O Mundo e seus Desafios em 2026

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Por CELSO JAPIASSU*

A mudança do calendário com a chegada de um novo ano traz sempre um misto de dessossego e esperança. Embora as tendências já estejam traçadas, há uma forte presença da incerteza. Para o ano de 2026 não será diferente. O cenário é o de um mundo impreciso, fragmentado, onde as guerras ocupam o seu largo espaço de motor de miséria, desespero e dor.

Os conflitos armados vão prosseguir. São mais de 60 espalhados pelo mundo a contabilizar cada um a média de mais de 1.000 mortos por ano. Continuarão os embates de alta intensidade. A guerra na Ucrânia, a guerra em Gaza/Israel–Palestina, a guerra civil no Sudão, na República Democrática do Congo, Somália, Etiópia e as insurgências jihadistas no Sahel, entre os principais. Vários já acumularam dezenas ou centenas de milhares de mortos ao longo dos anos. E assim vão continuar no novo ano contando o tempo em sua rota sinistra.

Em 2026 deverá se consolidar a Inteligência Artificial e a sua aplicação em todos os setores, dos intelectuais aos de produção, serviços e científicos. É a revolução dentro da revolução que a tecnologia representa, um impacto só comparável ao surgimento da imprensa com a invenção de tipos móveis por Johannes Gutenberg no século 13. Alguns chegam a dizer que a IA veio representar um impacto maior do que a imprensa significou para a Humanidade.

O clima

Em 2026, o quadro da crise ambiental vai se agravar com temperaturas em patamares recorde, impactos mais frequentes dos fenômenos extremos e com poucas respostas políticas.

Previsões globais falam da alta probabilidade de que a média de aquecimento de 2025–2029 ultrapasse 1,5 ºC em relação ao período pré–industrial, acima de recordes recentes. É um nível de aquecimento que vai trazer ondas de calor mais intensas, chuvas extremas, secas prolongadas, degelo acelerado e subida do nível do mar.

Emissions Gap Report 2025 mostra que, mesmo com as promessas atuais, o mundo caminha para cerca de 2,3–2,5 ºC de aquecimento até 2100, muito acima da meta de 1,5 ºC. Para manter limites considerados seguros, seria necessário reduzir as emissões globais em 35–55% até 2035, algo incompatível com o ritmo efetivo de políticas e cortes hoje praticado, o que significa que 2026 continuará num trajeto de emissões excessivas aumentando o risco de inviabilizar a vida no planeta.

Climate Risk Index 2026 documenta quase 10 mil eventos extremos entre 1995 e 2024, com mais de 830 mil mortes e perdas diretas superiores a 4,5 bilhões de dólares. Em 2026, a tendência é como sempre de impactos concentrados em países pobres e comunidades vulneráveis, com maior risco para segurança alimentar, água, saúde e infraestruturas.

A pobreza

Com a renda média de 3 dólares/dia, as projeções indicam que centenas de milhões de pessoas continuarão em pobreza extrema em 2026, acima dos 800 milhões previstos em cenários menos otimistas.

A África Subsaariana permanecerá o epicentro da pobreza extrema, com taxas acima de 40% em várias sub–regiões, mesmo com algum crescimento económico. O Sul da Ásia continua a reduzir a pobreza rapidamente, puxado sobretudo pela Índia, enquanto o Médio Oriente e o Norte da África apresentam tendência de agravamento ou estagnação devido aos conflitos e aos choques económicos.

As projeções são unânimes em indicar que, ao ritmo atual, o mundo chegará a 2030 com cerca de 9% da população em pobreza extrema, muito longe da meta de erradicação total dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Relatórios recentes sublinham que desigualdade, conflitos, crise climática e crescimento económico fraco em muitos países de baixo rendimento travam a redução da pobreza.

Algumas bases de dados (Banco Mundial, Our World in Data, ONU) diferem na combinação de linha de pobreza (2,15 ou 3 dólares/dia), revisões estatísticas e cenários de crescimento. Mesmo nos cenários relativamente otimistas, o número de pessoas em pobreza extrema em 2026 continuará claramente acima dos 700 milhões, mostrando que a meta de erradicação até 2030 está fora de alcance.

Quanto aos dados econômicos, no cenário global o crescimento deve ser moderado, em torno de 2,7% a 3% para o PIB mundial, com os EUA liderando (cerca de 2-2,5%), inflação controlada e cortes de juros pelo Fed.

A direita

Análises de centros de pesquisa apontam que a extrema direita continuará a ganhar espaço em várias regiões (Europa, América Latina, África e Ásia), tanto em votos como em influência no discurso político, através de agendas anti-imigração, anti-“woke” e segurança pública. Ao mesmo tempo, uma parte relevante das elites económicas e da direita liberal tem mostrado disposição para pactuar com a extrema direita em coligações ou agendas específicas, em vez de os isolar.

Na Europa, estudos sobre os partidos de extrema direita falam de um processo de “integração rasteira”: deixam de ser apenas outsiders e passam a entrar em governos ou a condicionar coligações, mesmo quando ficam em segundo ou terceiro lugar nas eleições.

Um levantamento de eleições até 2027 indica que, embora 2027 seja o ano mais explosivo (com presidenciais na França e possíveis mudanças em grandes países da UE), 2026 funcionará como etapa intermediária de consolidação. Em vários países, a extrema direita vai aproveitar o calendário eleitoral para reforçar bancadas parlamentares e posições regionais, preparando-se para disputas decisivas em 2027–2028.

A estagnação, inflação persistente ou crises setoriais serão o alimento do voto de protesto e o do apelo da extrema direita. Onde houver crescimento mais robusto e políticas redistributivas visíveis pode haver redução da margem explorada pela extrema direita, mas dificilmente a eliminam a curto prazo.

Onde houver cordões sanitários consistentes, reformas de aprimoramento da democracia e respostas eficazes à desinformação e às fake news poderá se conter a capacidade da extrema direita de cooptar o centro político. Quando partidos tradicionais copiam o discurso radical em vez de o confrontar, o efeito mais frequente é legitimar ainda mais a extrema direita.

Astrologia

Em sua linguagem ambígua, as previsões astrológicas dizem que 2026 vai ser um ano de renovação, desapego e transformação. As influências principais são de Saturno e Netuno em Áries, Júpiter em Câncer e Leão e Marte como regente a significar energia para coragem e reinícios.

A Numerologia destaca o Ano Universal 1, um ciclo de novos começos e oportunidades. Previsões de Nostradamus interpretadas falam de conflitos, desastres naturais e mudanças geopolíticas.


*Celso Japiassu é autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

Foto de capa: Neofeed.com

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