Uma mudança significativa no mercado financeiro foi a transição do modelo baseado em agências físicas para serviços digitais no Brasil. Vou examinar se aconteceu fenômeno semelhante em outros países.
Interessante é conhecer como a presença de agências físicas afeta a adoção de tecnologias de pagamentos, diante eventos de fechamento temporário de agências, causados por ataques de grupos criminosos no Brasil. Há aumento no uso de pagamentos eletrônicos, principalmente Pix nos municípios afetados.
Além desse motivo “segurança”, instituições digitais expandem-se como provedoras de pagamento e crédito. Mas isso aumenta a concorrência bancária perante os big five bancos?
Na verdade, a transição de bancos baseados em agências físicas para serviços digitais não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Ela faz parte de uma transformação estrutural do sistema financeiro mundial, embora no Brasil apresente características particulares, especialmente, o papel do Pix e do Banco Central.
Em muitos países desenvolvidos ou emergentes, ocorreu redução da densidade de agências bancárias acompanhada da expansão de serviços digitais. Como exemplos relevantes, nos Estados Unidos, o número de agências atingiu cerca de 90 mil em 2009 e caiu cerca de 12% até 2020. O fechamento acelerou com a expansão do mobile banking e fintechs.
No Reino Unido, mais de 6 mil agências foram fechadas desde 2015. Os países nórdicos apresentam os casos extremos de digitalização contra “lavagem de dinheiro sujo”. Na Noruega, a densidade caiu de 11,7 agências por 100 mil adultos em 2008 para 6,2 em 2016.
Na China, o crescimento de fintechs e plataformas como pagamentos móveis levou bancos tradicionais a reduzir agências e migrar serviços para canais digitais. Ela está na vanguarda da digitalização monetária com o e-CNY (Yuan Digital), uma Moeda Digital do Banco Central (CBDC), emitida pelo Banco Popular da China (PBOC). Diferente de criptomoedas, é totalmente controlada, centralizada e equivale ao yuan físico, facilitando pagamentos via QR Code e offline, visando maior controle financeiro e eficiência. A partir de 1º de janeiro de 2026, a China implementou um novo sistema para impulsionar a gestão do yuan digital, incluindo o pagamento de juros sobre os saldos em carteiras digitais, com o objetivo de incentivar a adoção. O e-CNY é emitido e controlado pelo PBOC em uma blockchain permissionada, permitindo ao Banco Central rastrear transações e reduzir a dependência de plataformas de terceiros, como WeChat Pay e Alipay.
A literatura identifica três padrões estruturais principais:
- mudança no comportamento do consumidor, porque transações rotineiras migraram para apps;
- redução de custos operacionais, porque as agências físicas são caras pelos custos de aluguel, segurança, pessoal etc.;
- entrada de fintechs e neobancos, porque novos competidores oferecem pagamentos, crédito e investimentos digitalmente.
Portanto, o ocorrido no Brasil é parte de uma tendência sistêmica do capitalismo financeiro digital.
O caso brasileiro possui uma peculiaridade importante: o Pix acelerou a digitalização. Foi fortemente impulsionada por uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central. O sistema Pix tornou transferências instantâneas gratuitas para indivíduos e com custo muito baixo para empresas.
Observou-se as seguintes consequências:
- substituição de cash, TED e cartões na maioria das transações;
- inclusão financeira de milhões de pessoas;
- redução da necessidade de atendimento presencial.
Pesquisas econométricas do BCB mostram a maior adoção do Pix ter reduzido o número de agências bancárias nos municípios. Esse resultado indica uma relação causal típica de inovação tecnológica: infraestrutura digital provoca menor dependência de rede física.
Um caso particularmente interessante no Brasil foi explorado em pesquisas e divulgado no BC Blog. Economistas usaram eventos de ataques a agências com explosivos, capazes de deixarem o banco fechado por meses, como um choque exógeno na oferta de serviços físicos.
Após esses eventos, o efeito inesperado da criminalidade foi aumentar o uso de pagamentos eletrônicos. O número de usuários e transações do Pix cresceu nos municípios afetados. Isso ocorreu porque a disponibilidade de dinheiro físico caiu, os consumidores passaram então a experimentar meios digitais e o novo hábito persistiu mesmo após a reabertura das agências.
O choque criminoso reduz a dependência de dinheiro e acelera a adoção tecnológica. Hoje, em lugar de “bater a carteira”, os ladrões roubam celulares…
Logo, o crescimento de instituições digitais como provedores de pagamento e crédito é um fenômeno global. Essas instituições incluem neobancos, fintechs de crédito, plataformas de pagamento e big techs financeiras. Suas vantagens competitivas incluem:
- custos operacionais muito menores (sem rede de agências);
- interfaces digitais superiores;
- uso de dados para análise de crédito.
As fintechs expandem especialmente os pagamentos eletrônicos, o microcrédito, crédito ao consumo e às PME (Pequenas e Médias Empresas).
O sistema bancário brasileiro historicamente é altamente concentrado e a concorrência bancária é a de “oligopólio diferenciado” – competição em qualidade de serviços financeiros prestados e não em preços, ou seja, juros e tarifas – entre os “big five” (BBICS: Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) no Brasil.
A digitalização mudou apenas parcialmente esse “hardcore”, expressão usada para indicar o “núcleo duro” — a essência, centro ou a parte mais sólida — do sistema bancário brasileiro. Novos competidores como bancos digitais, instituições de pagamento, fintechs de crédito e plataformas de carteira digital tiveram como efeitos a pressão competitiva em tarifas e serviços, a redução de receitas de meios de pagamento (especialmente cartões) e a migração de clientes para plataformas digitais.
O Pix teve papel crucial nisso porque reduziu drasticamente o custo das transferências, tornou mais fácil mudar de banco e facilitou a entrada de novos players. Assim, ele funciona como infraestrutura pública pró-competição.
Em uma interpretação sistêmica, devemos interpretar a transformação do sistema financeiro nacional como um processo de transição em três camadas. A primeira é a infraestrutura digital com pagamentos instantâneos, APIs bancárias, open banking. A segunda é a arquitetura institucional com a entrada de fintechs e neobancos. A terceira é o comportamento social com o abandono gradual do dinheiro físico.
Eventos como ataques criminosos, fechamento de agências e a pandemia do Covid funcionaram como choques exógenos. Aceleram a adoção tecnológica.
O ocorrido no Brasil faz parte de um processo global. Os bancos fecharam agências e migraram para canais digitais. As fintechs e os bancos digitais expandiram pagamentos e crédito. A concorrência aumentou nessas duas funcionalidades sistêmicas: pagamentos e financiamentos. Mas e quanto à terceira: enriquecimento? Os investidores abandonaram os bancos tradicionais?
O sistema financeiro nacional tem três singularidades importantes: o Pix como infraestrutura pública universal, a adoção extremamente rápida de pagamentos digitais e os eventos de ataques a agências e transeuntes acelerarem a migração para meios eletrônicos. Esses fatores tornam o Brasil um dos laboratórios mais interessantes de transformação digital do sistema bancário no mundo.
Foto de capa: IA





