Por EDELBERTO BEHS*
A Inteligência Artificial está tão avançada e profundamente enraizada na sociedade que no futuro, tudo que é feito de palavras, será por ela dominado, alertou o historiador Yuval Harari, ao participar da sessão “Uma Conversa Honesta sobre IA e Humanidade”, no Fórum Econômico de Davos. “Se as leis são feitas de palavras, então a IA dominará o sistema jurídico. Se os livros são combinações de palavras, então a IA dominará os livros. Se a religião é construída a partir de palavras – como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo – então a IA dominará a religião”, disse.
Se pensar significa organizar palavras e outros elementos da linguagem, “então a IA já consegue pensar muito melhor do que muitos humanos”. Se os humanos ainda terão lugar nesse mundo “dependerá do lugar que atribuirmos aos nossos sentimentos não verbais e à nossa capacidade de incorporar a sabedoria que não pode ser expressa em palavras. Se continuarmos a nos definir pela nossa capacidade de pensar em palavras, nossa identidade entrará em colapso”, alertou o autor de “Sapiens, uma Breve História da Humanidade”.
Até aqui, todas as palavras, “todos os nossos pensamentos verbais, tinham origem em alguma mente humana”. Em breve, previu, “a maioria das palavras em nossas mentes terá origem em uma máquina”. E não numa máquina qualquer. Uma máquina pensante, que não pode ser vista como uma ferramenta. Ela pode aprender e mudar sozinha, e tomar decisões por conta própria. “Uma faca é uma ferramenta. Você pode usar uma faca para cortar salada ou para assassinar alguém, mas a decisão sobre o que fazer com ela é sua. A IA é uma faca que pode decidir sozinha se corta salada ou se comete um assassinato”, exemplificou.
Segundo o pesquisador do Centro para o Estudo do Risco Existencial, da Universidade de Cambridge, e do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém, a IA vai provocar uma grave crise de identidade e também uma crise migratória. “Desta vez, os imigrantes não serão seres humanos chegando em barcos frágeis sem visto ou tentando cruzar uma fronteira no meio da noite. Os imigrantes serão milhões de IAs que podem escrever poemas de amor melhor do que nós, que podem mentir melhor do que nós e que podem viajar na velocidade da luz sem precisar de vistos”. Esses migrantes ocuparão muitos empregos dos humanos, alertou.
Hoje, a IA interage com humanos nas redes sociais, desfrutam de liberdade de expressão no Facebook, no TikTok, bots de IA operam como pessoas funcionais há pelo menos uma década. “Se você acha que IAs não devem ser tratadas como pessoas nas redes sociais, deveria ter agido há dez anos”, apontou. E desafiou: “Daqui a dez anos, será tarde demais para você decidir se as IAs devem funcionar como pessoas nos mercados financeiros, nos tribunais, nas igrejas. Alguém já terá decidido isso por você, e se quiser influenciar o rumo da humanidade, precisa tomar uma decisão agora”.
*Edelberto Behs é Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).
Foto de capa: Getty Images




