Havia algo fora do lugar naquele menino.
As pessoas esboçavam sorrisos amarelados.
Como quem observa uma criança fascinada por algo extinto.
Ele queria fabricar coisas.
“Mas fabricar o quê?”
Ele não sabia.
Só queria produzir algo que pudesse tocar.
Uma bicicleta.
Qualquer coisa que atravessasse o tempo.
O pai se inquietava.
Tentou guiá-lo.
Disse que o futuro não pesava nas mãos.
Bastava circular.
Fabricar coisas parecia ultrapassado.
Quase indecente.
Na escola, perguntaram qual profissão queria seguir.
Os colegas responderam:
consultor,
youtuber,
especialista em posicionamento estratégico.
O menino respondeu:
“Quero fazer coisas.”
O silêncio apagou a sala.
A professora tentou ajudá-lo.
“Mas você quer gerir coisas?”
“Não.”
“Então coordenar?”
“Tampouco.”
“Quero construir.”
As palavras pareciam apartadas do tempo.
Com o tempo, passou a frequentar um galpão na periferia.
Havia máquinas cansadas.
Ferrugem.
Ali aprendeu que o metal possui temperatura, peso e resistência.
Aprendeu também que algumas coisas exigem tempo para existir.
Ao voltar para casa, carregava no bolso pequenos objetos tortos que havia produzido.
Nada sofisticado.
Mas palpáveis.
A cidade, entretanto, multiplicava assepticidade.
Tudo circulava.
Quase nada permanecia.
À noite, observava as próprias mãos.
Pela primeira vez, algo nelas parecia não perecer.
Foto de capa: Reprodução





