No tabuleiro político brasileiro, a distância entre o idealismo de parcela das esquerdas nas redes sociais e a dureza do Congresso Nacional é um abismo. Atualmente, o governo Lula enfrenta um cenário de resistência sistêmica: dos 513 deputados federais, apenas cerca de 130 compõem uma base governista sólida. Governar sob o presidencialismo de coalizão exige, portanto, mais do que convicção ideológica; exige o pragmatismo de quem compreende que a governabilidade é a pré-condição para qualquer projeto transformador.
O Centrão, grupo que domina as principais comissões e controla o fluxo das emendas parlamentares impositivas, uma excrescência do Estado Democrático de Direito, dita o ritmo da República. Historicamente associado ao “governismo” e à troca de apoio por espaços na máquina estatal, esse bloco é o fiel da balança. Lula, ciente de que o isolamento é o caminho mais curto para a paralisia — como visto no golpe político contra Dilma Rousseff —, move suas peças para dialogar com setores do MDB, PP e União Brasil.
Esta articulação não é uma adesão aos valores do Centrão, mas um risco calculado. O objetivo é duplo:
1o.) Garantir a estabilidade institucional para aprovar pautas essenciais; e
2o.) Neutralizar alianças que poderiam fortalecer a candidatura de nomes como Flávio Bolsonaro em 2026.
A busca pela ampliação das alianças para além do campo progressista não deve ser vista como um desvio ideológico, mas um movimento pragmático necessário de sobrevivência democrática de disputa concreta de poder.
A reeleição do Lula é, sem dúvida, a prioridade de qualquer cidadão que luta pelo aperfeiçoamento da democracia. Mas temos que ter em mente que a eleição presidencial não se ganha apenas no debate nacional, mas, também, na engenharia regional. Governadores e prefeitos são grandes cabos eleitorais em seus estados e cidades. Ao atrair partidos de centro, centro-direita e direita, Lula busca desarmar o palanque de opositores radicais nos estados, garantindo que a democracia brasileira não seja novamente colocada em xeque.
O campo progressista enfrenta um dilema: a pureza do isolamento ou a complexidade do poder real. Lula escolheu fazer política no mundo como ele realmente é. Em 2026, a disputa não será apenas sobre projetos econômicos e sociais, mas sobre a manutenção do rumo institucional do Brasil. A reeleição de Lula representará a vitória da política sobre o caos, da negociação sobre o confronto e, acima de tudo, a preservação da própria democracia e da soberania do Brasil.
Fotode capa: Divulgação/Agência Brasil/ND





