Os “Acordos de Paz” de Donald Trump

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Por WAGNER SOUSA*

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem se jactado em muitos de seus discursos como o sendo o “líder da paz” que “terminou oito guerras”, desde o início deste segundo mandato, o que claramente não procede, algumas das “guerras” mencionadas não estavam em curso, como entre Sérvia e Kosovo ou entre Egito e Etiópia, tratando-se de tensões entre vizinhos. Outros conflitos como entre Paquistão e Índia, que cessaram, não tem o reconhecimento das duas partes sobre um suposto papel decisivo dos EUA como intermediador. Mas na habitual autocongratulação do republicano, estes “feitos” e outros supostos o credenciariam a tornar-se merecedor do Prêmio Nobel da Paz. Talvez o fato do seu antecessor de primeiro mandato, Barack Obama, ter vencido a mesma premiação tenha algo a ver com isso. Na comparação do tamanho do público em suas primeiras posses, claramente favorável ao democrata, Trump insistiu em tentar demonstrar o contrário. Não cabe aqui incursões pela Psicanálise, mas o personagem, inusual em comparação com qualquer antecessor, e fundamentalmente egocêntrico, parece não perceber que, de fato, o seu país, embora ainda o mais poderoso, não tem mais a capacidade de “moldar” a ordem internacional como já teve no passado. 

É importante destacar também que o “pacifista” Trump já autorizou, neste primeiro ano de governo deste mandato, o bombardeio de 7 países, o que inclui Iêmen, Irã, Iraque, Nigéria, Síria, Somália e Venezuela, o que revela que não há um “intuito pacificador” do presidente norte-americano, e sim conforme já aconteceu em outras gestões, o manejo da guerra e da paz conforme os interesses da potência hegemônica. E no que diz respeito às tentativas de mediação, está se tornando clara a incapacidade desta potência em diferentes “tabuleiros” como na Faixa de Gaza, no conflito entre Camboja e Tailândia e na guerra na África Central envolvendo a República Democrática do Congo e rebeldes apoiados por Ruanda.

No caso da Faixa de Gaza, a “fase 2” do “plano de paz” incluiria a renúncia às armas pelo Hamas, a reconstrução da região e a implantação da governança prevista.  Embora o mandatário norte-americano tenha reafirmado que esta segunda fase vai começar em breve, isto não deve ocorrer, por várias razões. O Hamas nunca se comprometeu a depor suas armas, conforme consta desta fase do plano e Israel não dá sinais de que fará a desocupação gradual prometida do território, 400 palestinos e 3 soldados israelenses morreram desde o cessar-fogo de outubro, uma grande redução em relação à matança diária promovida até então pelas tropas israelenses, mas ainda assim, evidentemente, uma situação trágica somada a todas as carências nesta catástrofe humanitária. Israel não permitiu o envio de suprimentos na quantidade necessária, o que é um dos pontos do acordo. Países como a Indonésia ou o Azerbaijão, que se colocaram no início como dispostos a enviar tropas para a prevista força multinacional de paz já não parecem tão simpáticos à ideia. A administração de Gaza deve se dar por um “Conselho da Paz” a ser presidido por Donald Trump tendo também como designado “interventor anglo-saxão” o ex-Primeiro-Ministro britânico Tony Blair. A evolução do plano de Trump, se levada adiante, como anunciada, poderia, em tese, levar a um status futuro de autonomia à Gaza. Porém, a coalizão de extrema-direita que governa Israel já deixou claro que não aceita um Estado Palestino e, pelo contrário, vários membros do gabinete já externaram que querem anexar Gaza e a Cisjordânia. Trump tem pressionado o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu para que seu plano siga adiante, sem sucesso até o momento. E, demonstrando alinhamento com Israel, proferiu novas ameaças ao Irã.

“Estamos resolvendo uma guerra que já dura décadas”, afirmou Trump sobre o conflito entre a República Democrática do Congo e rebeldes apoiados por Ruanda. Um primeiro acordo, firmado em junho, não foi respeitado e após uma reunião entre o mandatário estadunidense, o presidente congolês Félix Tshisekedi e o de Ruanda, Paul Kagame, em 05 de dezembro de 2025, os combates se acentuaram. Trump visava pacificar a região para tornar viáveis projetos de exploração mineral.

Outro dos conflitos “resolvidos” pela intermediação da administração Trump é o entre Tailândia e Camboja, que teve um frágil cessar-fogo acordado em julho e assinado em outubro. No início do mês de dezembro os combates foram retomados. A disputa se dá por áreas na fronteira dos países.

O que esses exemplos evidenciam é que apesar da disposição da atual administração dos EUA em realizar essas mediações e do presidente as anunciar como êxitos, esses acordos não tem se sustentado. As razões podem ser discutidas caso a caso, mas parece evidente que o “ativismo” da gestão republicana em buscar essas soluções, no tempo bastante curto de menos de um ano de governo, para conflitos de anos ou décadas, não está considerando, na devida medida, a complexidade política envolvida nesses conflitos. O que se evidencia cada vez mais também é a crescente perda de capacidade dos Estados Unidos em exercer esse papel, seja pela perda da autoridade moral a partir do morticínio perpetrado por Israel na Faixa de Gaza, com não apenas tolerância, mas apoio material norte-americano, já a partir da gestão democrata de Joe Biden, seja pela mudança na correlação de forças na arena global, com destaque para a ascensão da China, que tem atuado em mediações como a que fez (e surpreendeu o mundo naquele momento) e foi concluída em 2023, para distensão entre Arábia Saudita e Irã, dois inimigos históricos.

A estes insucessos vendidos como sucessos da nova administração dos Estados Unidos se soma a nova “Estratégia de Segurança Nacional”, que se propõe a retomar, de forma bastante agressiva, a Doutrina Monroe, como está se vendo com a transformação da Venezuela numa espécie de protetorado, com as ameaças de anexação da Groenlândia, o desrespeito ao direito marítimo internacional com a captura de petroleiros que operam com bandeiras de terceiros países e o anúncio da saída dos EUA de mais de 60 organizações internacionais, tidas pelo governo Trump como contrárias aos interesses nacionais dos Estados Unidos. A ordem do pós-guerra, com suas leis e instituições internacionais construídas fundamentalmente pelos norte-americanos, vai sendo desmontada pelos próprios, por não mais atender às suas expectativas de expansão de poder. Menos regras e mais força bruta, menos instituições e mais Império.


Publicado originalmente em Observatório Internacional do Século XXI.

*Wagner Souza é Doutor em Economia Política Internacional pela UFRJ. Pós-Doutorado em Relações Internacionais pela Unesp. Atualmente é pós-doutorando em Economia Política Internacional na UFRJ com pesquisa sobre a política externa alemã e suas relações com grandes potências (EUA, Rússia e China).

Foto da capa: Getty Images

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