O debate sobre o desenvolvimento econômico no Brasil frequentemente esbarra em um dogma paralisante: a ideia de que o setor público é, por natureza, ineficiente e que o dinamismo tecnológico depende exclusivamente do livre mercado. Essa visão, alimentada por narrativas românticas sobre jovens brilhantes que revolucionam o mundo a partir de iniciativas isoladas, ignora a história econômica global. A realidade histórica das nações ricas revela o oposto: os saltos tecnológicos e industriais mais profundos da humanidade foram desenhados, financiados e comandados pelo poder estatal.
Atribuir o pioneirismo da infraestrutura digital ou da biotecnologia moderna ao capital privado é inverter a ordem dos fatos. O mercado financeiro e as empresas privadas possuem uma aversão natural ao risco de longo prazo; o investimento privado costuma entrar em cena apenas quando a viabilidade comercial de uma tecnologia já está consolidada e os riscos de falha foram neutralizados. Quem assume a fatura das pesquisas básicas, que demandam décadas de maturação e alta taxa de insucesso, é o orçamento público. Dos satélites de comunicação aos insumos farmacêuticos de ponta, a inovação disruptiva sempre teve o financiamento estatal como certidão de nascimento.
Esse modelo de indução pública foi o denominador comum na ascensão de todas as grandes potências contemporâneas. Países que hoje lideram o ranking de inovação global não terceirizaram suas estratégias de crescimento para as forças de mercado.
A Coreia do Sul, por exemplo, transicionou de uma economia agrária para uma potência tecnológica global por meio de um planejamento central severo, onde o Estado escolhia os setores vitoriosos, financiava a pesquisa de ponta e exigia contrapartidas rígidas das empresas.
Seguindo uma lógica semelhante, mas em uma escala ainda mais monumental, a China consolidou-se como superpotência global rejeitando qualquer cartilha de passividade estatal. O Partido-Estado comandou e financiou diretamente o processo, injetando somas astronômicas de recursos públicos em universidades, laboratórios nacionais e infraestrutura de ponta, criando campeãs nacionais em setores estratégicos como inteligência artificial, semicondutores e energia limpa.
Mesmo os Estados Unidos, frequentemente pintados como o bastião do livre mercado, estruturaram sua hegemonia sobre um robusto complexo de agências governamentais de fomento. Foram os recursos públicos de defesa, saúde e energia que criaram a espinha dorsal de indústrias inteiras, da computação à biotecnologia. O dinamismo do setor privado norte-americano só existe porque o Estado atuou como o principal investidor de risco nas etapas mais incertas da pesquisa científica.
Outro exemplo contundente vem da Finlândia. Diante de uma grave crise econômica no início dos anos 1990, o país escandinavo tomou a decisão consciente de não cortar gastos em áreas essenciais. Pelo contrário: o Estado finlandês liderou uma reestruturação profunda baseada no investimento massivo em educação básica e superior de altíssima qualidade e na criação da Sitra — um fundo público de inovação que financiou a transição do país para a economia do conhecimento. A guinada finlandesa provou que a eficiência social e a competitividade econômica andam de mãos dadas quando coordenadas pelo poder público.
Enquanto o discurso externo dessas nações frequentemente exalta as virtudes do liberalismo, a prática doméstica sempre foi de profunda intervenção, investimento massivo e fomento estatal.
Para o Brasil, o custo de adotar a retórica liberal estrangeira em vez da prática real tem sido a desindustrialização e o aprisionamento na condição de exportador de commodities. O país precisa, urgentemente, romper com as amarras ideológicas e os dogmas fiscais que asfixiam a capacidade de investimento do setor público. Submeter o orçamento da educação, da ciência e da tecnologia a regras de austeridade cegas e arcabouços rígidos é inviabilizar o futuro. Nenhuma nação se desenvolveu sob o cabresto de travas orçamentárias que tratam o investimento em conhecimento como um gasto supérfluo a ser cortado.
A educação e a pesquisa científica de base são a mola propulsora indispensável para a soberania nacional. Fortalecer as universidades públicas, garantir a autonomia universitária e valorizar as carreiras científicas não são políticas assistenciais, mas pré-requisitos para a sobrevivência econômica em um mundo hipertecnológico. O Estado brasileiro deve assumir o protagonismo do processo, utilizando ferramentas institucionais como a encomenda tecnológica e o direcionamento estratégico do crédito para puxar a indústria nacional para cima.
O desenvolvimento de um país não acontece por geração espontânea ou por incentivos abstratos ao empreendedorismo de fachada. Ele resulta de planejamento estratégico, paciência histórica e da coragem do setor público em financiar o futuro antes que ele se torne lucrativo. É hora de o Brasil abandonar os mitos importados e assumir o controle do seu próprio destino científico e educacional.
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