Depois de ouvir mais de uma das entrevistas com o Dr. Augusto Cury, firmei as avaliações que seguem. Há um ajuste mais ou menos fácil entre o candidato e significativa parte da opinião pública que está cansada e desiludida com a polarização e que prefere um candidato alternativo. Ambos são centristas, podendo haver alguma inclinação mais à esquerda, ou mais à direita conforme se considere o assunto ou o segmento do conjunto dos que preferem uma terceira via. Em parte dessa opinião centrista a falta de experiência política do Dr. Cury e seu sucesso empresarial são vistos, não como limitações, mas como trunfos.
Creio, no entanto, que convém olhar isso mais de perto e atentar para o que suas apresentações preocupantemente revelam. E assim porque, embora remota, há alguma chance de o Dr. Cury ganhar a eleição. Jânio, Collor, Bolsonaro são exemplos de que isso de vez em quando ocorre entre nós, com ou sem a presença da velocidade de reconhecimento de personagens inesperados que hoje a existência das redes permite. A verdade é que o Brasil passa uma crise política grave, há um evidente desgaste do que temos atualmente como lideranças políticas e com o quadro institucioal vigente e isso abre espaço para quem se apresenta contra os hoje titulares do centro do poder nacional.
Politicamente, o candidato é um amador. Poreja, delicada mas abundantemente, as evidências de que não tem noção do que seja um Estado Nacional, nem da complexidade política do governo de um país e da não menor dificuldade que é gerenciar eficaz e resolutivamente um governo. Ademais disso, o Dr. Cury tem alguns valores e ideias bizarras. Quanto a valores, orgulha-se de ter um patrimônio maior do que o de todos os demais candidatos juntos, a mensagem implícita sendo a de que assim como soube o que fazer para enriquer a si, ele saberá melhor do que eles o que fazer para enriquecer o Brasil. A pressuposição é um ceteris paribus de arbitrariedade e primarismo desnorteantes. A isso acresce o fato de que hoje o exemplo paradigmático de Empresário-Presidente é o grande Trump, esse personagem que é a reversão viva da tese de Mandeville de que vícios privados geram benefícios públicos, pois o que esse senhor demonstra todos os dias, em escala planetária, é que, bem administrados, vícios públicos geram espetaculares benefícios privados.
De arbitrariedade mais ou menos equivalente é a ilação do Dr. Cury de que da melhor nota que obteve em algum exame de matemática, somada ao que leu sobre economia – não obstante , por certo, o tempo dedicado as muitas dezenas de livros que já escreveu e seu trabalho em medicina – é prova de que saberá o que fazer com a complexidade desse assunto, no qual se emaranham pelo menos as difíceis questões relativas à mediocridade de nosso desenvolvimento desde os anos oitenta do século passado, aos déficits orçamentários e à curva evolutiva da dívida pública, à super turbinada e proporcionalmente lesiva taxa de juros, à paridade cambial e ao emprego.
A bizarrice das ideias do candidato continua com a de transformar os embaixadores do Brasil em caixeiros viajantes! Emparelhado com ela está a inutilidade do projeto de criar milhões de pequenos empresários no Brasil, pois, contadas as pejotas que já temos, esse novo exército já existe e sua expansão não dependerá de iniciativa estatal alguma, pois decorre e decorrerá cada vez mais rapidamente da difusão de serviços simples, das novas condições de trabalho em rede e de contratação terceirizada, fatores estes que, com a substituição acelerada de trabalho de gente por trabalho de máquina, só fará aumentar o desejado universo dos pequenos empresários. Para terminar esta enumeração, convém ainda mencionar a ideia do Dr. Cury de controlar a multiplicação dos feminicídios com drones! A combinação da evocação das novas tecnologias de guerra com a solução de um problema social tão grave quanto atomizado e disperso geográfica e cronologicamente vai, porém, além da surpresa e da bizarria. Para onde, não vou me atrever a cogitar.
À vista dessas ideias e projetos, ocorreu-me lembrar e tomar de empréstimo uma imagem criada por Mirabeau quando, alertando para as dificuldades que a Constituinte tinha pela frente no início da Revolução francesa, criticava as ousadias – da esquerda, digamos, para simplificar – e acusava seus representantes de se portarem como quem viaja em um mapa-múndi, onde nem rios, nem o mar, nem montanhas, nem abismos, tampouco florestas, pântanos, desertos, são obstáculos. Mirabeau enganou-se com relação a seus adversários que realmente terminaram com o Antigo Regime e deram um passo institucional decisivo na construção da modernidade. Já o Dr. Cury, com suas estranhas e meio amalucadas ideias, não parece ter a menor condição de ter sucesso em suas veleidades mudancistas. Mesmo propostas eventualmente razoáveis como a de alterar a constituição para termos um regime parlamentar no Brasil parece muito pouco viável no Congresso que sairá desta eleição. Além disso, na hipótese de que viesse a se eleger, não é de duvidar que o Dr. Cury possa vir a se enfadar com as dificuldades para fazer o que pretende, do que, aliás, uma sua menção à ideia de que, aprovado seu preconizado parlamentarismo, ter o Governador Tarciso como seu primeiro ministro já faz pensar. Mas talvez não. Ele parece já estar mais do que satisfeito com seus sucessos particulares, tem anseios públicos, anela somar a seu êxito privado o que quer obter no domínio público.
Dizem por aí que o Brasil não é para amadores. Se não fosse não haveria necessidade dessa declaração enfática. Na pouco provável hipótese de termos o Dr. Cury Presidente, o que viríamos ter é justamente um amador tratando de aprender o que é governar o Brasil. A crise institucional presente, os desvios que desequilibram os poderes da República e que fazem do Poder executivo o mais fraco dos nossos três poderes, se agrava com a contaminação do próprio Supremo Tribunal Federal pela venalidade. Evidentemente, nossas instituições precisam ser reajustadas e isso exigirá reformas institucionais, dependentes de mudanças constitucionais cujo desenho e velocidade de implementação são difíceis de estimar com precisão, mas que, mantido o Estado de Direito, não serão feitas de um só golpe, nem em prazos muito curtos. O Congresso que vai sair da eleição não será melhor do que o atual. Tampouco a reforma do Supremo, e muito menos uma revisão geral do sistema judiciário brasileiro, se fará no tempo do calendário eleitoral, ainda que o presidente Fachin tome alguma decisão de maior alcance.
Em vista do estado da opinião pública atual, a demanda dessas reformas aumentará e a pressão para que isso aconteça tem muita chance de lhe dar algum andamento. Nessa hora o papel da Presidência da República e sua capacidade de negociação será vital para construir consensos. Creio que a prudência e capacidade de negociação de Lula, não obstante as dificuldades do entorno, poderão contar a favor de mudanças positivas. Sem ele, com o Bolsonaro filho, o cenário só nos levará à situação de neocolônia que os Estados Unidos estão propondo e já executando na América Latina. Ou, com o Dr. Cury, às confusões que os projetos de uma liderança de direita, inexperiente e de propósitos extravagantes não deixará de acarretar.
Ilustração: caricatura de virtualidades.blog

