Sempre desconfiei dos chuveiros a gás.
Eles parecem simples.
Nunca são.
Abrimos um pouco o registro.
A água continua fria.
Esperamos.
Nada.
Giramos mais um pouco.
Ainda nada.
A impaciência chega antes da água quente.
Então damos uma boa volta no registro.
Dois segundos depois, a água ferve.
Assustados, voltamos tudo.
Agora congela.
Passamos o restante do banho oscilando entre o Polo Norte e o Saara, convencidos de que o problema está na posição do registro.
Os chuveiros mais antigos escondem outra ironia.
Às vezes a pilha está fraca.
Outras vezes a pressão da água é baixa.
O registro nunca foi o verdadeiro problema.
Era apenas a única peça ao alcance da mão.
Foi lendo Karl Polanyi que percebi que aquele chuveiro nunca tinha sido apenas um chuveiro.
Em A Grande Transformação, Polanyi observou que toda tentativa de organizar a sociedade apenas pela lógica do mercado acaba despertando um movimento em sentido contrário.
Fechei o livro.
Mas o chuveiro permaneceu.
Durante muito tempo, bons pais eram pais severos.
Depois descobrimos que crianças também têm medo.
O medo de ferir passou a competir com o medo de educar.
O registro girou outra vez.
Continuamos girando registros.
Nunca olhamos a pilha.
Menos ainda a pressão da água.
Discutimos aquilo que conseguimos mover.
Raramente aquilo que sustenta o sistema.
Vivemos girando registros.
Enquanto a pilha se esgota.
Enquanto a pressão diminui.
Enquanto os canos enferrujam.
Há problemas que se resolvem com um quarto de volta.
Outros exigem trocar a pilha.
Alguns só desaparecem quando temos coragem de abrir a parede.
Foto de capa: IA


