PGR promove ‘estrelas’ da Lava Jato e revela que influência da operação se mantém

Última edição em abril 8, 2026, 01:19

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Januário Paludo e Mônica de Ré

Por Solon Saldanha *

A ascensão de Januário Paludo e Mônica de Ré ao cargo de subprocuradores-gerais da República marca o retorno de figuras centrais da força-tarefa de Curitiba à cúpula do Ministério Público Federal. O movimento ocorre sob a gestão de Paulo Gonet e sinaliza a persistência de um ideário que, embora marcado por ilegalidades e pela instrumentalização política que interferiu nas eleições de 2018, ainda encontra respaldo na estrutura da PGR.


O retorno do núcleo de Curitiba ao topo da PGR

A promoção de Januário Paludo e Mônica de Ré, oficializada nesta terça-feira (7), embora apresentada como uma progressão administrativa de carreira, carrega um simbolismo político profundo. Ambos foram pilares da 13ª Vara Federal de Curitiba, atuando diretamente na análise de provas, elaboração de denúncias e na articulação da extinta força-tarefa da Lava Jato. A operação é apontada como fator decisivo para a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e sua consequente exclusão do pleito presidencial de 2018, abrindo caminho para a vitória de Jair Bolsonaro.

A nova configuração da Procuradoria-Geral da República (PGR), sob a gestão de Paulo Gonet, reforça uma linha de atuação favorável ao legado da operação. Gonet tem se posicionado ativamente contra a revisão de condenações e tentado reverter, junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), anulações de processos e de acordos de leniência, como os casos envolvendo o ex-ministro José Dirceu e a empresa J&F.

Violação do devido processo legal e tentativa de fundo bilionário

A atuação do grupo agora promovido é alvo de críticas severas no campo jurídico por ter agido em desacordo com o devido processo legal. A força-tarefa notabilizou-se por métodos que incluíam a combinação de estratégias com o então juiz Sergio Moro para condenar alvos pré-determinados. Além do impacto político, o grupo tentou desviar recursos públicos para fins privados em 2019, ao propor a criação de uma fundação gerida pelos próprios procuradores para administrar R$ 2,5 bilhões de uma multa da Petrobras. O projeto foi barrado pelo STF por ser ilegal, e o montante foi destinado às áreas de educação e meio ambiente.

A promoção de Paludo ocorre apesar do histórico de mensagens reveladas pela “Vaza Jato”, que expuseram um padrão de conduta considerado incompatível com o decoro esperado de membros do Ministério Público. Os diálogos indicam uma mistura de juízo pessoal, desrespeito e avaliações políticas no exercício da função pública.

Desrespeito e parcialidade nos diálogos internos

Januário Paludo, cuja influência era tamanha que os colegas se autointitulavam “Filhos de Januário”, teve diálogos polêmicos expostos. Em 2017, ao ser informado sobre a internação da ex-primeira-dama Marisa Letícia, Paludo ironizou o estado de saúde dela. Após o falecimento, levantou suspeitas infundadas sobre a causa da morte. Em outro episódio, ao comentar a possibilidade de Lula deixar a prisão para comparecer ao enterro de seu irmão, escreveu que o então detento “só queria passear”.

Para o jurista Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas, a promoção representa uma oportunidade perdida de reconstrução institucional.

“Paludo, em vez de uma promoção, deveria ser afastado a bem do serviço público. Sua atuação na Lava Jato foi escandalosamente parcial. O Ministério Público perdeu a oportunidade de recuperar a credibilidade abalada pela instrumentalização de seus quadros a serviço de interesses eleitorais”, afirmou o advogado ao ICL Notícias.

Perspectivas e o legado da operação

A ascensão de Mônica de Ré, que participava ativamente do ambiente em que essas estratégias eram discutidas, consolida essa linha de atuação no topo da PGR. O cenário indica que, mesmo com as sucessivas decisões do STF que anularam atos da Lava Jato por suspeição e conluio, a cúpula do MPF opta por premiar os responsáveis pelo período. A decisão reforça a percepção de que a estrutura da PGR mantém viva a metodologia da operação, desafiando a jurisprudência recente da Suprema Corte sobre a imparcialidade necessária ao órgão acusador.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Fotos: Januário Paludo e Mônica de Ré. Crédito: reprodução ICL

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Respostas de 2

  1. O que pode se fazer, num Estado capturado pelos representantes da anti-etica? Estamos vendo que não basta com o regimento interno do MPF, sobre os deveres éticos do funcionalismo, se não que ainda tem que ter uma declaração publica, do que pode, e do que não pode fazer o MPF, no cumprimento das suas funções. Estamos reféns de alguns, que querem manter o “poder” de decidir pelo cidadão.

  2. É o fim da picada. Escondem-se por imaginar que essa notícia não teria muito alcance de público. Pois nosso papel é torná-la popular o suficiente para indignar o que ainda sobrou de bom censo geral e para que seja revertida imediatamente.

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