Por Solon Saldanha *
Um levantamento detalhado sobre a produtividade na Câmara dos Deputados entre 2025 e o início de 2026 revela um contraste ético e político: os parlamentares que lideram o ranking de ausências não justificadas são, em sua maioria, os mesmos que se opõem à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa extinguir a jornada de trabalho 6×1 para os trabalhadores brasileiros. Ao somar faltas e recessos, alguns congressistas superam os 200 dias de inatividade legislativa por ano.
A Matemática da Inatividade
A rotina de um congressista é pautada por um calendário consideravelmente mais flexível que o do trabalhador comum. Para calcular o tempo real de não comparecimento às sessões e aos postos de trabalho, é necessário consolidar quatro variáveis: os 54 dias de recesso constitucional, os 104 dias correspondentes aos finais de semana, a média de 12 feriados nacionais e, por fim, as faltas não justificadas em dias de sessão deliberativa.
Sem contar as faltas, um deputado já possui, por natureza do cargo, cerca de 170 dias por ano sem obrigatoriedade de presença em Brasília. No entanto, para o grupo que lidera o ranking de absenteísmo, esse número ultrapassa a barreira dos 200 dias anuais.
Líderes de Ausências e o Contraste com o Mercado de Trabalho
No topo do ranking, o deputado Júnior Lourenço (PL-MA), com suas 48 faltas não justificadas, acumulou um total de 218 dias de inatividade legislativa oficial no último ano. Na prática, o parlamentar trabalhou menos de 150 dias no período, enquanto se mantém como voz contrária à flexibilização da jornada para quem trabalha seis dias por semana.
O cenário se repete com Acácio Favacho (MDB-AP) e José Priante (MDB-PA), que somam, respectivamente, 216 e 212 dias longe das atividades de plenário. Para o trabalhador brasileiro médio sob o regime 6×1, que usufrui de apenas 30 dias de férias e cerca de 52 folgas semanais, o volume de tempo livre desses parlamentares equivale a quase três vezes a sua realidade anual.
Impacto Político: A Resistência à PEC 8/2025
A ironia dos dados reflete-se no plenário. A PEC que visa o fim da escala 6×1 sofre forte oposição justamente nos blocos partidários onde a assiduidade é menor. Fazendo um corte que considera apenas os oito parlamentares com mais dias de afastamento, TODOS rejeitam a proposta alegando riscos à economia e à produtividade nacional. Se a amostragem fosse maior, teríamos a continuidade deste fato, com os demais seguindo quase todos com os mesmos argumentos e votos.
Confira o tempo total de não comparecimento (soma de faltas, recessos, finais de semana e feriados) e o posicionamento de cada um dos “oito campeões”. Temos seu nome, o partido, seu Estado e o número de dias sem atividades oficiais, nesta ordem.
- Júnior Lourenço (PL-MA): 218 dias
- Acácio Favacho (MDB-AP): 216 dias
- José Priante (MDB-PA): 212 dias
- Josimar Maranhãozinho (PL-MA): 209 dias
- Vicentinho Júnior (PP-TO): 208 dias
- Silas Câmara (Republicanos-AM): 206 dias
- Magda Mofatto (PRD-GO): 204 dias
- Maurício Neves (PP-SP): 202 dias
Os números expõem um abismo de representatividade. Enquanto o Congresso Nacional discute se o trabalhador brasileiro “pode se dar ao luxo” de folgar dois ou três dias por semana, uma parcela significativa de seus integrantes já opera, na prática, em uma escala onde os dias de ausência superam, com facilidade, os dias de trabalho efetivo. Alarmante é que o não comparecimento raramente resulta em consequências políticas para os parlamentares mais faltosos.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Deputado Júnior Lourenço (PL-MA). Crédito: Câmara dos Deputados




