Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
Ao comparar economistas da Escola de Campinas e pós-keynesianos anglo-saxões, além de contrastar com a visão Faria Lima do mainstream ponto a ponto, dá para organizar isso como três paradigmas em contraste, olhando os mesmos problemas (moeda, bancos, juros, Banco Central., mercado financeiro), mas com ontologias, metodologias e implicações políticas distintas.
Primeiro, compararei Escola de Campinas versus Pós-keynesianos anglo-saxões e, depois, ambos versus mainstream/Faria Lima. Um quadro sinóptico ponto a ponto é bom para um debate público didático.
Os economistas pós-graduados na Escola de Campinas e os pós-keynesianos anglo-saxões são “parentes próximos”, mas não são totalmente equivalentes. A diferença central está no grau de historicidade, estruturalismo e periferia, isto sem falar nas teorias contemporâneas da Economia Comportamental, Economia Institucionalista, Economia Evolucionária e Econofísica, estudada por alguns professores do IE-UNICAMP.
Quanto à ontologia e ao método, pós-keynesianos anglo-saxões (PK) colocam ênfase em incerteza radical (John Maynard Keynes), moeda endógena (Basil Moore), instabilidade financeira (Hyman Minsky). Os microfundamentos não otimizadores. Tendem a pensar em economias “genéricas”, Estados nacionais soberanos e mercados financeiros desenvolvidos.
Os economistas da Escola de Campinas incorporam tudo isso mais estrutura produtiva, dependência externa, heterogeneidade social, posição periférica no sistema mundial. A macroeconomia é historicamente situada.
Portanto, a diferença-chave está em os pós-keynesianos pensarem o capitalismo maduro ou central e a Escola de Campinas pensar o capitalismo dependente.
Quanto ao sistema bancário e crédito, para os pós-keynesianos, os bancos criam moeda endogenamente. Crédito é guiado por expectativas e liquidez. Instabilidade é inerente, mas pode ser regulada.
A Escola de Campinas concorda com tudo isso, mas enfatiza o viés estrutural dos bancos privados brasileiros contra investimento produtivo, a preferência por títulos públicos e a financeirização como estratégia defensiva. Eles reproduzem a dependência, não só o ciclo. Nesse sentido, o sistema bancário não apenas falha, porque ele se adapta racionalmente a uma economia travada – e não dolarizada.
Quanto ao mercado financeiro, os pós-keynesianos denunciam a financeirização pelo aumento do poder das finanças, a pressão por liquidez e o curto-prazismo. O problema se encontra na instabilidade financeira e no desemprego.
Os adeptos da Escola de Campinas a analisam como um novo regime de acumulação, ancorado na dívida pública e funcional à estagnação do fluxo de renda e à concentração de riqueza financeira. O problema se encontra no bloqueio do desenvolvimento de um capitalismo financeiro tardio.
Os pós-keynesianos de origem anglo-saxão querem estabilizar a economia instável do capitalismo maduro. Os de Campinas se perguntam quem ganha com a instabilidade e propõem uma reviravolta no conflito distributivo favorável ao desenvolvimento socioeconômico brasileiro.
Quanto ao Estado e à política econômica, os pós-keynesianos veem ser possível o Estado atuar como estabilizador via política fiscal ativa e o Banco Central como emprestador de última instância. O nível de emprego deve ser objetivo explícito.
De acordo com a Escola de Campinas, o Estado deve atuar como coordenador do investimento, planejador estrutural, indutor de transformação produtiva. Coloca ênfase em bancos públicos, política industrial e crédito direcionado. Ela é mais social-desenvolvimentista e menos funcionalista.
Ambos, economistas da Escola de Campinas e pós-keynesianos do IE-UFRJ, por exemplo, se aliam contra o pensamento do mainstream, também apelidado de Faria Lima. No caso, o contraste é ontológico, não só técnico.
Na visão da moeda do mainstream / Faria Lima, ela é neutra no longo prazo. Crédito depende de poupança. Banco Central controla a economia via juros.
Ao contrário, para PK e Campinas, moeda é não neutra. Crédito cria renda e poupança macroeconômica ex post. Juros são distributivos.
Para o mainstream, a moeda “atrapalharia” o equilíbrio geral caso não fosse neutra. Para a Escola de Campinas, com sua abordagem da circulação, ela organiza o capitalismo.
Bancos, para o mainstream, são intermediários eficientes. Reconhecem um problema de risco excessivo caso a regulação da Autoridade Monetária seja frouxa.
Para os pós-keynesianos, bancos são criadores de moeda instáveis. Para os adeptos da Escola de Campinas, são criadores de moeda estruturalmente rentistas em economias periféricas.
O mercado financeiro, para o mainstream, é um alocador eficiente de recursos. Mercado de capitais substitui bancos.
Para os pós-keynesianos, ele é volátil e instável. Combina com a visão da Escola de Campinas ao ver o mercado de capitais aqui descolado da produção, dominado por capital fictício e dependente do Estado quanto à emissão de títulos de dívida pública para deterem em suas carteiras.
Para o mainstream / Faria Lima, juros combatem inflação. Custos distributivos são apenas “colaterais”.
Para os pós-keynesianos, juros afetam investimento e emprego. Para a Escola de Campinas, juros organizam o rentismo, ancoram a riqueza financeira e bloqueiam a mudança estrutural.
Diante o Banco Central, o mainstream o considera técnico, neutro, independente. Ele deve ter uma meta única: inflação baixa com “juros na lua”.
Os pós-keynesianos acham ele dever perseguir maior nível de emprego e estabilidade financeira. Os economistas da Escola de Campinas o consideram um ator político central do regime de acumulação, porque suas decisões redistribuem renda, moldam o sistema bancário e condicionam o desenvolvimento.
Quadro Sinóptico Ponto a Ponto
| Tema | Escola de Campinas | Pós-Keynesianos | Mainstream / Faria Lima |
| Moeda | Relação social e poder | Não neutra, endógena | Neutra no longo prazo |
| Bancos | Rentismo estrutural | Instáveis criadores de moeda | Intermediários eficientes |
| Crédito | Condiciona estrutura produtiva | Pró-cíclico | Depende da poupança |
| Mercado financeiro | Dominante e parasitário | Volátil | Eficiente |
| Mercado de capitais | Limitado na periferia | Complementar | Substituto do crédito |
| Juros | Instrumento distributivo | Afetam emprego | Controlam inflação |
| Dívida pública | Lastro da riqueza financeira | Estabilizador | Problema fiscal |
| Banco Central | Ator político | Estabilizador macro | Autoridade técnica |
| Estado | Desenvolvimentista | Estabilizador | Regulador mínimo |
Em um fechamento interpretativo, enquanto os pós-keynesianos criticam o funcionamento do capitalismo financeiro em geral, os economistas formados de acordo com a Escola de Campinas criticam o papel histórico específico da financeirização na periferia. Faria Lima/mainstream naturaliza ambos como sendo o sobrenatural “O Mercado”. Em linguagem menos acadêmica, o mainstream vê o sistema financeiro como solução, os pós-keynesianos como problema técnico, e a Escola de Campinas como expressão estrutural de poder e dependência.
*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
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