CORRESPONDENTE POLÍTICO | Divisão política da PF agora lembra o caso PC Farias

O passado de PC Farias ressurge em meio à disputa política e aos atuais vazamentos da PF.
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 14:00
Editado em 24 de agosto de 2026 às 13:32

Este colunista é citado em um trecho do livro “O Tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias”´, do jornalista Xico Sá. Citado numa situação que de certa forma entrou para o folclore do jornalismo. Eu trabalhava então no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e Xico Sá na Folha de S. Paulo. E estávamos ambos em Maceió para cobrir o assassinato de Paulo Cesar Farias, a famoso tesoureiro de Fernando Collor, figura central da investigação que levou ao seu processo de impeachment. No velório de PC, foi impossível esconder quando todos os presentes viram eu me aproximar do caixão do ex-tesoureiro de Collor. E começar a examiná-lo de uma forma meio bizarra. Na verdade, eu cumpria uma pauta. Os editores do jornal desconfiavam que PC Farias pudesse ter forjado o seu assassinato. E queriam que eu verificasse se era ele mesmo o cadáver.

PC fugiu do país de forma espetacular

PC fugiu do país de forma espetacular
Segundo Xico Sá, PC Farias teve ajuda da polícia na sua fugaCrédito: Arquivo

A preocupação dos editores não era exatamente um exagero. O caso PC Farias é um dos mais espetaculares episódios da história política brasileira. Um dos pontos principais do livro de Xico Sá, que será lançado em setembro, é a narrativa da fuga de PC do país. PC raspou o bigode, colocou uma peruca, se escondeu em uma fazenda em Pernambuco e, de lá, depois de contratar bandidos, comandados por um chileno, especializados em fuga de presídios, conseguiu sair do país.

Tesoureiro tinha vários sósias

PC Farias foi localizado depois na Inglaterra, onde acabou preso. No período em que ficou foragido, houve a história de localização de mais de um PC falso pelo mundo. O tesoureiro, com um rosto relativamente comum – com seus óculos de aros grossos, careca e bigode – tinha sósias para confundir a polícia. Mas é nesse ponto que Xico Sá mostra no livro certa semelhança com o momento atual, no qual a Polícia Federal parece se dividir entre lulistas e bolsonaristas no vazamento de informações.

Entre procurar e ajudar

Naquele momento, diz Xico Sá, a PF dividia-se entre os que queriam encontrar PC e os que trabalhavam para ajudá-lo na fuga. Na época, não exatamente por preferências políticas. Xico Sá conta em seu livro que PC Farias tinha comprado parte dos policiais para que trabalhassem contra a sua localização. Agora, a divisão na PF parece ocorrer mesmo por preferências políticas.

Cada parte vaza

E, nessa tarefa, parte vaza informações do envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no escândalo do INSS e parte vaza coisas da investigação do caso Master, no envolvimento de Daniel Vorcaro para o financiamento de Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, a pedido de Flávio. São os dois grupos da Polícia Federal.

Investigações

O ministro André Mendonça, inclusive, mandou agora investigar os vazamentos no caso de Lulinha. A defesa do filho de Lula reclama desses vazamentos. Mas, da mesma forma, informações sobre as investigações do caso Master também vazaram. Algumas, inclusive, explorando coisas da vída íntima de Daniel Vorcaro.

Via CPMI

No caso, a Polícia Federal defende-se dizendo que o vazamento desses diálogos de Vorcaro com sua então noiva, Martha Graeff, teria acontecido via CPMI do INSS, depois que dados das investigações foram à época compartilhados com os deputados e senadores que faziam parte da comissão. Aí, os humoras políticos ficam mais explícitos.

Dark Horse

Mas quanto ao próprio vazamento dos diálogos nos quais Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro, a origem não está até agora esclarecida. Flávio disse recentemente que essa história seria “página virada”. Mas a verdade é que até agora ele não esclareceu o que de fato foi feito com o dinheiro.

Balanço

Flávio Bolsonaro tinha prometido apresentar um balanço mostrando como o dinheiro repassado por Vorcaro teria sido investido no filme. Não custa lembrar que Flávio negociou um repasse de R$ 134 milhões, dos quais efetivamente foram repassados R$ 61 milhões. Seria, de longe, o filme mais caro da história do cinema brasileiro.

Voltará

Se Flávio não tornou esse balanço público, ele afirma que essa prestação de contas já teria sido repassada às autoridades. Uma hora isso, então, irá se tornar público. Pode ou esclarecer ou gerar novos questionamentos. A dúvida que fica, então, será: vira a público de forma oficial ou por novos vazamentos? Feitas por qual lado da PF?


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa:  Há uma disputa política dentro da Polícia Federal | Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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