O Setor Externo Brasileiro e a Armadilha da Estabilidade

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Por MARIA LUIZA FALCÃO SILVA*

Déficit moderado, reservas elevadas e forte entrada de capitais escondem uma questão mais profunda: o lugar ainda subordinado do Brasil na hierarquia econômica internacional

O Brasil encerrou 2025 com um déficit em transações correntes de US$ 68,8 bilhões, equivalente a 3,02% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com dados divulgados pelo Banco Central.  À primeira vista, trata-se de um número administrável — especialmente porque foi integralmente coberto pelo ingresso de investimento direto estrangeiro. Não há crise cambial no horizonte imediato, nem sinais de ruptura financeira. Mas parar nessa constatação seria um erro analítico. O balanço de pagamentos não é apenas uma tabela contábil; ele revela a posição de um país na economia mundial, seus graus de autonomia e suas dependências estruturais. E o que os dados mais recentes sugerem é menos tranquilizador do que parece.

Ao mesmo tempo, o país registrou investimento direto no valor de US$ 77,7 bilhões — cerca de 3,4% do PIB — portanto superior à necessidade de financiamento externo. As reservas internacionais permaneceram robustas, em torno de US$ 358 bilhões, funcionando como um colchão amortecedor importante diante de choques externos.

Nada disso combina com a imagem clássica das crises cambiais que marcaram a história brasileira. Não há corrida contra o real, nem perda acelerada de reservas. O país atravessa, sob esse aspecto, uma fase de estabilidade relativa.

Mas, a pergunta relevante, não é apenas se o déficit é financiável. É entender por que ele existe e o que sua composição revela.

O número que tranquiliza — e a estrutura que preocupa

O primeiro ponto que chama atenção é que o Brasil continua gerando divisas no comércio de bens. Em 2025, o superávit comercial alcançou aproximadamente US$ 60 bilhões, com exportações recordes de US$ 350,9 bilhões e importações próximas de US$ 290,9 bilhões.

Esse desempenho confirma algo importante: o país não perdeu sua capacidade exportadora. O problema não está exatamente na falta de dólares provenientes do comércio.

A questão aparece quando observamos o restante da conta corrente.

O déficit em serviços chegou a US$ 52,9 bilhões. Não se trata de um número trivial — ele praticamente corrói o superávit comercial. E o mais significativo é sua composição: despesas com propriedade intelectual, tecnologia da informação, telecomunicações, aluguel de equipamentos, fretes e viagens internacionais.

Esse conjunto aponta para uma dependência típica das economias periféricas no século XXI. Já não representa apenas a velha divisão entre produtos manufaturados e primários. A nova fronteira da dependência está nos intangíveis — tecnologia, dados, plataformas digitais, patentes.

Em outras palavras, exportamos toneladas; importamos conhecimento.

Ainda mais estrutural é o comportamento da renda primária, que registrou déficit de cerca de US$ 81,3 bilhões. Dentro desse total, as remessas líquidas de lucros e dividendos somaram aproximadamente US$ 53,6 bilhões, enquanto as despesas líquidas com juros ficaram próximas de US$ 28 bilhões.

Esse talvez seja o dado mais revelador de todo o balanço de pagamentos.

Ele mostra que o Brasil continua transferindo uma parcela significativa do excedente gerado internamente para o exterior. Trata-se do preço da internacionalização do capital produtivo e financeiro instalado no país.

Durante décadas, economistas desenvolvimentistas alertaram para esse mecanismo: o capital estrangeiro ajuda a financiar o crescimento, mas cria uma obrigação permanente de remessas futuras. Quando esse processo não vem acompanhado de avanço tecnológico doméstico e fortalecimento da base produtiva nacional, o resultado tende a ser um déficit recorrente.

Não é uma crise. É uma engrenagem estrutural.

Financiamento externo: solução ou dependência futura?

O fato de o investimento direto ter superado o déficit externo costuma ser interpretado como um sinal inequívoco de solidez. E, em certa medida, é mesmo preferível financiar a conta corrente com capital produtivo do que com dívida de curto prazo. Mas essa leitura precisa ser qualificada.

Nem todo investimento direto implica expansão real da capacidade produtiva. Parte relevante desses fluxos assume a forma de reinvestimento de lucros, reorganizações societárias ou operações Inter companhia — que, embora contabilizadas como investimento, não necessariamente ampliam a densidade tecnológica da economia.

Mais importante ainda: o investimento de hoje frequentemente se transforma nas remessas de amanhã.

Há, portanto, uma troca intertemporal embutida nesse arranjo — recebe-se capital no presente, comprometem-se divisas no futuro.

Esse mecanismo só se torna virtuoso quando eleva de forma duradoura a produtividade e a complexidade econômica. Caso contrário, pode consolidar um padrão de dependência financeira.

Reservas altas não significam soberania

As reservas internacionais elevadas reduzem drasticamente o risco de uma crise clássica de balanço de pagamentos. O Brasil, aliás, aprendeu com as turbulências do passado e construiu um seguro macroeconômico relevante.

Mas reservas não alteram estruturas produtivas. Funcionam como proteção, não como estratégia de desenvolvimento.

O início de 2026 trouxe sinais mistos. Dados preliminares indicam exportações em alta e importações ligeiramente menores, sugerindo algum fôlego comercial. Ainda assim, a questão central permanece intocada: o país está apenas administrando sua inserção internacional ou tentando transformá-la?

Essa distinção é crucial.

Uma economia pode conviver por muito tempo com déficits moderados sem entrar em colapso. O verdadeiro limite aparece quando o crescimento acelera. Historicamente, ciclos de expansão no Brasil costumam ampliar importações, pressionar o câmbio e reacender o debate sobre vulnerabilidade externa.

É o velho dilema do desenvolvimento tardio: crescer sem desequilibrar o setor externo.

Hierarquia monetária e poder global

Nesse ponto, o balanço de pagamentos deixa de ser um tema técnico e passa a ser um indicador de poder no sistema internacional.

Países que controlam tecnologias-chave, moedas fortes e cadeias produtivas globais tendem a registrar superávits estruturais ou, quando deficitários, financiam-se em sua própria moeda como faz os Estados Unidos. Já economias como a brasileira operam sob outra lógica: precisam atrair capital externo e preservar a confiança dos mercados para sustentar o equilíbrio cambial.

Isso define uma hierarquia monetária global na qual o dólar permanece no topo.

Ainda que o mundo caminhe lentamente para maior diversificação cambial — com o avanço do uso de moedas locais em trocas internacionais e iniciativas associadas aos BRICS+, por exemplo — essa transição, contudo, está longe de eliminar a centralidade da moeda americana.

Para países emergentes, isso significa conviver com ciclos financeiros internacionais que não controlam.

O risco da complacência

O resultado externo brasileiro de 2025 pode ser descrito como uma estabilidade condicionada. Não há desorganização macroeconômica, mas tampouco há autonomia plena.

Essa constatação exige cuidado político na interpretação dos dados. O país não está diante de um quadro alarmante, mas também não deveria se acomodar à ideia de que déficits financiados são sinônimo de conforto.

A verdadeira questão é outra: que tipo de inserção internacional o Brasil deseja construir nas próximas décadas?

Se continuar dependente da exportação de bens primários e da importação de serviços sofisticados, o saldo estrutural tenderá a permanecer pressionado. Se, ao contrário, conseguir avançar na neoindustrialização, incorporar tecnologia e reduzir vazamentos de renda, o balanço de pagamentos poderá deixar de ser um freio recorrente ao crescimento.

Essa é uma discussão estratégica porque, no fundo, o setor externo conta uma história sobre soberania.

O Brasil do início de 2026 não é um país frágil como aquele que enfrentou as crises cambiais do passado. Mas também ainda não é uma economia capaz de crescer com independência financeira plena.

Entre a fragilidade e a autonomia existe uma zona intermediária — confortável no curto prazo, limitadora no longo.

Talvez o maior risco não esteja no déficit de 3% do PIB. O maior risco é naturalizar um padrão em que o equilíbrio externo depende continuamente da disposição do capital internacional em financiar o país.

Em um mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, fragmentação econômica e disputa tecnológica, depender excessivamente dessa disposição pode se revelar uma aposta arriscada.

O resultado do balanço de pagamentos de 2025 não anuncia uma crise. Mas tampouco autoriza complacência.

Ele funciona mais como um lembrete silencioso de que estabilidade macroeconômica e soberania econômica não são a mesma coisa — e de que o verdadeiro desenvolvimento começa quando um país deixa de apenas fechar suas contas externas e passa, finalmente, a redefinir seu lugar no mundo.


*Maria Luiza Falcão Silva é PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED). Entre outros, é autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England/USA.

Foto de capa: – Marcello Casal Jr./Agência Brasil

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