Em uma das muitas dores vividas nos Estados Unidos, deparei-me com o sistema de saúde.
Era extremamente especializado.
Havia atendentes para encaminhar atendentes.
Havia especialistas para tarefas que, em outros lugares, caberiam ao mesmo crachá.
A divisão do trabalho não encontrava limites.
O resultado era curioso.
O sistema mais caro do mundo convivia com resultados inferiores aos de seus pares.
Os especialistas de beca conhecem bem essa história.
O que me interessa aqui, porém, é sua coirmã.
A educação.
Também ela atravessou processo semelhante.
Os Professores, com P maiúsculo, rarearam.
Os que permaneceram passaram a conhecer tudo sobre cada vez menos.
A distância entre o conhecimento e a sociedade expandiu-se.
E os intermediários prosperaram.
Toda época cria seus atravessadores.
A nossa transformou-os em indústria.
Poucos produzem conhecimento.
Muitos vivem de sua circulação.
Outros extraem prestígio de sua embalagem.
Entre quem produz e quem procura compreender surgiu uma multidão.
Habitam estúdios.
Podcasts.
Painéis patrocinados.
Surfam as ondas sem desafiar a corrente.
Atravessam a vida sem formular uma pergunta incômoda.
Quanto menos se cria, mais se comenta.
Quanto menos se compreende, mais se opina.
Quanto menos se produz, mais se intermedeia.
Há quem veja nisso democratização do conhecimento.
Talvez.
Mas há outra possibilidade.
A de que a intermediação tenha crescido mais rapidamente do que a própria produção.
O conhecimento continuava sendo produzido.
Cada vez menos gente, porém, o encontrava antes da embalagem.
Como ocorre em tantas economias decadentes, a atividade mais lucrativa passou a ser ocupar o caminho entre uma coisa e outra.
Foto de capa: IA


