O menino que queria fabricar coisas | Por Henrique Morrone

Um menino insiste em descobrir o valor de criar algo com as próprias mãos.
Última edição em junho 8, 2026, 10:22

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Little African american boy building a small house with colorful wooden blocks in living room at home. Educational toys for preschool and kindergarten children.

Havia algo fora do lugar naquele menino.

As pessoas esboçavam sorrisos amarelados.

Como quem observa uma criança fascinada por algo extinto.

Ele queria fabricar coisas.

“Mas fabricar o quê?”

Ele não sabia.

Só queria produzir algo que pudesse tocar.

Uma bicicleta.

Qualquer coisa que atravessasse o tempo.

O pai se inquietava.

Tentou guiá-lo.

Disse que o futuro não pesava nas mãos.

Bastava circular.

Fabricar coisas parecia ultrapassado.

Quase indecente.

Na escola, perguntaram qual profissão queria seguir.

Os colegas responderam:

consultor,

youtuber,

especialista em posicionamento estratégico.

O menino respondeu:

“Quero fazer coisas.”

O silêncio apagou a sala.

A professora tentou ajudá-lo.

“Mas você quer gerir coisas?”

“Não.”

“Então coordenar?”

“Tampouco.”

“Quero construir.”

As palavras pareciam apartadas do tempo.

Com o tempo, passou a frequentar um galpão na periferia.

Havia máquinas cansadas.

Ferrugem.

Ali aprendeu que o metal possui temperatura, peso e resistência.

Aprendeu também que algumas coisas exigem tempo para existir.

Ao voltar para casa, carregava no bolso pequenos objetos tortos que havia produzido.

Nada sofisticado.

Mas palpáveis.

A cidade, entretanto, multiplicava assepticidade.

Tudo circulava.

Quase nada permanecia.

À noite, observava as próprias mãos.

Pela primeira vez, algo nelas parecia não perecer.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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