Da Redação*
A prisão do “consultor político” argentino Fernando Cerimedo na Bolívia abriu uma nova frente de investigações sobre um personagem que atuou em campanhas da extrema direita latino-americana e teve participação direta na disseminação de informações falsas sobre as urnas brasileiras. Ele foi detido no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando tentava sair do país. Estava sendo procurado após o atentado a tiros contra a advogada Nadia Beller, sua ex-companheira. Além da tentativa de feminicídio ele também enfrenta apuração por suposto enriquecimento ilícito.
Beller foi atingida por três disparos em 17 de agosto, mas sobreviveu. Cerimedo nega envolvimento, enquanto sua defesa chegou a sustentar que o atentado teria sido forjado. A Promotoria boliviana apresentou imputação e pediu sua prisão preventiva por 180 dias.
Robôs e campanhas negativas
Muito antes do caso policial, Cerimedo já havia descrito publicamente métodos pouco convencionais de intervenção política. Fundador do La Derecha Diario e ligado à agência Numen, admitiu em entrevistas utilizar estruturas de trolls, inteligência artificial e campanhas negativas para influenciar o debate nas redes.
O argentino afirmou ter participado da campanha de Jair Bolsonaro em 2018. Ao descrever sua atuação, relatou o envio pelo WhatsApp de milhares de mensagens atribuídas a supostos eleitores gays, numa estratégia destinada a reduzir a rejeição de Bolsonaro nesse segmento. Cerimedo também declarou defender o emprego de robôs em redes sociais e aplicativos de mensagens.
Sua presença no Brasil tornou-se ainda mais conhecida depois da eleição de 2022. Após a derrota de Bolsonaro, Cerimedo divulgou um dossiê apócrifo com alegações falsas sobre as urnas eletrônicas. A transmissão alcançou centenas de milhares de visualizações e foi amplamente compartilhada por bolsonaristas. Posteriormente, documentos da investigação sobre a tentativa de golpe revelaram conexões entre o material divulgado pelo argentino e integrantes do entorno bolsonarista.
Da Argentina à Bolívia
Cerimedo também ocupou posição relevante na estratégia digital que levou Javier Milei à Presidência argentina em 2023 e expandiu sua atuação para outros países latino-americanos. Na Bolívia, aproximou-se do governo de Rodrigo Paz, enquanto em Honduras participou de articulações políticas, também da extrema-direita. Consta ter atuado também no Chile.
A prisão trouxe à superfície acusações ainda mais graves. Beller afirma que Cerimedo conhecia esquemas de corrupção envolvendo integrantes do poder boliviano e chegou a acusá-lo de manter vínculos com a CIA. Essas declarações, entretanto, ainda dependem de comprovação e não devem ser confundidas com fatos estabelecidos pela investigação. O que já está documentado é a dimensão internacional da atividade política de Cerimedo e sua disposição para explorar artificialmente as redes.
Agora, a investigação boliviana ameaça revelar até onde chegavam as conexões políticas, empresariais e digitais de um operador que transformou desinformação, manipulação algorítmica e campanhas negativas em instrumentos de disputa pelo poder. E que já se preparava para repetir essas ilegalidades no pleito brasileiro de outubro.
Na foto que ilustra essa notícia, Cerimedo está à direita, com máscara descartável e colete à prova de balas, sendo conduzido algemado após prisão. Foi recolhido ao complexo penitenciário de Palmasola.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Cerimedo preso. Crédito: reprodução Unitel

