Por Solon Saldanha *
Em um movimento estratégico para blindar a governabilidade e garantir a continuidade no Palácio do Planalto, o Partido dos Trabalhadores (PT) projeta lançar o menor número de candidatos a governador de sua história recente, cedendo protagonismo regional para fortalecer a aliança nacional de Luiz Inácio Lula da Silva.
Com o cenário eleitoral de 2026 começando a ganhar contornos definitivos, o PT sinaliza uma mudança profunda em seu tabuleiro político. Sob pressão para reverter oscilações na aprovação do governo federal, a legenda caminha para apresentar apenas nove candidaturas próprias aos governos estaduais. O objetivo é claro: abrir espaço para aliados de centro e centro-esquerda, garantindo que o presidente Lula tenha palanques amplos e competitivos mesmo em regiões historicamente refratárias ao petismo.
A Lógica do Recuo Estratégico
A nova diretriz ganha urgência com o fim da janela partidária e o prazo de desincompatibilização. A cúpula petista avalia que, em estados onde o bolsonarismo mantém raízes profundas — como na região Sul —, a insistência em nomes próprios poderia isolar o presidente. No Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, a tática é o que dirigentes chamam de “perder por menos”. Ao apoiar nomes de siglas como PDT e PSB, o partido espera elevar o teto de votos de Lula nessas regiões, contribuindo para o somatório nacional.
“O centro da estratégia não é eleger governador, é reeleger Lula”, pontua o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT-SC). O raciocínio é matemático: se o partido conseguir subir a média de votação no Sul de 30% para 40%, a vitória nacional torna-se muito mais factível.
O Mapa das Alianças e Sacrifícios
Para viabilizar essa rede de apoio, o PT não hesitou em “rifar” pré-candidaturas consolidadas:
- Sul: No Rio Grande do Sul, Edegar Pretto deve dar lugar a Juliana Brizola (PDT), enquanto Paulo Pimenta focará na disputa ao Senado. No Paraná, o apoio deve ir para Requião Filho (PDT).
- Sudeste: Em palcos decisivos como Rio de Janeiro e Minas Gerais, o PT abre mão da cabeça de chapa para apoiar Eduardo Paes (PSD) e tentar atrair o senador Rodrigo Pacheco (PSD), respectivamente.
- Nordeste e Norte: Alianças com o MDB (Pará) e o PSB (Pernambuco) reforçam a pragmatismo da sigla, que prefere se unir a prefeitos e governadores populares do que arriscar o isolamento.
Senado como Trincheira Prioritária
Outro pilar fundamental da estratégia é a composição do Congresso Nacional. Após três anos de embates constantes com o Legislativo, o PT entende que a sobrevivência de um eventual segundo mandato depende de um Senado menos hostil. A legenda priorizará nomes fortes para a Câmara Alta, como Gleisi Hoffmann no Paraná e Décio Lima em Santa Catarina, visando conter uma possível “avalanche” da oposição em 2026.
Desafios nos Redutos Tradicionais
Apesar do foco nas alianças, o PT manterá esforços concentrados onde já detém o poder, embora o cenário não seja isento de riscos. Enquanto Rafael Fonteles (Piauí) goza de tranquilidade, Jerônimo Rodrigues (Bahia) e Elmano de Freitas (Ceará) enfrentam desgastes administrativos, exigindo a entrada direta de Lula e de ministros como Rui Costa e Camilo Santana na linha de frente das campanhas.
O caso mais alarmante é o do Rio Grande do Norte. A governadora Fátima Bezerra, com altos índices de desaprovação e rompimentos políticos, optou por não concorrer ao Senado, escalando o secretário Cadu Xavier para a sucessão estadual em uma tentativa de manter a hegemonia no estado.
São Paulo: O “Termômetro” Nacional
No maior colégio eleitoral do país, a estratégia é de resistência ativa. Fernando Haddad, ministro da Fazenda, deve ser o nome para enfrentar Tarcísio de Freitas. Embora o partido reconheça a dificuldade do embate, a meta é repetir o desempenho de 2022, impedindo que o governo paulista se torne uma máquina de votos exclusiva para a oposição federal.
Histórico e Perspectivas
A redução para nove candidatos é emblemática quando comparada a 2002, quando o PT lançou 24 postulantes aos governos estaduais. Em 2010, ano de maior popularidade de Lula, o partido teve 10 candidatos, colhendo os frutos de uma coalizão que elegeu Dilma Rousseff. Agora, em 2026, o PT aposta novamente na unidade em torno de Lula, sacrificando o crescimento regional em nome da manutenção do projeto nacional de poder.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Edgar Pretto e Juliana Brizola. Crédito: divulgação PT e PDT




