O mar é só um pouco mais de água

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Gosto muito do livro de Ivan Illich, H20 e as águas do esquecimento (n-1 edições, 2025). A obra foi publicada pela primeira vez em 1985 pelo Dalas Institute of Humanities and Culture, enquanto a edição brasileira é resultado de uma parceria com o selo editorial MOM, da Editora da escola de Arquitetura da UFMG, que busca promover abordagens críticas no campo interdisciplinar da arquitetura, urbanismo, artes e ciências humanas e sociais. Ricamente ilustrada, apresenta a obra de Ivan Illich, pensador austríaco conhecido por suas críticas radicais às instituições modernas como educação, medicina e tecnologia.

Nascido em Viena em 1926 e falecido em Bremen em 2002, ele combinou teologia, filosofia e análise social em obras provocativas. Praticamente desconhecido no Brasil, filho de pai croata e mãe judia-alemã, Illich cresceu na Itália durante a Segunda Guerra Mundial e estudou cristalografia em Florença, filosofia e teologia em Roma, ordenando-se padre católico em 1951. Mudou-se para os EUA, atuando em Nova York com imigrantes porto-riquenhos, e depois para Porto Rico como vice-reitor universitário. Em 1961, instalou-se em Cuernavaca, México, fundando o CIDOC (Centro Intercultural de Documentação), um espaço alternativo para debater educação e cultura latino-americana.

O pensador da água

Suas ideias antiescolares levaram à censura pela Igreja, culminando em sua renúncia ao sacerdócio em 1969.   Escreveu Desescolarizando a Sociedade (1971), sua crítica à obrigatoriedade escolar como ferramenta de controle social; Convivialidade (1973), onde defende “ferramentas conviviais” que promovem a autonomia humana contra a industrialização e No Limiar da Esperança (1992), questionando o progresso moderno. Gosto dele porque sua obra influenciou anarquistas, educadores e críticos da modernidade, sendo fundamental nos debates sobre desinstitucionalização e autonomia frente ao capitalismo.

Em H20, sua principal inspiração é a obra de Gaston Bachelard, A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria (1989). Eu utilizo aqui sua obra como fundamento de forma diversa da que foi inspirada. Na época, havia o plano de criar um lago urbano em Dallas e seu instituto fez um convite para que ele escrevesse sobre o tema. Aqui, apenas o uso como apoio teórico porque ele trabalha com uma definição filosófica e histórica da… água, que o leva a inúmeros temas, da água da torneira, passada pela água da descarga, afirma que esquecemos como nossos antepassados definiam a água. Eu penso aqui na água do mar em relação às suas definições, eu me aproprio delas de forma a pensar como a água… do mar tem o poder de nos comunicar algo ou não.  

No prefácio, Robert Kugelmann afirma que “na conclusão, Illich escreve que ‘a água perdeu o poder de comunicar sua profunda pureza pelo contato, assim como perdeu o poder místico de lavar máculas espirituais’” (p. 13). Olho a imensidão do mar de Cidreira enquanto caminho com minha esposa e minha Collier Lola. Eu entro na água e não percebo a perda de que fala Illich: eu ainda acho que há uma profunda pureza por seu contato; minha esposa, no dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, faz questão de ir até a praia porque também acredita em seu poder de lavar máculas espirituais, e eu, de certa forma, também acredito numa ligação espiritual disso tudo. Se Illich pergunta “com que água podemos sonhar?” Minha resposta é: com a água do mar de Cidreira. A resposta de Ilich é anterior, pois só podemos sonhar com a água que nos chega quando moramos em um lugar.

Procurando por equivalências

Penso se minha visão da água do mar e da água de Illich se equivalem. Eu sei que mesmo as águas dos mares não são iguais: enquanto escrevo, há um conflito no Irã envolvendo o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e que recai diretamente no Mar Arábico. Os países ali em conflito contrastam com a paz do Oceano Atlântico, mar que costeia Cidreira. Illich quer saber como as águas criam espaços de moradias, como no Gênesis e no Êxodo; eu penso nas águas domar de Cidreira, que separam a praia das casas, na linha do horizonte e seu significado para os moradores. Os valores simbólicos que Illich quer associar à água são os de pureza e limpeza, mas os gestos simbólicos que evocam a ideia de renascimento pela água, que a água do mar também contém. Kugelmann afirma que uma novidade do mundo moderno é que a água circula, retornando à origem. Isso é exatamente como o que vejo na praia, já que as águas de seus canais desembarcam no mar.

A escrita de Illich parte da ideia de que tanto os que odeiam o projeto da criação do lago em Dallas, como os que o promovem, “estão convencidos de que a beleza natural de um corpo d’água seria moralmente edificante para a vida cívica”. Eu estou convencido de que a beleza natural do mar é moralmente edificante para a vida dos habitantes de Cidreira e, por isso, muitos outros ainda vêm se dirigindo para cá a cada verão. Mas eu sei que o modelo predador neoliberal já estabelecido em Porto Alegre está buscando as praias: penso em como é possível, da noite para o dia, ser anunciado o Lake Bairro Planejado, com 1.844 lotes em 1 milhão de metros quadrados, o equivalente a 140 campos de futebol.  Alguém pensou nas consequências para o mar e para a Lagoa das Custódias, nos limites do empreendimento? Eu estou convencido que iniciativas assim promovem a destruição do meio natural e por isso são pouco edificantes para a vida pública.  

O mar de nossos sonhos  

Se Illich foi convidado a discutir “a água e os sonhos para fazer a cidade funcionar”, título de sua conferência, penso na água do mar e os sonhos para fazer a praia funcionar. A praia de Cidreira é também é uma cidade, e eu sigo, portanto, a linha de Illich, que segue Bachelard, e que analisa como imaginamos a matéria, como damos contorno e forma ao mar, como ele dá a água. Esse ponto de partida serve para Illich pensar dois tipos de matéria, o espaço urbano e a água urbana; as matérias que eu penso são o espaço praiano e o mar a ele adjacente.

O mar é mais do mais do que a água, pois é delimitado por continentes, enquanto a água pode estar num rio, mas ambos são significativos como símbolo do infinito, a encarnação da ideia de transformação, que envolve, é claro, criação e destruição. O mar de Cidreira tem um sentido profundamente religioso durante as festas de Iemanjá, mostrando sua vocação para regeneração espiritual. O mar nos fala diretamente ao inconsciente. Eu flutuo, como já disse aqui, em harmonia em minha piscina, quem dirá nas ondas do mar.  

O mar na arte e na literatura

Pergunto a IA Perplexity representações na arte do mar: na poesia, ele é o arquétipo de criação e mistério para a mulher, como na poesia de Cecília Meirelles; é transição e dúvida das ondas em poemas de Camilo Peçanha e Sophia de Mello Breyner. Na pintura, é o poder imponente sobre humanos frágeis como na obra A Grande Onda de Kanagawa, deKatsushika Hokusai, ou um objeto sereno que só muda de cor em Nenúfares, de Monet, mas elas estão no lago de seu jardim em Giverny, na França, o que revela que minha pergunta também é difícil para uma IA.

A arte universal retrata o mar de forma poética, e na arte gaúcha, que nos é próxima, o litoral é o espaço de transição entre o pampa e o oceano, faz parte de nossa identidade regional. Cidades como Torres e Tramandaí já foram evocadas por Mário Quintana e Érico Veríssimo, com suas dunas e gaúchos errantes, onde se destaca o sentimento de solidão dos personagens. Pintores como Carlos Scliar e Frans Krajcberg capturaram o litoral em telas expressionistas, destacando restingas, molhes e o Atlântico como símbolos de força telúrica e efemeridade. Aqui as dunas de nosso litoral movidas pelo vento contrastam com o pampa interiorano. É um mar e litoral menos exóticos que o nordestino, mas que também têm seus signos nas redes dos pescadores e nos peixes que servem de sustento.

Origens filosóficas da água do mar

Nos termos de Illich, se “a água envolve aquilo que existe antes de haver espaço” (p. 47), o mar de Cidreira representa tudo aquilo que existia antes de haver colonização. Ele faz a divisa do horizonte gaúcho, onde de um lado temos o céu e do outro o continente. Illich faz inúmeras associações antropológicas para definir a água, para recuperar a noção de Bachelard que a define em seu aspecto formal e material, forma e significado, matéria e imaginação. Illich quer que sejamos capazes de discernir o registro vasto de suas vozes: eu as vejo não apenas nos banhistas que retornam a cada verão, mas também nos pescadores que usam o mar como fonte de seu sustento, dos navios que ao longe fazem parte de sua paisagem e que jamais saberei o que transportam, dos caminhantes das suas areias que o fazem, justamente, para apreciar o ar do mar “chegou o tempo de os historiadores começarem a escutar a sonoridade dessas ‘aguas dormentes’[ou nem tanto, já que se trata aqui do mar] para se tornarem sensíveis a história da matéria”.

Eu sei que Illich está preocupado em descrever a imaginação que temos da água doce, enquanto eu estou preocupado com a água salgada do mar. Elas são iguais, só se diferenciando pela quantidade de sais envolvidos. A primeira está nas canalizações do DMAE que chegam às nossas casas, nas lagoas de água doce da região e que são fundamentais no consumo humano; já as segundas é o mar de Cidreira, imprópria para consumo, ainda que haja uma notável vida marinha a seu abrigo. Pensamos na água doce como a mais importante do planeta porque nos faz viver, mas é a água salgada que predomina, com 97,5% da água total.    Se, como diz Illich, o H2O que corre nas canalizações não é água, mas sim uma matéria criada pela sociedade industrial, a água do mar é água natural, não há processo algum em sua produção. É, nesse sentido, a água arquetípica de que fala Illich. A água do lago artificial a quem dedica Illich sua análise não passa de uma “exibição pública da descarga sanitária recirculada com pretensões de símbolo estético de um casamento entre água e espaço urbano”. A água do mar que banha Cidreira, ao contrário, é a manifestação da natureza em estado bruto, transformada em símbolo estético e apropriado como experiência subjetiva pelos seus moradores. Não há, entretanto, um casamento entre as areias da praia e o mar, simplesmente porque ali está mais uma fronteira do pampa gaúcho: o oceano.

 Efeitos do mar na cidade

Ainda que separados por um tênue toque na areia da praia, o mar determina o espaço urbano: pela maresia, pelo cheiro da matéria orgânica que dele emana, pelo simples efeito que sua visão produz em nossa subjetividade, pela inspiração que provoca nos artistas e que, num azulejo, desenham em instantes uma cena do mar e a vendem ao primeiro que passar por dez reais. Cidreira, a cidade, é uma criação social, produto da complementaridade entre o ambiente urbano e o mar, que molda sua cultura. Ela é representada no Museu Margarido, que está na entrada de Cidreira: ali, vemos que nasceu a praia na cultura do pescador, de seus apetrechos e vida cotidiana. Em inglês, diz Illich, o “onde você vive” e o “onde você mora” são sinônimos porque essas duas palavras implicam uma à outra: “um acentua o aspecto temporal da existência; o outro, o espacial. Morar significa habitar os rastros deixados pela nossa própria vida, com os quais sempre rastreamos as histórias dos nossos ancestrais. Não é possível distinguir o “morar”, nesse sentido forte, do “viver”.

Trabalhei a vida toda em Porto Alegre, e nesse período, eu sou um “veranista”, aquele que vem à praia no verão. Me aposento e começo a fazer minha transição para a praia: sou um bi-morador, moro em duas casas em regiões distintas ao mesmo tempo. Eu gostaria de ser, no entanto, um nômade entre um espaço e outro, ainda que a própria definição exija uma localização variável de lugares, mas eu não sou um nômade definido pelo lugar, mas pelo tempo: eu não tenho uma data fixa para vir à praia, venho quando quero e isso me faz variar as viagens. Eu aspiro à condição nômade mesmo não sendo um a rigor. Mesmo não morando definitivamente na praia, eu já conformo meu ambiente às condições do mar: eu cuido para que a maresia não afete demais os objetos de minha casa; não tenho uma casa tradicional, já que nunca está terminada, sempre tem algo a fazer para melhorar sua relação com o mar. “Morar significa viver porque cada momento dá forma ao tipo de espaço próprio de uma comunidade” (p. 52), diz Illich.

Morar ou viver na praia

Já mencionei em RED que minha casa abriga “invasores”, que são outros animais que também constroem seu lar nela. Mas é preciso aqui refinar o exemplo, já que, nos termos de Illich, o que eu tenho é uma moradia, onde eu vivo, enquanto o animal tem sua toca, onde sobrevive. A primeira é moldada pela cultura; a segunda, pelos genes. “Nenhuma arte expressa tão bem quanto a arte de morar como aquele aspecto da existência humana que é histórico e não se deixa reduzir a programas biológicos”, diz Illich (p. 52).   Ele afirma que as pessoas não moram mais em suas casas, “eles usam ou consomem suas habitações”, no sentido de que passamos nossos dias na verdade no escritório, o que não nos deixa mais morar da maneira tradicional, se transformando apenas em unidades censitárias na cidade e não espaços de moradia. “Crianças crescem e morrem sem nunca terem a chance de experimentar o viver-como-morar [living-as-dwelling]. A habilidade de morar é um privilégio dos dissidentes” (p.53).

Eu sou um dissidente, eu estou me distanciando dos moradores de Porto Alegre, de ser um porto-alegrense, para me tornar um cidreirense; eu discordo do modo como Porto Alegre está sendo construída, sua expansão vertical e exploração do patrimônio histórico. Apontei em Porto Alegre: das origens à predação neoliberal (Clube dos Autores, 2026), que a cidade está sofrendo um processo de destruição sistemática e planejada. Eu divirjo desse modo de construção/destruição da cidade, eu não posso vê-la e ser impedido de reagir; daí eu vou para a praia, sou um dissidente urbano. Sou a Dilma Rousseff praiana, venho viver na clandestinidade que Cidreira me possibilita como ela viveu como militante de esquerda; sou a Zuzu Angel de Cidreira, que escreve na praia suas denúncias à exploração capitalista da capital como a estilista denunciou à imprensa internacional o desaparecimento de seu filho.

Sonhar com a água mítica

A questão não é se usamos o mar como artifício comercial, como o lançamento em Tramandaí, se estamos o poluindo com a falta de tratamento que damos ao esgoto de Cidreira, se a poluição de seus lençóis freáticos terá consequências para a população. Nos termos de Illich, são questões cruciais, mas ele aborda a água num sentido diferente. “A água de que falo é a água de que se precisa para sonhar a cidade como um lugar para morar” (p.55). Já deixei pistas em meus textos aqui em RED da praia de Cidreira de meus sonhos: ela é curtida em silêncio, sem caixas de som à beira da praia, sem churrasco de ocasião e pessoas barulhentas, sem automóveis que atravessam a areia como se a praia fosse uma autopista. É desta praia que Illich parte, a da imaginação, a personagem de seus sonhos e dos meus. Ela está espalhada em alguns aglomerados de casas ou cabanas isoladas ao longo da praia, em que se vive como no meu sonho. Mas para Illich, a praia é, fundamentalmente, o lugar de certos rituais que fazem com que ela seja parte integrante da “vida como um fluxo em que se mora” (p.59). É o que ocorre quando faço a oposição de minha casa na praia com a da cidade porque eu consigo fazer rituais aqui que não consigo na cidade, os rituais do mundo praiano. Caminhar na beira do mar, por exemplo.

Illich procura pela fundação da cidade clássica, que nas diversas mitologias é promovida pelo sonho de seus fundadores; em Cidreira, que eu saiba, não houve sonho algum, apenas o processo histórico da construção de sesmarias e sua divisão a partir do ano de 1767. Teria seu sesmeiro Manuel Franco Pereira algum sonho? Claro que não! Apenas o desejo de explorar as diversas fazendas que existiam na região num povoamento tão lento que somente nos anos 1930, e após, com a construção da estrada de Porto Alegre para o litoral, permitiu que mais tarde Cidreira se emancipasse de Tramandaí, em 1988. Sem quaisquer origens míticas, sem a intervenção de videntes ou mágicos, a criação do espaço social não tem aqui nenhum caráter mágico, exceto a presença da igreja que centraliza a vida da cidade. Tudo o que existe no litoral de Cidreira não possui a união simbólica da fundação das cidades do passado mítico; há o voo de pássaros, há o rastro de nuvens, podemos até ver as entranhas de animais ao longo da praia, há o alinhamento presente das estrelas no céu, mas não há, em nenhum instante de sua criação, um alinhamento destes elementos através de um cerimonial. A cidade, como a praia, nasce sem rituais que definam seus limites e, por esta razão, não está incluída entre as cidades mitológicas. Ela é uma cidade e uma praia real.

A singularidade da água do mar

Essa é a imagem do mar que procuro, “o fluido que inunda os espaços do dentro e do fora da imaginação” (p.107), como diz Illich. Ele afirma que o mar tem capacidade de carregar metáforas ilimitadas, é um espelho mutante, reflete os hábitos e modas de época. Se arquitetos e homens de várias épocas decidiram onde as águas da cidade deveriam ficar, seja em reservatórios, lagos artificiais, caixas d’agua, a água do mar é seu limite: impossível limitá-la, ela murmura e reflui ao infinito. A água de cada uma das piscinas dos moradores da praia é limitada; as águas das chuvas correm pelas calhas das casas também; as vezes, numa chuva intensa, podem gotejar para dentro das casas acompanhando o caminho aberto pelos canos das lareiras, mas eu posso juntar num balde – “a água continua um caos até que uma história criativa interprete sua aparente ambivalência como estremecedora ambiguidade da vida. Uma das tarefas principais da maioria dos mitos de criação é conjurar a água” (p.108).  Eu posso delimitar a água que me atinge, exceto a do mar.

E mais, nós, cidreirenses, não temos mitos para o mar que nos cerca. Peço à IA Perplexity que resuma os mitos sobre o mar gaúcho. Ela destaca aqueles dos povos originais guaranis. Aqui, a água é um elemento sagrado, criado por intervenção divina após um dilúvio ou lágrimas de um ser qualquer. O mito guarani das águas começa com o ato de criação de Tupã, que desceu e tocou a terra seca, criando as águas que formaram riachos, rios e o mar. A vastidão do mar de Cidreira seria então obra de Tupã. Nessa mitologia, outro personagem, Mboi Tui, uma serpente com cabeça de papagaio, é o guardião das águas, reverenciado pelos charruas com rituais para que a água nunca acabasse. É curioso que em algumas tradições o tempo inicia com escuridão e água, onde cobras surgem das águas e, movendo-se na terra, mudam a geografia.   E, para muitos povos guaranis, o oceano era o Paraná guaçu (grande rio), o repouso das almas, o fim da jornada da Terra em Males. Em outras lendas, a jovem Yara encontra seres místicos e se torna o símbolo da união da terra com o mar.

A mitologia em torno do mar

Tanto os mitos antigos como as perspectivas mais contemporâneas têm um ponto de união, no qual o mar é visto como uma entidade viva e vital, diferenciando-se em sua origem divina ou terrena, e é fundamental para nossa existência. Prefiro aqui a trajetória indígena à mitológica de Illich, ainda que com menos detalhes e menos rigor de fontes na pesquisa da IA. Ainda assim, quando lembramos do seu papel para as festas de Navegantes, como com Iemanjá, retorna a ideia da pureza e limpeza que a água do mar encarna. “Meu tema é o poder da água para limpar, para desprender o que está aderido às pessoas, às suas roupas ou às suas ruas. O poder que a água tem para penetrar corpos e almas, e comunicar-lhes seu frescor, sua clareza e sua pureza é outro assunto, com uma história totalmente diferente” (p.113). Curiosamente, é justamente por esta história deixada de lado por Illich que me interesso. Ainda que, mesmo em Cidreira, a água do mar ainda hoje seja o lugar de purificação em cerimônias religiosas, Illich estabelece uma distinção entre pureza e limpeza: “pureza remete a uma qualidade do ser. Mesmo quando essa qualidade aparece na superfície de um ser, ela é entendida como manifestação de algo profundamente interno. Sua beleza só pode perder-se por uma corrupção no cerne daquele ser. Não há palavra para dizer o que então se perde. Só se pode expressar a perda por um composto negativo: não há o que dizer se não “impuro”. Em contraste com essa referência negativa à condição que clama por purificação, as línguas indo-germânicas dispõem de um rico registro para referir condições que requerem limpeza. Todas elas são coisas terrenas que a água arrasta e lava. Ela age como um solvente: dedos, face e boca são enxaguados; roupas são lavadas; o corpo e os pés banhados” (p.115).

O mar na cena religiosa

Penso que o mar nos acena com a sua pureza quase religiosa. Ele está ali em sua imensidão quase de um Deus. Ela é a metáfora que uso para pensar o mundo imundo e sujo em que vivemos: exploração neoliberal, guerras, escândalos do Master etc. Eu gostaria que a água do mar fizesse exatamente isso, penetrasse os corpos e almas tomadas pelo capital e promovesse uma purificação; que tornasse claro para os capitalistas de plantão, mesmo os de Cidreira, que a história pode ser outra e totalmente diferente. Um outro mundo é possível, basta imaginá-lo junto ao mar. Pois, se o mar tem uma qualidade, a de ser transparente, essa é uma espécie de espelho em que todos nós também deveríamos nos ver.

Caminho pela praia, olho o mar como se fosse um espelho e o que imagino: a indicação de que vivemos sim, num mundo que foi corrompido pelo capital, composto por pessoas dissimuladas, os políticos de ocasião. Se o mar pode nos dizer algo, é que ao contrário dele, puro, nosso mundo é, “impuro”. Como esquerda, eu gostaria de… matar o capitalismo! Mas Illich sugere que, mesmo que ele fosse morto, precisaria ter seu corpo “lavado”, costume que o autor registra de Homero até hoje. Seria então a dignidade de um ato de misericórdia, lavar o capitalismo como a um morto, como se lavam as escadarias das igrejas baianas. Diz Illich: “a cerimônia é realizada sobretudo para despojar o cadáver de uma aura que lhe está agarrada e não deve ir com ele para o túmulo” (p. 116). Não vejo definição para a vitória esmagadora do capital entre nós: como também já havia apontado Walter Benjamin, ele só é vitorioso porque ainda acreditamos que tem uma aura. E, nos seus termos, isso só acontece porque o capitalismo é nossa nova religião.  

A aura do mar nos lembra de combater o fetiche da mercadoria

Olho o mar de Cidreira e vejo o reflexo da lua sobre ele à noite. Esta é a verdadeira aura, essa emanação sutil de luz, energia ou atmosfera que envolve pessoas e coisas, como o mar, segundo crenças espirituais. Como já disse em RED, após os 60, acho que fiquei um pouco espiritualista.  Se há um campo energético individual positivo ao redor de pessoas e coisas, é porque deve haver também um campo individual negativo. Eu sei que a aura talvez não passe de uma atmosfera criada pela nossa imaginação, mas como Walter Benjamin apontou, a aura tem um lugar no capitalismo: em A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica (1935), a aura é o que é corroído pela reprodução capitalista de massa, o que fazia, da obra de arte, algo autêntico. No capitalismo, onde tudo é cópia, e onde talvez minha própria piscina que já descrevi em RED, seja mais um outro produto, o mar ainda nos lembra que aura pode existir “na aparência única de uma coisa distante, por mais perto que esteja”.

O mar é autêntico, é único, é histórico, é próximo e distante. Nosso capitalismo quer privatizá-lo, quer democratizar seu acesso mediante ingresso, transformá-lo em commodity serial, loteando-o ou transformando-o em ícone de loteamentos. Para quê? Para fazê-lo desaparecer sua imagem de pureza de nossos sonhos. Olho o mar mais uma vez e descubro, mais uma vez, que as relações sociais entre pessoas se invertem e aparecem como relações entre coisas. Olho o mar e vejo a crítica a noção de fetiche da mercadoria: como é que podemos esquecer a história humana das relações das pessoas com o mar, transformando-as na mercadoria que “Lake Bairro Planejado Tramandaí” propõe?  Sim leitor, vai e volta estamos aqui criticando o capitalismo. Que fazer, é da minha natureza. Quando foi que a relação das pessoas com o mar foi substituída pela relação das pessoas com incorporadoras de praia? Antes, tudo era a relação com o mar e seus simbolismos. Hoje, até a relação com o mar se transformou numa mercadoria autônoma ‘adquira seu lote já”, e seu valor intrínseco deixa de ser o trabalho simbólico sobre o mar, e passa a ser a exploração do trabalhador que luta para ter um produto ‘próximo a praia”. O significado religioso do mar é assim transferido para objetos, os terrenos próximos ao mar. Mais uma vez, o capitalismo corrói a autenticidade da relação homem-natureza, e o fetiche da mercadoria industrializa relações que na origem eram simbólicas. 

Illich encerra seu livro com um desabafo inspirador.   “A água foi percebida ao longo de toda a história como a matéria viva que irradia pureza. A criança da cidade não tem oportunidades de contato com a água-viva. A água não pode mais ser observada; ela só pode ser imaginada, talvez pela reflexão sobre uma gota ocasional ou uma humilde poça” (p. 242). Num mundo que a relação com o mar passa pela aquisição do melhor lote de um empreendimento comercial, talvez não devêssemos ser tão modestos em nossa luta anticapitalista, já que temos um mar imenso ao nosso redor para inspirar.


Foto de capa: Foto. Grande Onda de Kanagawa, de Katsushika Hokusai .  Versão restaurada do Arquivo:Great Wave fora do Kanagawa.jpg (girado e cortado, sujeira, manchas e manchas removidas. Vincos corrigidos. Histograma ajustado e equilibrado de cor.), Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5576388

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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