O pensamento crítico pode ser único?

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Por ADALMIR ANTONIO MARQUETTI*, ALESSANDRO MIEBACH* e HENRIQUE MORRONE*

O artigo do Prof. Fernando Nogueira da Costa, intitulado “Pós-keynesianos e Escola de Campinas versus mainstream ou Faria Lima”, é didático em diversos aspectos. Talvez, no esforço de organizar o debate de forma pedagógica, acabe por sugerir que o pensamento crítico brasileiro teria um endereço quase exclusivo: o Instituto de Economia da Unicamp. Em contrapartida, o mainstream apareceria simbolicamente sediado na Faria Lima. Pouco mais de cem quilômetros separariam, assim, os dois polos opostos do pensamento econômico nacional.

A metáfora geográfica é sugestiva, como se o Brasil coubesse nesses cem quilômetros e o debate econômico fosse uma discussão entre vizinhos, e o papel do resto do país se resumisse a assistir esse embate intelectual. Essa formulação, entretanto, reduz a complexidade do debate econômico nacional e reforça uma leitura autocentrada do pensamento crítico brasileiro, leitura que, ainda que não intencional, acaba por invisibilizar outras tradições e instituições igualmente dedicadas à crítica econômica no país.

O artigo opera uma segunda redução: a de que haveria dois tipos de pós-keynesianos, o anglo-saxão e o da chamada “Escola de Campinas”. No afã de sistematizar o contraste, o texto não explora as diferenças internas ao próprio pós-keynesianismo, tradição marcada por debates relevantes sobre método, teoria monetária, política econômica e desenvolvimento no exterior e no Brasil. Essa questão foi abordada pelo Prof. José Luis Oreiro em seu artigo “A Ciência como Antídoto ao Mito: Uma Réplica à Narrativa Binária sobre a Escola de Campinas e o Pós-Keynesianismo Brasileiro”, que problematiza justamente a construção dessa dicotomia e demonstra que o pós-keynesianismo brasileiro, praticado na UFRJ, UnB, UFRGS, CEDEPLAR, FGV-São Paulo, entre outras, sempre incorporou temas como restrição externa, hierarquia de moedas e desenvolvimento periférico.

Ocorre que a réplica do Prof. Oreiro, embora correta em relação à exclusão do pós-keynesianismo não campineiro, também não menciona o marxismo. Ao sugerir que a heterodoxia produtiva e rigorosa no Brasil se concentra na Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento (MED) e no pós-keynesianismo, não há citação da produção marxista brasileira contemporânea, publicada em periódicos indexados, com modelagem formal, séries históricas extensas e diálogo internacional. Autores em instituições como PUCRS, UFRGS, UFBA, CEDEPLAR, UFF, entre outras, produzem ciência econômica na tradição marxista de alto impacto, inserida nos debates internacionais sobre taxa de lucro, progresso técnico, conflitos distributivos e crise estrutural. O artigo “Uma interpretação da economia brasileira a partir da taxa de lucro: 1950-2020”1, que publicamos na Revista de Economia Política em 2023, é um exemplo dessa produção: modelagem formal, séries históricas longas, diálogo com a literatura marxista internacional. Inclusive cita o Prof. Oreiro, o qual, aliás, fez um comentário ao artigo em seu blog.

Chegamos, assim, ao terceiro problema, comum aos dois textos e a uma parcela relevante da tradição pós-keynesiana: a priorização do diálogo com o mainstream neoclássico em detrimento da interlocução com a tradição marxista e outras correntes heterodoxas. O Prof. Nogueira da Costa keynesianiza retroativamente o Departamento de Economia da Unicamp, como se João Manuel Cardoso de Mello, Maria da Conceição Tavares e Belluzzo, todos influenciados por Marx e pela teoria da dependência, fossem “pós-keynesianos com historicidade”. Essa operação apaga as raízes marxistas de uma geração que pensou o Brasil a partir das categorias de capital, exploração e crise.

O resultado é um debate entre duas variedades de keynesianismo que disputam a hegemonia da crítica econômica no Brasil como se o marxismo não existisse. Os dados demonstram o contrário: a teoria marxista tem sido aplicada para entender as razões do reduzido crescimento brasileiro; a teoria marxista da dependência segue sendo aplicada a fenômenos contemporâneos (plataformização, financeirização, crise ecológica); a economia política marxista produz anuários estatísticos sobre exploração do trabalho e crítica às categorias macroeconômicas dominantes; os congressos da área reúnem centenas de pesquisadores de universidades de todo o país, incluindo a própria Unicamp.

Há, porém, uma diferença mais profunda que nenhum dos dois textos enfrenta: ambos, cada um a seu modo, concebem o desenvolvimento capitalista como horizonte intransponível. Discutem se o Estado deve ser estabilizador ou coordenador; se a política industrial deve ser horizontal ou vertical; se o câmbio está sobrevalorizado ou não. O que não discutem é: desenvolvimento para quem? Industrialização sob quais relações de propriedade? Crescimento com qual distribuição de poder entre as classes? Enquanto o pós-keynesianismo pergunta como estabilizar ou desenvolver o capitalismo, buscando, com isso, a conciliação entre as classes sociais, o marxismo pergunta como ele se transforma e como pode ser superado, partindo do pressuposto de que a luta de classes é sua característica estrutural.

O termo neoliberalismo, fase do capitalismo em que o Brasil se desindustrializa, é tratado como conjunto de políticas equivocadas, não como ofensiva de classe destinada a restaurar a lucratividade do capital. A taxa de lucro, categoria central para Marx e para os marxistas contemporâneos que estudam o Brasil, simplesmente não está presente nos dois artigos. Não se pergunta se a queda do investimento decorre de uma crise estrutural de rentabilidade. Não se investiga se a desindustrialização é fruto de política econômica equivocada ou expressão da lei tendencial da queda da taxa de lucro em economia periférica.

O pensamento crítico brasileiro é mais plural e multifacetado do que a cartografia proposta por Nogueira da Costa e do que a própria contraposição proposta por Oreiro. Há keynesianos, há desenvolvimentistas, há estruturalistas, há institucionalistas, há marxistas e essas tradições não são mutuamente excludentes, mas também não são redutíveis umas às outras. O que as distingue, mais do que o método, é o projeto político: estabilizar, desenvolver ou superar o capitalismo.

Enquanto o debate econômico brasileiro for enquadrado como “mainstream versus keynesianos”, Marx, e com ele grande parcela do pensamento crítico, continuará ausente. E uma ausência dessa magnitude dificilmente pode ser tratada como mero esquecimento. Ela revela, antes, uma delimitação implícita e uma escolha deliberada sobre o que pode ser perguntado. A Faria Lima não teme o pensamento keynesiano nos seus diferentes formatos. Ela teme a pergunta sobre quem é o dono do quê. Enquanto essa pergunta não for feita, o debate permanecerá incompleto.


MARQUETTI, A.; MALDONADO FILHO, E.; MIEBACH, A.; MORRONE, H. Uma interpretação da economia brasileira a partir da taxa de lucro: 1950-2020. Revista de Economia Política, v. 43, n. 2, p. 309-334, 2023.


*Adalmir Antonio Marquetti é Professor na PUCRS.

*Alessandro Miebach é Professor na UFRGS.

*Henrique Morrone é Professorna UFRGS.

Foto de capa:IA

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