O mundo de 2026 chegou. O problema é que continuamos pensando como se estivéssemos no século XX: curso de extensão | Por Fabio Dal Molin

Curso propõe uma leitura interdisciplinar das eleições de 2026 diante dos desafios da democracia, da tecnologia e das transformações globais.
Publicado em 17 de julho de 2026 às 18:00
Editado em 16 de julho de 2026 às 14:56

Existe uma dificuldade peculiar em interpretar o tempo presente. Os acontecimentos sucedem-se numa velocidade inédita, enquanto as categorias utilizadas para compreendê-los parecem envelhecer antes mesmo de serem consolidadas. Nunca produzimos tanta informação e, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil construir uma interpretação coerente da realidade.

Talvez isso ocorra porque continuamos fazendo perguntas próprias do século XX para responder a problemas que pertencem integralmente ao século XXI.

Essa defasagem entre problemas novos e interpretações antigas produz uma espécie de curto-circuito intelectual. Falamos em progresso, desenvolvimento, representação política e soberania nacional como se esses conceitos conservassem o mesmo significado que tinham em sociedades organizadas em torno da fábrica, do jornal impresso, da televisão aberta e dos partidos de massa. Contudo, a vida social passou a ser atravessada por infraestruturas digitais invisíveis, por cadeias globais de produção, por disputas geopolíticas tecnológicas e por riscos ambientais que não respeitam fronteiras.

O resultado é uma sensação permanente de instabilidade. As instituições continuam funcionando, mas parecem responder com atraso. As notícias se multiplicam, mas nem sempre produzem compreensão. As eleições continuam sendo momentos decisivos da democracia, mas já não podem ser analisadas apenas como disputas eleitorais tradicionais. Elas condensam conflitos mais profundos sobre conhecimento, verdade, tecnologia, trabalho, natureza e futuro.

Discutimos eleições como se elas fossem apenas disputas entre partidos políticos. Entretanto, enquanto insistimos nessas categorias, o próprio objeto de análise transformou-se profundamente. Empresas privadas controlam fluxos globais de informação, algoritmos condicionam o debate público, sistemas de inteligência artificial reorganizam o trabalho e o conhecimento, enquanto eventos climáticos extremos alteram economias e sociedades.

Nada disso constitui uma sucessão de acontecimentos isolados. Trata-se de manifestações distintas de um mesmo processo histórico: a reorganização das formas de poder no capitalismo contemporâneo.

Por isso, pensar o mundo de 2026 exige abandonar explicações simplificadoras. Não basta perguntar apenas quem vencerá uma eleição, qual partido crescerá ou que liderança ocupará determinado cargo. É preciso perguntar que forças sociais, econômicas e tecnológicas estão reorganizando as condições de possibilidade da própria política. A pergunta decisiva deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser civilizatória: que tipo de sociedade está sendo construído sob nossos olhos?

Democracia, tecnologia e a reorganização do poder

Se o século XX foi marcado pela indústria e pelos meios de comunicação de massa, o século XXI deslocou o centro do poder para a informação. Dados, algoritmos e plataformas digitais passaram a exercer influência direta sobre a economia, a cultura e a política.

A tecnologia amplia possibilidades emancipatórias, mas também mecanismos de vigilância e controle. A inteligência artificial, por exemplo, democratiza o acesso ao conhecimento ao mesmo tempo que pode concentrar poder econômico e político. Liberdade, cidadania, esfera pública e soberania precisam ser reinterpretadas diante desse novo contexto.

No Brasil, essas mudanças aparecem na polarização, na desinformação e na crescente dependência das plataformas digitais. Discutir eleições significa discutir também quem regulará essas tecnologias e como proteger a democracia.

A democracia sempre dependeu de algum tipo de mediação pública. No passado, jornais, rádios, sindicatos, escolas, universidades, igrejas, movimentos sociais e partidos políticos ajudavam a organizar a circulação de ideias. Hoje, essa mediação é crescentemente atravessada por plataformas digitais cujo funcionamento é opaco para a maior parte da população. O que aparece na tela não é simplesmente o reflexo neutro da realidade: é o resultado de decisões técnicas, interesses econômicos e modelos de negócio baseados na captura da atenção.

Nesse cenário, a inteligência artificial ocupa um lugar central. Ela não é apenas uma ferramenta produtiva, mas uma tecnologia de organização do mundo social. Sistemas automatizados selecionam conteúdos, classificam pessoas, orientam decisões administrativas, produzem textos, imagens e diagnósticos, além de redefinir profissões inteiras. A questão, portanto, não é simplesmente ser contra ou a favor da tecnologia, mas decidir democraticamente quais usos serão estimulados, quais limites serão impostos e quem se beneficiará de seus ganhos.

Quando a esfera pública passa a ser mediada por empresas transnacionais, a soberania também se transforma. A capacidade de um Estado proteger direitos, regular mercados, garantir privacidade e combater a desinformação depende de compreender a infraestrutura técnica que sustenta a vida cotidiana. Assim, discutir democracia em 2026 significa discutir também regulação de plataformas, transparência algorítmica, proteção de dados, educação digital e responsabilidade pública diante de novas formas de poder privado.

O Brasil nas disputas do século XXI

O Brasil ocupa posição estratégica no cenário internacional. Biodiversidade, recursos naturais, capacidade agrícola e importância regional fazem do país um ator relevante em um contexto de competição entre Estados Unidos e China, transformações tecnológicas e crise climática.

As eleições de 2026 dialogam diretamente com essas mudanças. Não se trata apenas da escolha de governantes, mas da definição de prioridades para ciência, educação, inovação, política ambiental, inserção internacional e defesa das instituições democráticas.

Compreender o comportamento político exige articular economia, cultura, psicologia social, geopolítica e comunicação. Os desafios contemporâneos não podem ser explicados por uma única disciplina.

Essa posição estratégica, contudo, não garante automaticamente autonomia. O país pode ser apenas fornecedor de commodities e dados, ou pode construir um projeto próprio de desenvolvimento científico, tecnológico, social e ambiental. A diferença entre essas possibilidades depende de escolhas políticas. Investir em educação pública, pesquisa, inovação, infraestrutura, cultura democrática e transição ecológica não é um detalhe administrativo: é parte da disputa pelo lugar do Brasil no século XXI.

A crise climática torna essa discussão ainda mais urgente. O Brasil abriga biomas fundamentais para o equilíbrio ambiental do planeta e, ao mesmo tempo, enfrenta desigualdades históricas, conflitos fundiários, pressões econômicas e vulnerabilidades sociais. Eventos extremos, como enchentes, secas prolongadas e ondas de calor, deixam de ser exceções e passam a reorganizar políticas públicas, orçamentos, cadeias produtivas e formas de vida. A questão ambiental, portanto, não pode ser tratada como tema separado da economia ou da democracia.

Também por isso, as eleições de 2026 terão um significado que ultrapassa o calendário institucional. Elas expressarão diferentes respostas possíveis a um conjunto de crises simultâneas: crise de representação, crise informacional, crise ambiental, crise do trabalho e crise da própria ideia de futuro. A política brasileira será pressionada a responder se deseja apenas administrar emergências ou formular um horizonte coletivo capaz de articular justiça social, inovação tecnológica e sustentabilidade.

Compreender para transformar

A principal questão colocada pelas eleições de 2026 não é apenas quem ocupará os cargos públicos, mas qual projeto de sociedade será fortalecido. Em tempos de excesso de informação, compreender tornou-se um ato político.

Foi dessa preocupação que nasceu o curso de extensão ‘O Brasil no Mundo de 2026: o que decidem as eleições?’. O objetivo é oferecer um espaço interdisciplinar para discutir democracia, geopolítica, capitalismo digital, inteligência artificial, emergência climática e os desafios do Estado democrático.

Mais do que acompanhar a conjuntura, o curso pretende construir ferramentas para interpretar criticamente o presente e disputar democraticamente o futuro.

Compreender, nesse sentido, não é um exercício neutro nem distante. É uma prática de cidadania. Quem compreende melhor as transformações do presente está mais preparado para participar do debate público, reconhecer manipulações, avaliar propostas, exigir responsabilidades e imaginar alternativas. A democracia não sobrevive apenas por meio de procedimentos formais; ela exige uma cultura política capaz de sustentar o conflito público sem destruir a possibilidade de convivência.

O desafio, portanto, é formar uma leitura do presente que não se limite ao comentário imediato da conjuntura. É necessário conectar acontecimentos aparentemente dispersos, identificar tendências de longo prazo e compreender como decisões tomadas agora podem produzir efeitos duradouros. A política do século XXI será disputada tanto nas urnas quanto nos códigos, nas redes, nas escolas, nas universidades, nos territórios e nas formas de organização da vida cotidiana.

Se continuarmos pensando com categorias insuficientes, corremos o risco de interpretar o futuro apenas quando ele já tiver sido decidido por outros. Mas, se formos capazes de renovar nossas perguntas, ampliar nossas referências e construir espaços coletivos de reflexão, poderemos transformar a incerteza em oportunidade democrática. O mundo de 2026 chegou; cabe a nós decidir se o enfrentaremos com instrumentos ultrapassados ou com a coragem intelectual necessária para compreender e transformar o nosso tempo.

Informações do curso

  • Curso: O Brasil no Mundo de 2026: o que decidem as eleições?
  • Período: 7 de agosto a 3 de dezembro de 2026.
  • Modalidade: On-line.
  • Transmissão: Canal LexparteLab no YouTube.
  • Inscrições: [email protected].
  • Aula inaugural 07 de agosto com o professor Marildo Menegat

Marildo Menegat é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinculado ao Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (NEPP-DH). Possui graduação, mestrado e doutorado em Filosofia pela UFRJ, com trajetória acadêmica voltada à Filosofia Social e Política, à Teoria Crítica e à crítica da modernidade.

Sua produção intelectual concentra-se em temas como crítica da economia política, barbárie, crise do capitalismo, militarização do cotidiano, criminologia crítica, crítica da cultura e estudos sobre a violência na sociedade contemporânea. Também realizou estágios de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).

Entre suas obras e textos de destaque estão Depois do fim do mundo: a crise da modernidade e a barbárie, O olho da barbárie, Estudos sobre ruínas e A crítica do capitalismo em tempos de catástrofe. Sua contribuição acadêmica é reconhecida especialmente no debate brasileiro sobre teoria crítica, crise social, violência e formas contemporâneas de barbárie.

Consulte o cartaz oficial para horário, carga horária e certificação.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Fábio Dal Molin
Psicólogo, psicanalista, professor da Universidade Federal do Rio Grande, professor colaborador do PPG em Psicanálise Clínica e Cultura da UFRGS. Texto escrito com a fúria dos injustiçados.

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