um mosaico de correntes com interesses conflitantes. De um lado, a corrente Socialismo em Construção (SoCo), de Pimenta (24% do diretório), aliada à Construindo um Novo Brasil (CNB), trabalhou ativamente pela desistência de Pretto. Do outro, a Democracia Socialista (DS) — que detém a maior bancada na Assembleia Legislativa — e a Articulação de Esquerda sustentaram a manutenção da candidatura própria até o último minuto. Convém lembrar que todas elas são, de certa forma, mantidas por alguma estrutura montada por parlamentares eleitos pela sigla, às vezes inclusive com um certo distanciamento das históricas bases populares.

A crise escalou nesta terça-feira, 7 de abril, quando o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) nacional emitiu nota favorável à aliança. O movimento local de algum modo forçou uma decisão protocolar da Executiva Nacional, que deve ser endossada pelo diretório estadual nesta quarta-feira. Mas, sem que se espere tranquilidade nos bastidores.

Projeções e Riscos da Nova Chapa

A intervenção deve rachar o partido ao meio na base militante. Analistas internos preveem que uma ala da legenda poderá “cruzar os braços” ou migrar informalmente para apoiar uma eventual candidatura isolada do PSol. Enquanto isso, os pragmáticos já trabalham na engenharia da chapa definitiva: a ideia é manter Juliana Brizola no topo, com o PT ocupando as duas indicações ao Senado e o PSB possivelmente assumindo a vaga de vice.

Confirmada a adesão do PT à candidatura de Juliana Brizola (PDT), a posição do PSol gaúcho tende a ser de ruptura e enfrentamento. Historicamente avesso a composições que avancem em direção ao centro político, o partido já emitiu sinais claros de que não pretende integrar uma frente encabeçada pelo PDT. Por isso se abriria espaço para um segundo petista disputar o Senado, com Manuela D’Ávila então concorrendo em faixa própria. Ou ao governo do Estado.

Resumindo, a adesão do petista à Juliana Brizola empurra o PSol para o isolamento estratégico ou para a liderança de uma “frente de esquerda raiz”. O partido pode vir a usar o espaço da campanha eleitoral para se diferenciar do pragmatismo petista, tentando herdar o voto ideológico que tradicionalmente pertence ao PT gaúcho.

A aposta é alta: sacrificar o histórico “13” na urna para o governo na esperança de que, ao se despir da identidade puramente petista, o campo progressista consiga finalmente romper o teto de vidro que o mantém afastado do poder estadual há mais de uma década.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Paulo Pimenta. Crédito: reprodução Metrópoles

Sobre o autor

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático