Por JAYR SOARES*
- Como pensar a Ética a partir das contradições e paradoxos num mundo que produz uma ciência usando a natureza simplesmente como objeto descartável?
- Como pensar um modelo de Ética nesse mundo da ciência e da técnica em que seus pesquisadores dedicados no mesmo espaço e tempo – a pensar princípios/paradigmas de vida e morte, ampliando sistemas de comunicações liberando todo tipo de informação, levando a mecanismos sutis, invisíveis e aberrantes de censura a todo tipo de acontecimento?
- Que tipo de mundo é esse onde troca se o saber pelo poder, troca a solidariedade pela propriedade, a cooperação pela competição, a democracia pela demagogia e o coletivo pelo individualismo?
- Será que a relação do ser humano moderno com a natureza viva está chegando ao fim com hegemonia da relação com o artificial, com máquinas inteligentes dotadas de racionalidade?
Dizem que a ciência não pensa. Funciona como objeto de brinquedo na vida do intelectual pesquisador. Domar as paixões e o destino tornou-se prioridade desse homem moderno. Só rupturas drásticas poderá levar a outro deslocamento da vida com suas existências diversas.
Sabemos ser o homem criador das suas próprias condições de existência – sempre a partir dos desejos, das escolhas, das necessidades e dos direitos.
Como sair desse mundo onde tudo foi transformando em mercadoria permitindo variadas e diversas transações?
Como sair desse estilo de vida universal, homogêneo e determinista facilitando todo tipo de excitação para esse consumo frenético e sem controle?
Como sair desse mundo da obediência e servidão voluntária/religiosa a líderes definindo crenças, valores e verdades apenas por convicções pessoais?
Como lidar com essa diversidade e com o estranho que nos afeta o tempo todo?
Como evitar a dor, o sofrimento e as doenças das incertezas desse tempo absurdo e espaços ocultos?
Eis as questões à partir dessas interrogações Socráticas na busca de compreender esse movimento brutal da vida.
Observamos que há atualmente, o advento de um mundo onde há disseminação da mentira, do falso e das ilusões de modo livre, pregando e defendendo uma existência quase infinita e imortal. Nesse lugar a liberdade é falsa. A justiça é falsa pq mantém privilégios/direitos dos mesmos. A virtude é falsa pq produz desigualdade. Com isso tudo foi se criando esse Ser Humano da concórdia, da submissão, da obediência e da boa fé. Ao renunciar a si mesmo tornou-se presa fácil da escravidão das superstições, da moral, da servidão, das convicções e das convenções de normas, regras e leis.
Com o advento da modernidade a partir de Descartes, o mundo da natureza foi substituído pela razão e a ciência. O penso logo existo eliminou os cuidados de si mesmo pelo conhecer sem precedentes.
E assim inauguramos uma civilização do desaparecimento da vida, do abandono do sujeito de si, da urgência/emergência da técnica – enfim, de um ser humano do poder, do saber mas sem sabedoria e sem história. A existencia passou a ser definidas por um padrão sem crítica.
Nosso futuro corre sério risco de extinção por suas imprevisibilidades. Esquecemos o passado. O presente é denso, veloz e muito intenso. O futuro poderá ser tempestades devastadoras e hostis para manutenção da nossa existência.
Como pensar a Ética nesse cenário tão conturbado e performatico?
Sabemos que a Ética dos antigos era pautada por formas de cuidado de si para se conhecer melhor. Um estilo de viver buscando verdades significativas para si mesmo como mecanismo de aprendizado do cuidado do outro. Estavam portanto, vinculados aos ideais de liberdade da palavra honesta. Compromisso com a palavra verdadeira. Tudo para manter o equilíbrio e harmonia dos cidadãos. O cidadão tinha direito à palavra livre. Ser feliz era uma virtude do viver bem. A vida era uma arte. Esses procedimentos priorizavam sempre o bem comum da Polis. Da cidade.
Para o mundo moderno o cuidado perdeu seu lugar para o conhecer da ciência praticada a todo custo.
A Ética do mundo antigo visava no ser humano a ampliação da alma e o fortalecimento do espírito como lugar divino e sagrado.
Agora qual Ética se propõe o mundo moderno atual?
As verdades foram sendo substituídas pelas tecnicologias e seu manancial incrível de técnicas a partir dos conhecimentos da física, da matemática e da mecânica automatizada.
A Ética foi substituída pela moral pastoral e de rebanho fazendo desse humano um ser de renúncia e obediência. Um serviçal da técnica. Um escravo de si mesmo. Já não pensa. Apenas repete o que vem do exterior a si.
O viver não é mais a construção do bem comum.
A vida deixou de ser arte para transformar em objeto descartável.
A vida como movimento hoje, está a cargo dos Algoritmos.
Deixo essas perguntas para acender a luz de nossos pensamentos:
O que é o mundo?
O que é a vida?
O que é o ser humano?
Como fazer da nossa vida uma arte novamente sob o comando da Ética e não da Moral?
*Jayr Soares é Psicólogo e psicanalista.
Foto de capa: : https://goo.gl/X7ocfv





Respostas de 2
Excelente e desesperada análise da atualidade alienante deste mundo caótico, acéfalo, sem ética e movido pelo chamado cérebro reptiliano, das emoções primitivas…
Parabéns, Jair, pelo excelente artigo, rico em questionamentos complexos que nos remetem a necessárias reflexões. Vou me ater apenas à sua última indagação: “Como fazer da nossa vida uma arte novamente sob o comando da Ética e não da Moral?”, cujo pressuposto é extremamente consistente e libertador.
Entendo que viver a vida como uma arte significa que não existe um “molde” pré-fabricado. Cada indivíduo é o artesão de sua própria subjetividade. Se a vida é governada pela Moral, ela se torna padronizada, onde todos tentam ser a mesma cópia do “homem de bem”. Quando a Ética assume o comando, a vida se torna uma “peça única”.
Porém, o risco de abandonar a Moral em favor da Ética é cair no niilismo ou no egoísmo vazio. Portanto, a vida como arte não é um isolamento, mas uma composição harmoniosa (ética e moral) com o mundo.