Em carta dirigida às comunidades de fé e ao povo brasileiro, entidade luterana alerta para o avanço de práticas autoritárias, condena a manipulação religiosa nas eleições e propõe que o voto seja orientado pela defesa da democracia, da dignidade humana e dos mais vulneráveis
Da REDAÇÃO
A Pastoral Popular Luterana (PPL) divulgou uma carta dirigida às comunidades de fé e ao povo brasileiro sobre as eleições de 2026. No documento, a entidade defende a participação política consciente dos cristãos, alerta para o fortalecimento de discursos autoritários e rejeita o uso da religião como instrumento de conquista de votos.
Ligada à tradição da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), a PPL parte de sua própria compreensão da fé para justificar a intervenção no debate público. A carta tem como referência uma frase atribuída a Martim Lutero: “Deus olha justamente para onde o mundo desvia o olhar”.
A partir dessa perspectiva, a entidade afirma que sua atuação procura dirigir a atenção para as pessoas empobrecidas, excluídas e injustiçadas e para aqueles que enfrentam diferentes formas de sofrimento e privação.
Fé e política não significam Igreja transformada em partido
Um dos pontos centrais da carta é a defesa da legitimidade da participação das comunidades religiosas no debate político, sem que isso signifique transformar igrejas em organizações partidárias.
“Por isso falamos também de política. Não porque a Igreja deva transformar-se em partido, mas porque a fé em Jesus Cristo não nos permite permanecer indiferentes, neutros”, afirma a PPL.
Para a entidade, política está relacionada ao cuidado com a sociedade e com as pessoas que nela “vivem, trabalham e sonham”. A carta associa essa concepção à defesa da vida e ao enfrentamento da discriminação, da opressão e das desigualdades.
A manifestação ganha especial significado em uma eleição na qual a religião volta a ocupar espaço importante na disputa política. A PPL procura estabelecer uma distinção entre a participação dos cristãos na vida pública e a instrumentalização da fé para obter apoio eleitoral.
Alerta contra o retorno do autoritarismo
A carta também faz um diagnóstico duro do cenário político contemporâneo. Segundo a PPL, “vivemos tempos perigosos”, marcados pelo reaparecimento de discursos e práticas associados aos fascismos do século XX.
A entidade menciona a valorização da guerra como solução para conflitos, intervenções sobre países fragilizados, expulsão de povos de seus territórios, transformação de minorias em inimigos, ameaças aos direitos das mulheres, racismo, violência contra a população negra, desprezo pela ciência e destruição ambiental em nome do lucro.
Ao trazer o diagnóstico para o país, afirma:
“Também no Brasil precisamos reconhecer os sinais autoritários que se fortaleceram nos últimos anos e permanecem presentes em nossa sociedade.”
Mais do que perguntar se o candidato é de esquerda ou de direita
Diante desse cenário, a PPL propõe critérios para a escolha dos candidatos nas eleições de 2026.
A entidade sustenta que a identificação ideológica, por si só, não é suficiente:
“Não basta perguntar se alguém é de esquerda ou de direita, conservador ou progressista. É preciso conhecer sua história, seus compromissos e sua prática.”
A carta sugere que o eleitor observe quem é beneficiado pelos projetos defendidos por cada candidatura e se os candidatos apoiam políticas públicas voltadas às pessoas que mais necessitam delas.
Entre os critérios apresentados estão a proteção da democracia, da dignidade humana e do meio ambiente, além do combate ao racismo e à violência contra mulheres, crianças e minorias.
“Não aceitamos quem utiliza o nome de Deus para conquistar votos”
É na relação entre religião e disputa eleitoral que a PPL faz uma de suas advertências mais enfáticas.
Além de recomendar resistência às notícias falsas e às manipulações disseminadas pelas redes sociais e por grupos de WhatsApp, a entidade declara:
“Não aceitamos quem utiliza o nome de Deus para conquistar votos. O Estado é laico e a fé não pode ser transformada em instrumento de manipulação política.”
E acrescenta:
“Nem todo aquele que se apresenta como pessoa cristã age segundo Cristo.”
A PPL propõe, assim, que a condição declarada de cristão não seja tomada como credencial eleitoral suficiente. Para a entidade, o critério deve ser a prática das candidaturas e sua relação com os valores que identifica nos Evangelhos.
O voto visto a partir de quem costuma ficar à margem
A carta termina propondo que a decisão eleitoral seja tomada a partir da situação daqueles que normalmente têm menor poder econômico, social e político.
A PPL pergunta onde estão, nos projetos das candidaturas, “os pobres, os famintos, os perseguidos, os estrangeiros, as mulheres violentadas, as crianças, as pessoas idosas, os povos originários, a população negra”, além das pessoas discriminadas e daquelas que a sociedade prefere não enxergar.
É desse ponto de vista, afirma a entidade, que os cristãos deveriam avaliar as candidaturas e definir seu voto.
Na conclusão, a PPL faz um apelo para que os eleitores não entreguem sua consciência “a ilusões de frases feitas, medos ressentidos, mentiras ou falsos profetas” e votem com “consciência, fé, responsabilidade, discernimento crítico e compromisso com a vida para todas as pessoas”.
A carta encerra com quatro princípios apresentados como orientação para 2026: “Soberania, Democracia, Justiça Social e Ambiental”.
Leia a íntegra da carta
ELEIÇÕES 2026
Carta às Comunidades de Fé e ao Povo brasileiro
“Deus olha justamente para onde o mundo desvia o olhar”.
M. Lutero
Amigas e amigos, irmãs e irmãos de Fé:
A Pastoral Popular Luterana (PPL) nasceu e construiu sua caminhada procurando viver a fé luterana no contexto da vida, junto às pessoas empobrecidas, excluídas e injustiçadas. Somos ligados à fé cristã, em perspectiva luterana, porque confessamos a gratuidade do amor de Deus revelada em Jesus de Nazaré. Somos uma pastoral popular porque essa graça nos envia ao encontro da realidade concreta das pessoas. Ao comentar o Magnificat – o cântico da jovem Maria grávida, Martim Lutero recorda que Deus olha para as profundezas e que, “quanto mais baixo alguém estiver sob ele, tanto melhor ele o vê”. É para lá, portanto, que dirigimos nosso olhar: para onde o mundo frequentemente desvia os olhos. Para quem sofre, vive a aflição, sente necessidades de todo tipo, se angustia e, por vezes, sucumbe.
Por isso falamos também de política. Não porque a Igreja deva transformar-se em partido, mas porque a fé em Jesus Cristo não nos permite permanecer indiferentes, neutros, diante das cruzes sobre as quais seres humanos e a própria natureza continuam sendo colocados. Política tem a ver com o cuidado da cidade, com as pessoas que nela vivem, trabalham e sonham. As Sagradas Escrituras e nossa tradição confessional anunciam um Deus que, na encarnação de seu Filho, aproxima-se da humanidade e se coloca contra tudo aquilo que produz discriminação, opressão e morte (João 1.14). Este Deus encarnado é Deus da vida e ele deseja vida em plenitude para toda humanidade. Se Deus é nosso Pai e Mãe, o pão também é nosso. Onde falta pão para milhões, enquanto sobra para poucos, falta justiça. E onde há injustiça, Deus ouve o clamor dos injustiçados (Êxodo 3.7s). Deus olha justamente para onde o mundo desvia o olhar.
Vivemos tempos perigosos. Discursos e práticas que julgávamos sepultados com os fascismos do século passado voltam a encontrar espaço. Vejamos: a guerra é apresentada como solução; a intervenção em países fragilizados e o poder imperial substituem o diálogo; povos são expulsos de suas casas e territórios; minorias são transformadas em inimigas; mulheres desgraçadamente vivem ameaçadas em seus direitos; racismo e violência são esgrimidas contra a população negra; há desprezo pela ciência. Tudo leva à destruição de nossa Casa Comum em nome do lucro. Também no Brasil precisamos reconhecer os sinais autoritários que se fortaleceram nos últimos anos e permanecem presentes em nossa sociedade.
Em vista dessa realidade conflitante e carregada de incertezas, às vésperas das próximas eleições a PPL convida comunidades de fé e todo o povo brasileiro ao discernimento. Não basta perguntar se alguém é de esquerda ou de direita, conservador ou progressista. É preciso conhecer sua história, seus compromissos e sua prática. Quem são aqueles e aquelas que seus projetos beneficiam? Defendem políticas públicas capazes de alcançar quem mais necessita? Protegem a democracia, a dignidade humana e a criação, o planeta que geme? Combatem o racismo e a violência contra mulheres, crianças e minorias? É urgente resistir às notícias falsas e às manipulações que circulam pelas redes sociais e grupos de WhatsApp. Não aceitamos quem utiliza o nome de Deus para conquistar votos. O Estado é laico e a fé não pode ser transformada em instrumento de manipulação política. Nem todo aquele que se apresenta como pessoa cristã age segundo Cristo. Para nós, como PPL, Jesus Cristo é o critério. Por isso, relendo os Evangelhos, perguntemos: onde estão nas candidaturas os pobres, os famintos, os perseguidos, os estrangeiros, as mulheres violentadas, as crianças, as pessoas idosas, os povos originários, a população negra que carrega as feridas de séculos de escravização, as pessoas discriminadas e aquelas que ninguém deseja enxergar? É junto delas que queremos permanecer. É a partir delas que somos chamados a discernir nosso voto.
Nestas eleições de 2026, não entreguemos nossa consciência a ilusões de frases feitas, medos ressentidos, mentiras ou falsos profetas. Examinemos tudo e retenhamos o que é bom (1 Tessalonicenses 5.21). Olhemos para onde Deus olha. E votemos com consciência, fé, responsabilidade, discernimento crítico e compromisso com a vida para todas as pessoas.
Por Soberania, Democracia, Justiça Social e Ambiental!
Coordenação Nacional da PPL
Setembro de 2026
Ilustração da capa: Fé que se importa. Voto que transforma – Carta da PPL – Crédito: RED IA.

