Um espectro ronda o mundo.
O espectro do neofascismo.
Eu, Memórias Póstumas de Carlos Paiva.
in: Obras Inéditas do Terceiro Milênio
1. ntrodução: Realizaram-se!
Realizaram-se todas as mais trágicas previsões do velho Karl: os trabalhadores tornaram-se redundantes e desnecessários; a concentração de renda e riqueza cresce aceleradamente junto com a condição de “lumpesinato”. E não apenas os operários foram substituídos por robôs e complexos sistemas de automação. Os trabalhadores de serviços estão sendo substituídos por veículos autômatos, por sistemas de pagamento automáticos (pegue e passe entre os totens de saída com seu celular), por drones que fazem entregas ao domicílio, por programas de atendimento ao cliente da linha em que vozes mecânicas instruem: “se quiser anunciar uma perda ou roubo, disque 6”. Mais e pior: se ainda existem médicos, juízes, advogados e promotores revestidos de forma humana é pelo poder dos lobbies e retaliações específicos desses grupos de elevado status social: se um indivíduo investido da função de médico ou agente do sistema de justiça comete uma falha, ele é julgado enquanto indivíduo. Por oposição, se o software de uma big tech comete uma falha em uma avaliação médica ou jurídica, quem sofrerá a ação penal será a empresa – a big tech – e o seu programa “poupador de trabalho intelectual”. E ambos serão julgados por seus “pares humanos”; sem qualquer isenção, mas cobertos de interesses em preservar seus espaços na aquisição de rendimentos privilegiados. Me engano? Avaliemos a questão mais de perto.
O que um médico precisa saber para determinar o melhor tratamento para o seu paciente? Ele precisa: 1) estar up to date com a literatura e as mais recentes descobertas nas ciências médicas e biológicas; 2) ele precisa ter domínio de todos os exames e histórico médico (o prontuário) do paciente; e 3) ele precisa inquerir, ouvir e interpretar as manifestações do paciente e de seus familiares mais próximos (aqueles que convivem com ele e que são responsáveis pela administração da terapia a que se encontra submetido). Ora, os sistemas de Inteligência Artificial já são (e, logo, serão ainda mais) eficientes no primeiro quesito do que qualquer indivíduo. Se o prontuário do paciente for disponibilizado na rede, as chances de esquecimento e equívocos são ínfimas; muito menores do que para qualquer médico humano. E, hoje, os sistemas computadorizados de recepção de informações orais e – ainda mais importante! – de leitura e interpretação de manifestações faciais, corporais, batimentos cardíacos etc. com vistas à identificação de omissões e inverdades apresentam uma acuidade muito superior àquela dos entrevistadores humanos. Em suma: um atendimento médico por Inteligência Artificial poderia ser muito mais barato e muito mais eficaz do que um atendimento personalizado pelo melhor especialista humano em sua área. Só que ainda não chegamos lá.
Como ainda não chegamos à terceirização robótico-artificial-computadorizada dos agentes do Sistema de Justiça. Mesmo que – sem dúvida alguma – a IA já tenha em sua “memória” mais informações e mais fidedignas sobre a legislação consolidada e a jurisprudência vigente do que qualquer juiz, advogado ou promotor humano possa ter. E que se lhes for autorizado (será mesmo que precisa autorização?) acessar os históricos jurídicos, policiais e as trocas de mensagens nas redes sociais de indivíduos submetidos a inquérito e investigação, a IA poderia processar todos os cruzamentos com vistas a obter as informações relevantes em tempo recorde. Por fim, com os mesmos softwares de análise facial-corporal-batimentos cardíacos passíveis de utilização na medicina, temos um grande inquisidor mecânico, que poderá vir a dar vereditos em um tempo e um custo menores do que seus pares humanos e – por surpreendente que seja – com muito menos erros.
O que falta? Em primeiro lugar, tempo para que a patuleia que já se encontra sem vínculo empregatício formal saia às ruas exigindo que TODOS tenham o mesmo destino: o DESCARTE. Em segundo lugar, tempo para a constituição de um partido com um projeto capaz de galvanizar os descontentes em sua luta contra os “últimos incluídos”, contra os “beneficiados pelas instituições”. Mas o que falta, já não falta mais. FALTAVA.
2. Um neofascismo prá chamar de seu
Mino Carta sempre contestou a pretensão de que Bolsonaro fosse uma liderança fascista. E com muita razão. O fascismo é uma alternativa pela direita aos projetos de transformação radical da estrutura social oriundos da esquerda. Fascismo e socialismo (ou comunismo) têm em comum o reconhecimento de que a ordem social vigente é radicalmente injusta, ineficiente e incapaz de garantir uma distribuição minimamente equitativa da renda e do patrimônio. E engana-se quem pensa que a contestação da ordem de origem fascista seja meramente retórica e demagógica.
Em sua coletânea de textos sobre a Alemanha, Norbert Elias procura mostrar como o Terceiro Reich enfrentou e deprimiu o poder dos dois principais grupos de “status” da oligárquica sociedade alemã do início do século: o Exército e o Judiciário. Ao contrário da frágil República de Weimar, cujas iniciativas sofriam a oposição sistemática dos dois segmentos mais importantes do “estamento burocrático” alemão, Hitler não apenas subordinou e enfrentou essas corporações de ofício como criou organizações paralelas: um exército nazista (as SS) e um judiciário nazista (organizado em torno das SA). E se a vertente “socialista” do nazismo foi sendo arrefecida na medida em que se aproximava a tomada do poder, a vertente nacional-estatista jamais arrefeceu: ao longo de todo o III Reich a relação do Estado com a burguesia industrial e financeira era de apoio; condicionado à subordinação aos desígnios do Estado. Mais: Norbert Elias mostra como havia uma ambivalência no Estado oligárquico (ou, mais exatamente, estamental) alemão: de um lado, ele era hierárquico e cioso do cumprimento da lei; mas, de outro, ele era tolerante com os “desvios e pecadilhos” cometidos entre os membros do “topo da pirâmide”. O exemplo clássico era a tolerância do Estado Alemão com os duelos: a lei proibia que civis fizessem “justiça” com as próprias mãos; mas as leis tinham validade diversa para agentes diversos. Sob Hitler a lei também podia ser (e era, sistematicamente) descumprida. Mas apenas sob suas ordens (ou de líderes do Partido Nazista autorizados por ele) Nos termos de Elias: Hitler rompeu com a hierarquia aristocrática ainda vigente no interior do Estado alemão no início dos anos 30 do século passado. E, em função dos desdobramentos da Segunda Guerra mundial, esse movimento – rigorosamente antiaristocrático e dialeticamente democratizante – foi preservado nas duas Alemanhas que emergiram então.
Nenhuma dessas dimensões “antissistema real” está ou esteve presente no bolsonarismo. Assim como não esteve presente na (indi)gestão de Collor, o primeiro bufão da ópera pós-ditatorial brasileira. Desde logo, o discurso de Collor e Bolsonaro era de uma vaguidão absoluta: qual a diferença entre “caçar marajás”, “acabar com a corrupção” e “passar a vassourinha”? Nenhuma! No plano da gestão econômica, Jânio, Collor e Bolsonaro trabalharam pelo “amenorzamento” do Estado e impuseram reformas liberais (só FHC os superou nesse quesito!). Bolsonaro acrescentava à essa agenda liberal-demagógica a apologia da ditadura, o elogio da Lava-Jato, a persistente recusa em defender e debater ideias (levada ao limite no espetáculo da fakeada) e uma intimidade promíscua com tudo que havia de mais baixo e vulgar no ancien regime: crime organizado, milícias, rachadinhas etc. Como dizia Mino Carta sobre Bolsonaro: “um energúmeno demente que só é mesmo possível no Brasil”. Isso não é fascismo. É o velho tentando sobreviver nos novos tempos.
Mas o Brasil é um país um pouco mais sério do que pretendia (ou não) Charles de Gaulle. O que significa dizer: sim, nós também estamos desenvolvendo o nosso fascismo. E, hoje, ele se expressa no Partido Missão e no extraordinário crescimento de seu apelo eleitoral para o pleito de 2026 com a candidatura de Renan Santos.
Quem olha de “revesgueio”, sem atenção, não alcança entender a diferença entre essa nova direita e aquela à qual estamos acostumados. E, por isso mesmo, não entende por que Renan Santos, hoje, tem uma intenção de voto na juventude (entre 16 e 24 anos) equivalente (ou, em algumas pesquisas, superior) à intenção de voto de Lula e Flávio Bolsonaro. E não entende por que o candidato de um partido nanico, recém fundado, cujo orçamento pelo fundo eleitoral é de R$ 3,3 milhões de reais (0,374% da verba destinada ao PL, de Flávio Bolsonaro) alcançou fazer um lançamento com público similar (ou maior) do que o candidato do PL. Com um detalhe: o lançamento de Renan Santos foi num espaço “privê”, com cobrança de ingresso. Quem quiser detalhes do evento com um olhar acurado e crítico leia a excelente matéria da Carol Luck no Projeto Brief. O título da matéria já diz (quase) tudo: A geração que o Missão quer recrutar. … Voltaremos a esse ponto crucial logo adiante. Geração, desemprego, descartabilidade, desilusão têm – evidentemente – tudo a ver. Basta um “plus a mais adicionado” para chegarmos à insubordinação, à contestação, à subversão e … à contraversão. … Exagero?
Em entrevista à SBT, Renan Santos declarou: O que mais tem no Brasil é militar vagabundo que não faz nada. A contestação da ordem é inegável. E, em seu lançamento, era vendido uma versão de pelúcia da “mascote” do partido portando uma camiseta em que se lia
No lançamento também era vendido o “Livro Amarelo da Missão” – diga-se de passagem, o partido refere-se a si mesmo dessa forma: no feminino – com o programa de governo (condensado em 60 páginas) e diversos outros textos em que são apresentados os fundamentos teóricos e as razões da criação do partido (“De onde Viemos”), bem como seu projeto de futuro (“Para onde vamos?”). No todo, o Livro Amarelo conta com quase 500 páginas. Mas basta a leitura da Introdução ao Programa de Governo – assinada por Renan Santos – para vermos o quanto “A Missão” quer se diferenciar da direita tradicional brasileira. Lê-se aí:
O que se chama de bolsonarismo é, desde o princípio, um ajuntamento duvidoso de pilantras e iludidos, animado por um conjunto de ideias confusas. Seus porta-vozes repetem platitudes e generalidades. Seus líderes estão abaixo da mediocridade. (Introdução ao Plano de Governo)
Mas essa é só a ponta do iceberg. Renan Santos acusa – com razão! – Bolsonaro de ter destruído o “Teto dos Gastos” do Governo Temer e de ter sido ainda mais perdulário do que Lula e Dilma. E propõe uma reforma fiscal radical, com a depressão de gastos na saúde, na previdência, na assistência social, na educação universitária, nos subsídios fiscais e com os altos salário da elite do funcionalismo público (com ênfase nas Forças Armadas e no Judiciário). Como ele pretende atingir esses objetivos, que envolvem enfrentar múltiplos e sólidos interesses? Via mobilização popular; conquistada através de
- luta radical contra a criminalidade, com ênfase nas facções criminosas, através 1.1) da implantação dos princípios do Direito Penal do Inimigo, baseados nas teses de Günther Jakobs; 1.2) redução da maioridade penal;; 1.3) alterações no Código de Processo Penal, com vistas a acelerar inquéritos, processos e julgamentos; 1.4) ampliação do sistema carcerário brasileiro; 1.5) outorga de maior autonomia ao uso da força (e do direito de matar) aos agentes de defesa; e 1.6) instituição do “confisco invertido”: bens de faccionados são presumidos ilícitos até prova em contrário; e, last but not least, 1.7) federalização do combate ao crime organizado (projeto que tem o apoio do PT e a forte oposição dos Bolsonaros & Associados);
- criação de frentes de trabalho em todo o Brasil, com vistas à: 2.1) produção de bens públicos e infraestrutura básica; e 2.2) depressão dos dispêndios com Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada;
- reforma política voltada à ampliação do controle do Executivo Federal sobre a qualidade dos dispêndios através de:3.1) criação da Lei de Responsabilidade Gerencial, que imporá metas de eficiência à gestão dos executivos estaduais e municipais avaliadas por desempenho em educação, sanidade e crescimento econômico; 3.2) fundo partidário condicionado: partidos com prefeitos e/ou parlamentares cassados por improbidade administrativa perdem recursos e, no limite, não auferem qualquer valor; 3.3) depressão do número de municípios para algo em torno de 1 quarto do número atualmente existente; 3.4) criação da figura do “Comissário Federal” voltado à fiscalização just in time da alocação de verbas públicas e de sua qualidade; e – last, but not least – 3.5) restrição das emendas parlamentares e controle rigoroso de seus destinos, relevância e qualidade de aplicação através do “Comissariado Federal”.
- Desfavelização do Brasil, através da: 4.1) outorga de títulos de propriedade; aos domiciliados em favela; 4.2) código de postura urbana; 4.3) criação de sistemas públicos de atendimento à população hoje favelada;
- Apoio às micro e pequenas empresas com ênfase no Nordeste, no Agronegócio e na integração das cadeias de valor
Dentre todos os tópicos estruturantes do programa, o projeto de desenvolvimento e inclusão (item 5, acima) é o mais retórico e menos determinado d’A Missão. Não gratuitamente, sequer tentamos sistematizar os “projetos estruturantes” desta seção. Esta carência é muito sintomática e da maior relevância. Voltaremos a tratar dela na última seção desse texto.
O que importa, por enquanto, é entender que o programa d’A Missão não é o programa do Centrão ou do Bolsonarismo. É um programa de fortalecimento do Executivo Nacional (por oposição aos demais entes federados) Eleito (por oposição ao corpo burocrático do setor público). E é um programa de enfrentamento aos privilégios e poderes de congressistas, partidos tradicionais e da elite da burocracia estatal (com ênfase nas corporações militares e do sistema de justiça). A questão que fica é: por que ele está seduzindo a “geração descartável”?
3. A Geração Z – que emerge sob o signo da internet – é conservadora?
Não, definitivamente não é. Em um livro magnífico – Freedom from the Market -, Mike Konczal nos informa que 50% da população jovem norte-americana declara que preferiria viver em um país socialista do que em um capitalista. Mais: 60% são favoráveis a um sistema de saúde pública integral (como o SUS brasileiro) e a um sistema universitário público e gratuito. A geração Z quer MAIS Estado; não MENOS. Essa é a mesma conclusão de Dora Mengüc em primoroso trabalho jornalístico de sistematização de diversas pesquisas sobre o posicionamento político da juventude do século XXI. Em suas palavras:
A geração Z é frequentemente descrita como distraída, cínica, politicamente inconsistente ou refratária a instituições. Mas essa descrição ignora uma ruptura mais profunda. O que distingue essa geração não é a falta de engajamento político, mas o colapso da fé nas instituições e regras que outrora davam à política, ao trabalho e à vida adulta uma estrutura reconhecível. (A Geração Z perdeu a fé no capitalismo)
Vale a pena observar uma aparente contradição na passagem acima. Dora Mengüc começa anunciando o equívoco da leitura que toma a geração Z como “refratária a instituições”. E logo adiante anuncia que a principal característica dessa geração é o “colapso da fé nas instituições vigentes”. A contradição não é teórica; mas da ordem da realidade. A geração Z não é refratária a toda e qualquer instituição. Mas às instituições que, hoje, preservam uma ordem social que sanciona o “descarte” da juventude e os responsabiliza pelos seus fracassos. Essa contradição é particularmente desafiadora para nós, no Brasil. Por quê?
Em primeiro lugar, porque a realização/efetivação da estrutura legal/institucional democrático burguesa no Brasil é uma tarefa ainda em curso; e que vem sendo levada á frente pelos governos do PT. Como Florestan Fernandes e Roberto Schwarz tantas vezes tentaram nos ensinar, uma das peculiaridades da sociedade política brasileira encontra-se no abismo entre as funções formais das instituições públicas e suas funções reais. Desde sua origem, o Estado Nacional brasileiro é marcado pela oposição entre regras modernas e práticas ancestrais. Em bom e claro português: no Brasil, as leis sempre foram pra “inglês ver”. Ou noutro ditado igualmente popular e esclarecedor: “para os amigos, tudo; para os inimigos (e o povo) basta a lei” (sempre interpretada de forma punitivista). Bolsonaro, Moro e Fux são as expressões mais puras e perfeitas dessa larga tradição nacional na contemporaneidade. O PT é o oposto. Aqueles que acusam os governos petistas de “apenas cumprirem as leis” estão cobertos de razão. O que lhes falta é compreender o quanto este “apenas” é revolucionário. A Constituição Cidadã de 1988 é uma grande conquista; mas conquista muito maior e muito mais difícil de levar a cabo foi torná-la referência real das políticas públicas. No Brasil do século XXI, a defesa das instituições democrático-burguesas ainda tem uma dimensão revolucionária.
O segundo grande problema é que quem realiza esse programa – há um quarto de século – é o PT. … Só que o mundo do “descarte” está exigindo muito mais do que isso. E esse é o ponto central do diagnóstico de Dora Mengüc referido acima: as instituições burguesas idealizadas pelo iluminismo (em particular, por Montesquieu), que só vieram a se realizar plenamente nas democracias ocidentais nos anos do Bem-Estar Social do século XX e que ainda estão em processo de realização-efetivação no Brasil do século XXI são … velhas. Os jovens – os descartáveis por excelência – exigem mais. Muito mais.
Lula já entendeu isso. Seu discurso histórico no Fórum Progressista de Barcelona é a expressão maior e canônica dessa compreensão. Disse-nos Lula
O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discursos de esquerda mas praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema! (o negrito é meu)
Mas há uma distância enorme entre compreender as contradições às quais estamos submetidos e realizar a transição que se exige. Até porque os “governos do PT” não são os “governos de Lula”; por mais que a ideologia populista e caudilhista (que atribui tudo à vontade “chefe-coronel”) pretenda o contrário. E não se trata apenas das composições político-partidárias, que impõem negociações com o Congresso, entregas de Ministérios ao Centrão e composições com vice-Presidentes que representam grupos sociais à direita da base do PT (como José Alencar, Temer ou Alckmin). Trata-se de um problema interno. Trata-se da grande expressão interna ao PT daquelas frações que se recusam a ver que o projeto social-democrático – o projeto do Estado de Bem-Estar Social ancorado no fordismo e nos padrões produtivo-industriais de meados do século XX – está superado e é incapaz de mobilizar e aglutinar os “neodescartáveis” da geração Z.
4. Como enfrentar e superar o neofascismo?
Apontamos acima para a fragilidade do programa de “desenvolvimento econômico” e de inclusão dos “descartados” d’A Missão. Essa fragilidade não é gratuita. O fascismo é – sempre! – a expressão radicalmente negativa da contestação a uma certa ordem de privilégios. A Missão tem um claro programa no que diz respeito à “universalização do descarte”, voltado contra os privilegiados na institucionalidade contemporânea: a elite do funcionalismo público; agora, pela primeira vez, identificada objetivamente como o oficialato das Forças Armadas, os altos funcionários do Sistema de Justiça, os Congressistas e os gestores incompetentes e/ou corruptos de entes federados subnacionais. Também tem um programa de enfrentamento aos “privilégios” daqueles que se beneficiam da ausência (ou conivência) do Estado para exercerem a contravenção: é o tal “prendeu, matou”; que é afirmado, negado, tergiversado, mas, ao fim e ao cabo, divulgado na camiseta do “mascote tigrão” do partido. Também quer enfrentar os pré-sub-postos privilegiados dos programas assistenciais; trocando os benefícios graciosos por frentes de trabalho em prol do desenvolvimento. E tem um programa social de inclusão pela moradia, que busca “classemedizar” os favelados (essa intenção é explicitada no “Livro Amarelo”). Mas não tem um programa claro para a inclusão produtiva dos “descartados”. Por quê?
Porque o fascismo carrega consigo, de forma estrutural, uma dimensão de elogio da força, da competência e do “darwinismo social”. Nos termos do programa d’A Missão:
O Livro Amarelo é nossa entrega para os brasileiros … que sonham [com] um país onde todos possam andar na rua sem medo; onde todo pequeno empresário possa prosperar e participar da sua comunidade; onde todo e qualquer cidadão possa viver com dignidade em bairros limpos e arborizados; e onde os mais capazes e inteligentes possam produzir inovações no estado da arte mundial sem precisar abandonar seu país. (o negrito é meu)
Esse é o limite do neofascismo da “Era do Descarte”: seu programa é o da universalização da “orfandade”: o Estado será forte o suficiente para suprimir todos os privilégios e garantir que os mais fortes, os mais inteligentes, os mais inovadores, os mais empreendedores, vençam. Com uma única exceção, claro: a universalização da orfandade diz respeito à supressão do Estado Provedor; não à supressão do direito de “herança”. Aliás, esta palavra – herança – não aparece uma única vez no Programa d’A Missão; nem mesmo no longo e detalhado projeto de enfrentamento da dívida pública; que está integralmente baseado na depressão dos gastos, e não na taxação das grandes fortunas, dos ganhos financeiros, das transações imobiliárias ou de transferências de patrimônio por heranças e doações. O neofascismo d’A Missão é respeitoso com o patrimônio adquirido pela meritocrática burguesia brasileira.
Não se pode subestimar a relevância dessa fragilidade do Programa d’A Missão. Primeiro, porque ela expõe o calcanhar de Aquiles do projeto neofascista à brasileira: sua capacidade de galvanização da revolta da geração Z é limitada, pois ele oferece tão somente a universalização da orfandade, quando os jovens anseiam, na verdade, por mais amparo público-estatal (como nos mostram Konczal e Mengüç). E em segundo lugar porque ela mostra que o crescimento assombroso do projeto neofascista entre a juventude brasileira não advém de sua capacidade de responder de forma positiva às demandas postas pelos “descartáveis”; mas pela incapacidade dos governos petistas de atenderem de forma minimamente eficiente a estas demandas. Vejamos a questão mais de perto.
Há um tempo atrás um querido amigo, levando seus filhos para jogar futebol no parque em frente de sua casa, se deparou com uma cena reveladora e chocante: um homem dormia na rua agarrado a uma sacola do I-Food e a uma bicicleta alugada com a propaganda do Itaú. Ele fotografou a cena e essa foto fez tanto sucesso nas redes sociais que houve quem se perguntasse se aquilo era uma montagem. Não era. É a realidade dos descartados no Brasil contemporâneo (ele me prometeu reenviar a foto para ilustrar esse artigo, mas não o fez! Minha vingança será maligna!)
O que os governos petistas têm feito por esse sujeito? Recentemente, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços lançou um programa de apoio financeiro à aquisição de automóveis e motocicletas para taxistas e motoristas de transporte por aplicativos. Sem dúvida, o programa é ousado e alimenta a demanda por automóveis. As montadoras e concessionárias agradecem. Simultaneamente, são qualificados os serviços de mobilidade urbana individual; a Uber, a 99, a I-Food e demais aplicativos também agradecem. E taxistas, motoristas de aplicativos e entregadores obtém alguma vantagem na aquisição de seus instrumentos de trabalho. E também agradecem. Mas fica uma questão sem resposta: esse programa não altera a condição de subordinação dos trabalhadores por aplicativo às redes internacionais que os exploram; a “opção” por esse tipo de atividade lhes foi imposta pela depressão das oportunidades de inserção no mercado formal de trabalho. A aquisição de novos veículos não é uma alternativa a essa condição de trabalho: é a consagração da “uberização”; é a consagração do “descarte”.
Não podemos tratar aqui e agora, com o fôlego e a atenção que o tema mereceria, das políticas alternativas passíveis de serem levadas à frente em governos de esquerda no nosso país, capazes de enfrentar esse enorme desafio. Mas temos tempo para tratar de um ponto absolutamente crucial: as políticas que poderiam e deveriam estar sendo adotadas nos governos petistas em prol da inclusão efetiva e qualitativa dos “descartados” são de amplo conhecimento das lideranças partidárias.
Na verdade, o atual Presidente do PT, senhor Edinho Silva, foi um dos mais ousados e eficazes implementadores de políticas de inclusão em sua gestão como Prefeito de Araraquara. Desde logo ele criou o Bibi Mob, aplicativo de transporte municipal gerido de forma cooperativa pelos associados com apoio da Prefeitura Municipal e que garante 95% da receita das “corridas” para os motoristas. Criou também cooperativas – que receberam e continuam recebendo apoio e instrução técnica do município – organizando de forma associativa: 1) catadores e catadoras de materiais recicláveis (Cooperativa Acácia); 2) servidores nas áreas de limpeza, zeladoria, jardinagem, pintura, apoio em programas de combate à dengue e gestão de bolsões de entulho (Cooperativa Vitória Multisserviços); 3) egressos do sistema prisional, ocupados com limpeza urbana e manutenção de Áreas de Preservação Permanente (Cooperativa Sol Nascente, focada na reinserção social); 4) cozinheiras e provedoras de marmitas (Cooperativa Panelas Unidas); dentre diversas outras iniciativas.
Qual a dificuldade de implementar programas similares – mas de forma muito superior, muito mais abrangente, em nível nacional – nas gestões petistas? Mais: qual a dificuldade para ampliar e generalizar o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), que impõe a utilização de um mínimo de 30% dos recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) sejam utilizados na aquisição de produtos alimentares produzidos pela Agricultura Familiar? Por que o governo Federal não se utiliza de seu enorme poder de compra para apoiar as MPMEs (Micro, Pequenas e Médias Empresas) urbanas e organizações da ECOPOPSOL (Economia Popular e Solidária) através de programas de compras públicas? … Com certeza, a resposta não será encontrada na ignorância acerca dessas possibilidades. Onde ela está?
Deixamos essa pergunta no ar. Vamos tentar respondê-las num próximo artigo.
Foto de capa: Carlos Paiva | IA



