A prosperidade que ainda não aprendeu a repartir | Por Edward Magro

Ainda que 71% dos indicadores tenham evoluído, o crescimento do PIB expõe os limites do desenvolvimento econômico desacompanhado de justiça distributiva e combate ao racismo estrutural.
Publicado em 15 de agosto de 2026 às 8:00
Editado em 14 de agosto de 2026 às 14:58

Em 2025, o Brasil reduziu o desemprego, elevou a renda e melhorou diversos indicadores sociais. A taxa de desocupação caiu para 5,6%, o rendimento médio real cresceu 5,3% e também houve avanços na segurança alimentar, na redução da desnutrição infantil e entre idosos, na queda do analfabetismo, na educação infantil, no ensino médio e superior, na saúde e na redução dos homicídios registrados entre jovens de 15 a 29 anos.

Esses resultados aparecem no Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, coordenado e publicado pelo Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades.

Seria absurdo desdenhar das melhorias registradas. Elas significam vidas concretas que melhoraram. Mas o mesmo relatório mostra que o avanço das médias nacionais convive com distâncias que permanecem profundas. A concentração da renda aumentou, a desigualdade salarial entre homens e mulheres se agravou, a tributação permaneceu regressiva nas altas rendas e as diferenças entre grupos raciais e regiões continuaram expressivas. Dos indicadores que puderam ser atualizados, 71% melhoraram, 16% pioraram e 13% permaneceram estáveis.

O país melhorou, mas a melhora não alcançou todos com a mesma intensidade. A questão central está na nossa habitual convivência pacífica entre progresso e desigualdade. Na nossa tranquila convivência com o progresso de uns e a desigualdade de tantos.

O governo militar difundiu no pensamento público a ideia de que seria necessário primeiro fazer a economia crescer para, depois, distribuir a riqueza. Tornou-se hegemônica uma concepção segundo a qual o crescimento traria investimentos, empregos e arrecadação e, em algum momento, seus benefícios chegariam aos mais pobres. Essa concepção serviu a uma visão política que aceitava a concentração da riqueza como um custo provisório do desenvolvimento, na expectativa de que a prosperidade acabaria chegando aos que estavam na base da sociedade.

Há uma parte verdadeira nessa sequência. Economias que não crescem encontram limites para gerar empregos, elevar rendimentos e financiar políticas públicas. O problema começa quando uma condição necessária é convertida em promessa de que a redução da pobreza virá por consequência.

Os números de 2025 ajudam a medir o limite dessa promessa. O rendimento médio aumentou, mas a distância entre o topo e a metade mais pobre da população também cresceu. Em 2024, o rendimento médio do 1% mais rico era 30,2 vezes superior ao dos 50% mais pobres. Em 2025, chegou a 31,5 vezes.

Crescimento e distribuição obedecem a lógicas distintas. A economia pode produzir mais riqueza, mas são os salários, os impostos, as transferências, os serviços públicos e as regras que organizam o mercado que definem quanto dela chegará à vida cotidiana de cada grupo social. Crescer, portanto, não resolve a questão distributiva. É preciso decidir quem terá acesso aos frutos do crescimento e em que medida.

No mercado de trabalho, essa diferença aparece de forma concreta. A queda do desemprego alcançou diferentes grupos, mas as distâncias permaneceram. Em 2025, as mulheres continuaram recebendo menos que os homens, e as mulheres negras permaneceram em posição especialmente desfavorável, com rendimento pouco superior a 40% daquele recebido pelos homens não negros.

O problema não está em uma suposta incapacidade da economia de criar oportunidades. As oportunidades chegam a uma sociedade já marcada por diferenças de renda, patrimônio, escolaridade, território e acesso a serviços. Uma mesma vaga de emprego não representa a mesma possibilidade para quem teve acesso a uma educação de qualidade e para quem precisou abandonar os estudos para trabalhar.

A desigualdade racial brasileira tem raízes profundas. A população negra deixou a escravidão sem políticas de inclusão econômica e social capazes de enfrentar as condições que lhe haviam sido impostas. As mulheres, por sua vez, foram historicamente associadas ao trabalho reprodutivo, realizado sem remuneração e pouco valorizado. Essas estruturas continuam influenciando o acesso ao emprego, à renda, à propriedade e às oportunidades.

Por isso, mesmo em períodos de expansão como o atual, nossa economia continua convivendo com desigualdades renitentes. O crescimento amplia as possibilidades do país, mas não desfaz, por si só, as estruturas que distribuem de maneira desigual riqueza, poder e oportunidades. Se essas estruturas também resultam de escolhas políticas, sua transformação depende de outras escolhas, igualmente políticas.

A educação mostra como essas diferenças atravessam gerações. O Brasil reduziu o analfabetismo, ampliou a educação infantil e avançou na escolarização. Ainda assim, entre jovens de 18 a 24 anos, a taxa de escolarização líquida no ensino superior chegou a 36% entre os jovens não negros, contra apenas 14,6% entre os jovens negros.

A distância não termina na matrícula. Ela acompanha o estudante até o mercado de trabalho, afeta sua remuneração e condiciona sua autonomia econômica. Uma criança que recebe menos oportunidades hoje pode encontrar, décadas depois, um mercado de trabalho no qual uma desigualdade antiga já parece natural.

Na segurança alimentar, houve redução da insegurança alimentar moderada e grave e avanços na redução da desnutrição infantil e entre idosos. Ainda assim, a população negra continua mais exposta à insegurança alimentar.

Na saúde, os resultados também melhoraram, mas persistem diferenças relevantes. Os homens negros apresentam os maiores percentuais de mortes por causas evitáveis. A melhora da média nacional é valiosa. Ela não pode servir de abrigo para desigualdades que continuam cobrando um preço muito maior de determinados grupos.

O território também pesa. Norte e Nordeste concentram os maiores percentuais de pobreza, insegurança alimentar, analfabetismo, mortalidade infantil, gravidez na adolescência e homicídios registrados entre jovens, além dos menores níveis de acesso à creche. Nascer em determinada região ainda interfere nas possibilidades de uma pessoa estudar, trabalhar, ter acesso a serviços e viver com segurança. Igualdade de direitos, portanto, não exige uma ação pública idêntica em todos os lugares. Quando as condições de partida são desiguais, a política pública precisa ter força suficiente para corrigir parte dessa diferença.

O meio ambiente oferece uma dimensão particularmente reveladora dessa desigualdade. O Brasil reduziu significativamente as emissões de gases de efeito estufa e o desmatamento, sobretudo pela queda das emissões relacionadas ao uso da terra e das florestas. Ao mesmo tempo, aumentaram tanto o número de pessoas vivendo em áreas de risco geológico quanto a quantidade de áreas classificadas como de alto e muito alto risco. Reduzir o desmatamento é um avanço. Proteger quem permanece exposto aos efeitos das mudanças climáticas é uma tarefa diferente, e igualmente necessária.

Para famílias de menor renda, mudar de território ou absorver uma perda causada por um evento extremo costuma ser muito mais difícil. A crise climática, como tantas outras dimensões da desigualdade brasileira, não distribui seus custos de maneira uniforme.

A tributação mostra uma dimensão decisiva das escolhas do Estado. O relatório aponta que a tributação da renda continua regressiva nas faixas mais altas, em parte porque os rendimentos do topo da distribuição têm maior participação de lucros, dividendos e outras rendas do capital.

Houve, entretanto, mudanças recentes, como a ampliação da isenção para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais e o aumento da tributação sobre rendas anuais superiores a R$ 600 mil. São decisões que alteram a distribuição dos recursos. E justamente por isso importam. A desigualdade não é uma paisagem econômica diante da qual o país só pode resignar-se. Também resulta das regras que definem quem paga, quanto paga e como o Estado utiliza aquilo que arrecada.

A representação política acrescenta outra dimensão. Em 2025, 56% da população brasileira se declarou negra, enquanto pessoas negras correspondiam a 70% da população prisional. Houve ampliação da presença de mulheres e pessoas negras em espaços de representação institucional. A democracia se fortalece quando mais brasileiros chegam aos lugares em que as decisões são tomadas. Mas representação política precisa caminhar junto com condições materiais que permitam a esses cidadãos exercer plenamente seus direitos.

A velha promessa do crescimento automático perde força diante desse quadro. Não porque crescer seja desnecessário. Muito pelo contrário. Crescimento gera recursos, empregos e possibilidades. O que ele não faz sozinho é decidir quem terá acesso a uma escola de qualidade, quem poderá viver longe de áreas de risco, quem conseguirá atravessar uma emergência sem perder a renda, quem receberá uma remuneração justa ou quanto cada grupo contribuirá para financiar o Estado.

Existe, então, uma questão que a expansão da economia não responde por si mesma: por que alguém deveria esperar que a economia cresça para deixar de viver na pobreza?

A pergunta não pede uma economia menor. Pede uma política social menos dependente das oscilações da economia. Educação, saúde, alimentação adequada, moradia, proteção social, segurança e acesso a serviços públicos são condições básicas de uma vida digna. Uma sociedade pode decidir tratá-las como direitos permanentes, e não como benefícios disponíveis apenas quando as contas nacionais estão particularmente favoráveis.

O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades aponta nessa direção. Crescimento econômico, geração de empregos e aumento da renda são fundamentais, mas insuficientes para superar desigualdades estruturais construídas historicamente. O caminho passa pelo fortalecimento da redistribuição, pela ampliação do acesso a direitos e serviços públicos de qualidade e por políticas capazes de promover maior igualdade de oportunidades entre grupos sociais e regiões.

Essa mudança exige abandonar a ideia, confortavelmente arraigada no imaginário coletivo, de que o desenvolvimentismo, por si só, é uma panaceia capaz de produzir uma sociedade melhor. Não basta saber quanto a economia consegue produzir. É preciso saber quem se beneficia dessa produção, quem permanece à margem e quais decisões públicas podem reduzir essa distância. Uma economia verdadeiramente próspera não é apenas aquela que acumula riqueza, mas aquela capaz de convertê-la em condições concretas de liberdade, segurança e oportunidades para um número cada vez maior de pessoas.

Os governos progressistas já mostraram que o Brasil consegue melhorar indicadores importantes. O desafio está em fazer com que essas melhorias alcancem as desigualdades que permanecem por trás das médias nacionais.

Uma criança que entra na creche, um jovem que chega à universidade, uma família que deixa de passar fome, uma trabalhadora que recebe salário justo e uma pessoa que deixa de viver em uma área de risco não estão esperando que o PIB lhes conceda autorização para viver melhor. Precisam de políticas públicas capazes de transformar direitos reconhecidos em possibilidades reais.

O desenvolvimento brasileiro será medido também pela capacidade de reduzir aquilo que ainda permanece negado a uma parte dos cidadãos.

O crescimento pode ampliar as possibilidades de uma sociedade. A distribuição decide quem poderá aproveitá-las. Nenhuma das duas coisas acontece por vontade própria.

Se o Brasil já demonstrou que consegue produzir mais, precisa agora fazer com que a riqueza produzida se converta, de maneira mais ampla, em liberdade, segurança e possibilidades concretas de vida.

O relatório completo está disponível em https://ifz.org.br/relatorio-do-observatorio-brasileiro-das-desigualdades-2026/ ou em https://combateasdesigualdades.org/relatorio-do-observatorio-brasileiro-das-desigualdades-2026/


Foto de capa: Márcia Foletto/Agência O Globo

Sobre o autor

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Edward Magro
Ensaísta político e colaborador da RED.

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