O que a Globo perguntou a Lula e Flávio — e o que deixou de perguntar | Por Benedito Tadeu César

As entrevistas da Globo com Lula e Flávio Bolsonaro expuseram diferenças no peso dado às acusações, à pauta econômica e aos temas que ficaram fora da discussão eleitoral.
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 12:59
Editado em 30 de agosto de 2026 às 12:59

Entrevistas presidenciais criaram equivalências discutíveis e levantaram questões sobre pauta, formato e seleção dos candidatos

Durante seis noites, a Globo submeteu seis candidatos à Presidência a uma mesma fórmula: cerca de 40 minutos diante de Renata Vasconcellos e César Tralli, com perguntas incisivas, interrupções e cobranças sobre declarações anteriores.

Passaram pelo programa Entrevista com o Candidato Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury.

As entrevistas tiveram méritos. Em tempos de redes sociais, vídeos editados e comunicação dirigida aos convertidos, colocar candidatos diante de jornalistas dispostos a confrontá-los presta um serviço à democracia.

Mas, vista a série completa, permanecem três questões: quem entrevistar, como entrevistar e o que perguntar?

Seis candidatos, mas uma disputa muito mais concentrada

A Globo adotou um critério objetivo: convidou os seis primeiros colocados na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto.

Lula aparecia com 38% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro, com 31%. Juntos, concentravam 69%. Muito atrás estavam Ronaldo Caiado e Renan Santos, com 4% cada, e Romeu Zema e Augusto Cury, com 2% cada.

Todos receberam aproximadamente os mesmos 40 minutos.

Não se trata de defender o silêncio das candidaturas minoritárias. Elas fazem parte do processo democrático e podem introduzir questões importantes no debate. Mas por que um candidato com 2% deve receber exatamente o mesmo espaço editorial de outro com 38%?

E por que seis? O critério da posição na pesquisa apenas transfere a decisão: o sexto colocado ganha 40 minutos; o sétimo, nenhum.

A legislação eleitoral não obrigava a Globo a distribuir dessa maneira seu espaço jornalístico. Foi uma escolha editorial. Um formato alternativo poderia garantir espaço às candidaturas minoritárias e reservar entrevistas mais extensas aos candidatos que efetivamente concentram a disputa pela Presidência.

Entrevista ou sabatina?

O próprio formato também merece discussão.

Embora apresentado como entrevista, o modelo adotado se aproximou de uma sabatina: perguntas sucessivas, interrupções de respostas consideradas evasivas, apresentação de contradições e tentativas de retirar os candidatos de seus discursos preparados.

Pode produzir bom jornalismo. E produziu em vários momentos.

Mas também pode transformar a entrevista política numa espécie de prova oral televisionada, na qual parte do interesse passa a ser descobrir se o candidato consegue sobreviver à pressão dos entrevistadores.

A questão é: uma entrevista presidencial deve servir prioritariamente para testar o candidato ou para permitir ao eleitor conhecer e comparar projetos de governo?

As duas coisas são necessárias. Mas 40 minutos são 40 minutos. E a forma de utilizá-los revela também quais problemas do país a emissora considera prioritários.

A pauta econômica da Globo

Isso ficou evidente na importância atribuída ao ajuste fiscal e às contas públicas.

São questões relevantes. Nenhum governo pode ignorar a sustentabilidade fiscal. Mas a centralidade dessa pauta revela uma hierarquia de prioridades muito presente no mercado financeiro e na Faria Lima — e também na cobertura econômica da própria Globo.

Essa hierarquia não é necessariamente a mesma da população.

Emprego, renda, preço dos alimentos, saúde, educação, moradia, segurança pública e jornada de trabalho têm impacto mais imediato na vida de milhões de brasileiros.

Há ainda uma questão anterior: que país se pretende construir?

Equilíbrio fiscal é instrumento de política econômica, não projeto nacional. Uma eleição presidencial deveria permitir discutir também crescimento, industrialização, infraestrutura, inovação, capacidade de investimento do Estado e inserção do Brasil na economia mundial.

Quando o ajuste fiscal ocupa posição privilegiada, corre-se o risco de inverter a discussão: em vez de perguntar quais políticas o país necessita e como financiá-las de maneira sustentável, os projetos passam a ser avaliados prioritariamente pelo impacto sobre as contas públicas.

É uma perspectiva legítima. Mas não é a única — nem necessariamente a mais importante para a população e para o desenvolvimento nacional.

Lula respondeu pelo filho — e outros assuntos desapareceram

Uma parcela significativa da entrevista de Lula foi consumida por acusações e investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva e pessoas relacionadas a ele.

São questões jornalisticamente legítimas. Mas as acusações ainda precisam ser comprovadas e Lula não é o investigado.

O presidente estava diante de uma armadilha política. Se defendesse enfaticamente o filho, poderia ser acusado de protegê-lo. Para demonstrar o contrário, insistiu que não interferiria na Polícia Federal e afirmou que Fábio Luís teria de “provar a inocência”.

Aí a armadilha ficou ainda mais explícita.

Pelo princípio constitucional da presunção de inocência, não cabe a Fábio Luís provar que é inocente, mas a quem acusa demonstrar sua culpa. Na tentativa de deixar claro que não protegeria o filho, Lula acabou aceitando uma inversão do ônus da prova que favorecia a própria lógica das acusações.

Poderia ter respondido simplesmente que as investigações devem prosseguir sem interferência; se houver provas, Fábio Luís deverá responder; enquanto não houver comprovação, não lhe cabe provar a própria inocência.

Quando Lula conseguiu se desvencilhar do assunto, uma parcela importante da entrevista havia sido consumida.

E então aparecem as perguntas que não foram feitas.

O fim da escala 6×1, o endividamento da população, os juros e as bets ficaram fora. Mais surpreendente foi a ausência do tarifaço de Donald Trump e da soberania nacional.

O Brasil enfrentava medidas tarifárias do governo estadunidense, com consequências econômicas e diplomáticas. Era também um tema que expunha uma diferença importante entre os dois candidatos que lideram a eleição.

Integrantes da família Bolsonaro apoiaram as pressões do governo Trump contra o Brasil. Na entrevista de Flávio, o tarifaço apareceu e ele procurou se afastar da posição anteriormente assumida por seu irmão Eduardo.

Por que não perguntar a Lula como pretendia enfrentar as tarifas, conduzir as relações com os Estados Unidos e defender a soberania brasileira?

Perdeu-se uma oportunidade de permitir ao eleitor comparar duas concepções muito diferentes sobre a posição do Brasil no mundo.

Quando a isonomia produz uma falsa equivalência

Flávio Bolsonaro também enfrentou perguntas duras.

Foi questionado sobre Daniel Vorcaro e os cerca de R$ 61 milhões destinados ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.

Flávio afirmou que as informações sobre a utilização dos recursos estavam públicas. Mas não foi apresentada publicamente uma prestação de contas capaz de esclarecer satisfatoriamente sua destinação, e a perícia privada mencionada pelo candidato não apresentou documentação suficiente para comprovar integralmente os valores.

Também foi questionado sobre as rachadinhas e Fabrício Queiroz e confrontado com sua relação com Adriano da Nóbrega.

Flávio afirmou que não havia nada contra Adriano quando o homenageou. Mas ele já estava preso acusado de homicídio quando recebeu a Medalha Tiradentes por iniciativa do então deputado estadual.

Houve, portanto, cobrança.

O problema aparece quando se observa a natureza dos fatos submetidos ao escrutínio.

Lula passou grande parte da entrevista respondendo sobre acusações ainda não comprovadas contra seu filho. Flávio respondeu sobre fatos e relações de sua própria trajetória política, alguns documentalmente estabelecidos.

As situações não eram equivalentes.

E ficaram perguntas na mesa. Não houve questionamento sobre o levantamento jornalístico que identificou 107 imóveis negociados por Jair Bolsonaro e familiares, dos quais pelo menos 51 teriam sido adquiridos total ou parcialmente com dinheiro em espécie.

Também ficou fora a mansão adquirida por Flávio no Lago Sul, em Brasília, por cerca de R$ 6 milhões, operação que provocou questionamentos sobre sua capacidade financeira na época e as condições do financiamento.

Esses fatos não constituem, por si mesmos, prova de crime. Mas são questões jornalisticamente relevantes, sobretudo para uma família cuja ascensão política esteve fortemente associada ao discurso de combate à corrupção.

O golpe exigia respostas mais claras

O momento politicamente mais grave da entrevista de Flávio ocorreu quando o assunto chegou à tentativa de golpe de Estado.

O candidato negou que tenha ocorrido uma tentativa de golpe e atribuiu o processo contra Jair Bolsonaro a uma armação de ministros do Supremo.

Não se trata, porém, apenas de interpretações políticas concorrentes.

Existem documentos, investigações e depoimentos dos então comandantes das Forças Armadas sobre discussões de medidas destinadas a impedir a posse do governo eleito em 2022. Existe também o plano que previa os assassinatos de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes.

Flávio argumentou que não havia sido encontrada arma entre os participantes do 8 de janeiro. Mas a acusação de organização criminosa armada não se restringe à invasão das sedes dos Poderes. O chamado plano Punhal Verde e Amarelo previa o emprego de armas para matar autoridades.

Era necessário confrontá-lo mais profundamente com esse conjunto de fatos.

O mesmo vale para sua afirmação de que nunca questionou o processo eleitoral, contrariada por declarações públicas anteriores sobre as urnas eletrônicas.

Bons entrevistadores, escolhas discutíveis

Renata Vasconcellos e César Tralli fizeram, no conjunto, entrevistas profissionais e frequentemente rigorosas. Interromperam evasivas, apresentaram contrapontos e impediram que os candidatos transformassem os 40 minutos em propaganda eleitoral.

O principal problema talvez não esteja nos entrevistadores, mas na arquitetura editorial da série.

A Globo decidiu quem receberia 40 minutos e que todos teriam o mesmo tempo. Escolheu quais acusações seriam aprofundadas, quais temas econômicos seriam recorrentes e quais assuntos ficariam de fora.

Tudo isso é jornalismo. Mas tudo isso também é escolha.

Tratar igualmente candidatos com pesos eleitorais muito diferentes não produz necessariamente maior pluralidade. Dedicar espaço semelhante a acusações com graus de comprovação distintos não produz automaticamente equilíbrio. E colocar o ajuste fiscal no centro da avaliação dos programas não significa que essa seja a prioridade da população ou a questão fundamental para o desenvolvimento brasileiro.

No caso de Lula, o contraste foi particularmente significativo: enquanto uma parcela importante da entrevista foi consumida por acusações envolvendo seu filho, temas como o fim da escala 6×1, o tarifaço de Trump e a soberania nacional desapareceram.

Por isso, talvez a principal pergunta deixada pelas entrevistas não seja quem se saiu melhor.

É outra:

depois de seis candidatos e cerca de quatro horas de televisão, o eleitor conhece melhor as diferenças entre os projetos de país que estarão em disputa nas urnas?

Se essa é uma das finalidades do jornalismo eleitoral, não basta fazer perguntas duras.

É preciso decidir quem entrevistar, o que perguntar, quais prioridades colocar no centro, o que não deixar de perguntar e quanto espaço dedicar àquilo que o eleitor realmente terá de escolher.


Ilustração da capa: Lula na Entrevista com o Candidato na Rede Globo – Crédito: Print de tela da Globoplay.

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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