Há uma tradição curiosa entre parcelas das elites brasileiras: quanto mais proclamam amor à pátria, maior parece ser sua disposição para colocá-la sob os cuidados de alguém que fale inglês.
Celso Amorim confessou nesta quarta-feira, 12, na Câmara dos Deputados, que sente vergonha da servilidade brasileira diante de países estrangeiros.
Não precisava.
A servilidade, entre nós, tem uma longa e respeitável tradição. Frequentou salões, gabinetes ministeriais, diretorias de bancos, redações de jornais e departamentos universitários. Vestiu farda, beca e terno bem cortado.
Leu francês no século XIX. Aprendeu inglês no XX. No XXI, incorporou compliance, benchmark, rating e rule of law.
Só continua com alguma dificuldade diante de uma expressão em português:
interesse nacional.
Uma velha vocação nacional
Seria injusto atribuir aos Bolsonaro a invenção da submissão ao estrangeiro.
Eles apenas modernizaram uma tradição nacional.
Parte importante das elites econômicas, políticas e intelectuais brasileiras sempre olhou para os grandes centros de poder não apenas em busca de conhecimento — o que seria indispensável —, mas também de modelos, aprovação e legitimidade.
Roberto Schwarz examinou uma das expressões mais sofisticadas desse fenômeno em As ideias fora do lugar.
O liberalismo europeu desembarcava num Brasil escravista, patrimonial e organizado pelo favor. A linguagem era moderna. As relações sociais nem tanto.
As ideias chegavam elegantes ao porto.
O Brasil as esperava no cais.
Nem sempre se reconheciam.
A tese de Schwarz provocou controvérsias importantes. Afinal, liberalismo e escravidão também conviveram nos Estados Unidos.
Mas permanece atual a questão que seu ensaio ajuda a iluminar: a facilidade com que setores de nossas elites importam ideias e modelos produzidos para outras sociedades sem submetê-los suficientemente às necessidades brasileiras.
Dois séculos depois, aperfeiçoamos o sistema.
Agora há quem queira importar também sanções, pressões diplomáticas e soluções para nossas disputas políticas.
É a globalização chegando finalmente à soberania.
O que é bom para eles…
Essa tradição produziu uma frase que mereceria ser inscrita no frontispício do nosso complexo de colônia.
Em junho de 1964, pouco depois do golpe militar e às vésperas de assumir a embaixada brasileira em Washington, Juracy Magalhães declarou:
“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”
É difícil encontrar síntese mais econômica.
Séculos de dependência cabiam numa frase.
Não era preciso perguntar quais eram os interesses brasileiros. Bastava descobrir os interesses estadunidenses e fazer a conversão automática.
O curioso é que Washington jamais demonstrou semelhante gentileza.
Nenhum governante estadunidense parece ter proclamado:
“O que é bom para o Brasil é bom para os Estados Unidos.”
Estranha falta de reciprocidade.
Eles entenderam cedo
Os Estados Unidos nasceram carregando contradições brutais.
Proclamaram a liberdade mantendo seres humanos escravizados. Defenderam direitos universais que estavam longe de ser universais. Expandiram seu território expulsando populações indígenas e guerreando contra vizinhos.
Não se trata de construir uma história edificante.
Trata-se de reconhecer outra coisa.
Desde muito cedo, suas elites dirigentes desenvolveram uma consciência poderosa de interesse nacional, expansão e poder.
Expandiram território. Construíram indústria. Protegeram mercados. Desenvolveram ciência e tecnologia. Criaram universidades. Formaram burocracias. Ergueram poder militar e naval.
No século XIX, o “Destino Manifesto” deu expressão ideológica à expansão. A Doutrina Monroe projetou sobre o continente a ideia de uma esfera de influência própria.
Depois veio o império mundial.
Treze antigas colônias britânicas transformaram-se na principal potência do planeta.
Pode-se — e deve-se — discutir o preço pago por outros povos nessa trajetória.
Mas ninguém poderá acusar as elites estadunidenses de terem construído seu país perguntando o que seria melhor para o Brasil.
Nesse aspecto, fomos muito mais generosos.
O império perdeu a cerimônia
E talvez nem seja mais necessário recorrer à história.
Em agosto de 2026, o próprio Departamento de Estado estadunidense resolveu facilitar o trabalho dos intérpretes.
Em publicação oficial, declarou que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental não será questionado”.
Não “cooperação”.
Não “parceria entre nações soberanas”.
Domínio.
Há momentos em que o império dispensa os eufemismos e economiza o trabalho dos cientistas políticos.
Washington está dizendo, com admirável franqueza, como enxerga sua posição no continente.
A pergunta é por que alguns brasileiros parecem ouvir a declaração não como advertência, mas como convite.
A elite que sonha ser gerente
Talvez exista aí uma diferença essencial entre uma elite nacional e uma elite colonizada.
Uma elite nacional pode ser egoísta, exploradora e socialmente predatória.
Mas compreende que seu próprio poder depende da força do país em que vive.
A elite colonizada tem ambições menores.
Não sonha em dirigir uma potência.
Sonha em administrar uma filial.
Parte de nossa elite econômica parece confortável com um Brasil exportador de soja, minério, petróleo e outras riquezas naturais, importador de tecnologia e excelente remunerador do capital financeiro.
Desde que os dividendos cheguem pontualmente, o Hino Nacional pode continuar tocando na cerimônia.
O patriotismo não precisa atrapalhar os negócios.
E os intelectuais?
Seria confortável atribuir tudo a banqueiros, grandes empresários, militares e políticos.
Não podemos lhes conceder essa exclusividade.
Uma parcela de nossa intelectualidade também cultivou extraordinária capacidade de pensar o Brasil com categorias elaboradas para explicar outras sociedades.
A teoria chega primeiro.
Depois o Brasil precisa caber nela.
Quando não cabe, frequentemente a culpa é do Brasil.
Naturalmente, sociedades inteligentes aprendem umas com as outras. O contrário seria provincianismo fantasiado de patriotismo.
O problema começa quando aprender deixa de significar apropriar-se criticamente e passa a significar obedecer intelectualmente.
Talvez algumas ideias continuem fora do lugar.
Só modernizamos a alfândega.
Uma continência muito reveladora
Foi nesse terreno fértil que floresceu o bolsonarismo.
Em outubro de 2017, quando construía sua candidatura à Presidência, Jair Bolsonaro visitou os Estados Unidos.
Em Miami, diante da bandeira estadunidense, o capitão do Exército brasileiro levou a mão à testa e bateu continência.
A imagem vale um tratado.
Um militar brasileiro, aspirante à Presidência da República, prestava continência à bandeira de outro país.
Naturalmente, sempre se pode alegar cortesia.
Mas chefes de Estado cumprimentam bandeiras estrangeiras sem necessidade de prestar-lhes continência. E um militar sabe melhor do que ninguém o peso simbólico do gesto.
Bolsonaro sabia.
A bandeira também.
Talvez só a soberania brasileira não tenha sido consultada.
De pai para filhos
Os filhos aprenderam.
Eduardo Bolsonaro apenas transformou o gesto simbólico do pai em programa político.
Instalado nos Estados Unidos, passou a atuar junto ao governo estadunidense em favor de pressões contra autoridades e instituições brasileiras.
Sanções tornaram-se desejáveis.
Tarifas contra produtos brasileiros puderam ser comemoradas.
Pressões externas sobre o país passaram a ser apresentadas como instrumentos legítimos da disputa política interna.
Juracy Magalhães dizia que aquilo que fosse bom para os Estados Unidos seria bom para o Brasil.
Os Bolsonaro aperfeiçoaram a doutrina:
mesmo aquilo que for ruim para o Brasil pode ser bom, desde que seja bom para os Bolsonaro.
Tarifas contra empresas brasileiras?
Danos colaterais.
Empregos ameaçados?
Sacrifícios necessários.
Sanções?
Patriotismo.
Pressão estrangeira sobre instituições nacionais?
Defesa da soberania.
A lógica é impecável.
Desde que observada de cabeça para baixo.
A soberania dos outros
O mais curioso é que ninguém espera semelhante comportamento dos próprios Estados Unidos.
Quando Washington protege sua indústria, chama-se política industrial.
Quando restringe tecnologias estratégicas, chama-se segurança nacional.
Quando subsidia setores considerados essenciais, chama-se interesse nacional.
Quando europeus protegem agricultores, chama-se Política Agrícola Comum.
Quando a China protege sua tecnologia, chama-se planejamento estratégico.
Quando o Brasil procura defender sua indústria, seus recursos naturais ou sua autonomia tecnológica, aparecem imediatamente especialistas locais advertindo contra “protecionismo”, “isolamento”, “atraso” e “populismo”.
É fascinante.
A soberania é um princípio admirável.
Principalmente a dos outros.
Patriotas da pátria alheia
Defender a soberania brasileira não significa apoiar Lula, o PT ou o STF.
Governos passam. Partidos passam. Presidentes passam. Ministros passam.
O Brasil deveria permanecer.
Pode-se combater um governo, derrotá-lo nas urnas, contestar decisões judiciais e fazer oposição feroz.
O que uma nação soberana não pode naturalizar é que seus cidadãos recorram a uma potência estrangeira para pressionar o próprio país quando perdem disputas internas.
Ainda mais quando essa potência acaba de anunciar, sem qualquer constrangimento, que considera seu “domínio” sobre o hemisfério inquestionável.
Talvez Celso Amorim tenha razão em sentir vergonha.
Mas há um aspecto positivo.
De Juracy Magalhães à continência de Jair Bolsonaro, e dela à peregrinação de seus filhos a Washington, pelo menos existe coerência.
Mudaram os personagens.
Mudaram os tempos.
Mudou até o vocabulário.
A posição continua a mesma.
De joelhos.
Foto da capa: Flávio Bolsonaro em frente à bandeira americana – Foto: Joédson Alves – Agência Brasil.

