Um dia a economia brasileira decidiu instalar uma roda-gigante.
Não foi decisão coletiva. Surgiu de estudos, seminários e projeções cuidadosamente modeladas. A ideia parecia elegante: permitir que os componentes da demanda agregada comprassem seu ingresso e participassem do passeio.
Consumo, investimento, gasto do governo e exportações alinharam-se na bilheteria.
Cada um recebeu sua cabine.
O consumo entrou primeiro, como costuma acontecer em economias que aprenderam a sobreviver empurrando o presente um pouco mais adiante. Sentou-se confortavelmente e começou a subir.
O investimento chegou com alguma hesitação. Trazia projetos, máquinas e horizontes de longo prazo. Ao olhar para a engrenagem percebeu que alguns dentes estavam gastos. Ainda assim, entrou na cabine e aguardou o giro.
O gasto do governo apareceu carregando infraestrutura, políticas públicas e um manual de instruções sobre multiplicadores. Foi acomodado discretamente numa cabine mais baixa.
As exportações vieram logo depois, trazendo soja, minério e outras mercadorias disciplinadas pelo mercado mundial. Não discutiram o mecanismo. Entraram e aguardaram o movimento.
A roda começou a girar.
Mas não era perfeitamente redonda.
Havia um achatamento na parte superior — exatamente onde o consumo costuma permanecer.
Não era apenas o formato. Havia também uma engrenagem.
O consumo subia, iluminado pelas lâmpadas do crédito e das transferências. Lá de cima acenava para os outros passageiros e anunciava crescimento. As estatísticas confirmavam movimento.
No topo, porém, apareciam também as importações.
Sempre pontuais, sempre elegantes, sempre prontas para ocupar o melhor lugar da paisagem. Quando o consumo sobe, elas já estão lá em cima. Afinal, quando o país decide gastar, alguém precisa fornecer os bens que a engrenagem interna deixou de produzir.
Mais abaixo, o investimento tentava subir.
Às vezes ganhava alguma altura. A cabine rangia, a paisagem parecia abrir horizontes. Mas logo voltava para perto da base.
Não é o acaso.
É a engrenagem gasta que apressa a descida do investimento.
O gasto do governo também rodava baixo. De tempos em tempos alguém na cabine de controle apertava um botão chamado “ajuste”. A roda não parava, mas o espaço para subir ficava menor.
As exportações oscilavam conforme o vento externo. Em alguns momentos ganhavam altitude, puxadas pelo preço das commodities. Em outros, desciam silenciosamente, sem que a estrutura do parque se alterasse.
E o consumo?
O consumo permanecia no alto.
Não porque a roda estivesse perfeitamente calibrada, mas porque alguém precisava continuar acenando para a plateia. De cima, o movimento parecia progresso.
Alguns visitantes do parque preferiam observar a roda de outra forma.
Não olhavam para os passageiros da demanda, mas para a renda que cada cabine carregava.
Vista assim, a paisagem mudava.
Em cada cabine viajavam salários, lucros e juros.
No topo, quase sempre, chegam primeiro lucros e juros.
Perto da cerca, um menino de óculos aperta os olhos e puxa a manga do pai.
— Pai… olha ali.
Ele aponta para a parte mais baixa da roda.
— A indústria ficou lá embaixo.
Sentada ao lado do investimento e dos salários.
— Parece que a cabine deles foi construída para não subir.
O pai observa em silêncio.
Lá embaixo, os mecânicos observam a engrenagem com cautela.
A roda girava.
Mas girava com aquele rangido abafado das máquinas que avançam apenas por rotina.
Os passageiros aprenderam a conviver com o barulho.
Alguns até acreditam que isso seja o próprio som do crescimento.
No parque da macroeconomia brasileira, a roda-gigante continua aberta ao público.
Os ingressos são vendidos todos os dias.
O problema não é o passeio.
É a roda que construímos.
Foto de capa: IA





