Por LÉA MARIA AARÃO REIS*
Para quem aprecia o jazz, é um presente bem-vindo esse filme Trilha Sonora para um Golpe de Estado, que estreou nos cinemas. O fundo musical, embora entrecortado e com uma montagem histérica, é o da empolgante música produzida pelos descendentes de escravos negros norte-americanos que, no período da Guerra Fria, pós-Segunda Guerra Mundial, conquistou o mundo com sua beleza melancólica, mas também com sua alegria contagiante, cooptando com sucesso muitos dos músicos e compositores brancos dos Estados Unidos.
Soundtrack to a Coup d’État é produção de um grupo de empresas europeias, da Bélgica, França e da Holanda, dirigida pelo belga Johan Grimonprez. Foi prêmio especial do júri no respeitado Festival de Sundance de 2024, na categoria Inovação Cinematográfica, e é um dos candidatos mais fortes para ganhar o Oscar de Melhor Documentário este ano.
Mas o que o torna ainda mais atraente e, sobretudo, oportuno é seu perfil político entrelaçado com o jazz negro, nesse caso transmutado em arma secreta do governo norte-americano. O filme pontua o longo processo de descolonização belga (colonização suja, diz-se nos diálogos) do território que ia constituir a atual República Democrática do Congo, as armadilhas montadas contra esse procedimento e segue os últimos meses de vida do lendário líder africano Patrice Lumumba, primeiro presidente eleito pelo voto popular em seu país, assassinado em 1961. Era o auge das violentas guerras de independência no continente africano; na época, o atentado e assassinato do carismático líder foi motivo de grande comoção e repulsa internacional.
O ponto forte do doc é a quantidade e qualidade de imagens de vídeos históricos arquivados em diversos países. Um deles é de 1960, batizado “o ano da África”, quando o Congo entrou na ONU. Outro é o do protesto dos músicos Abbey Lincoln e Max Roach ao invadirem o Conselho de Segurança denunciando o assassinato do presidente congolês, arquitetado, segundo eles, pelo governo estadunidense.
Por outro lado, mostra Louis Armstrong e sua orquestra enviados ao Congo para uma temporada de shows populares e gratuitos, com o objetivo de baixar uma cortina de fumaça para o programa norte-americano da deposição e retirada de Patrice Lumumba do poder.
O diretor Johan Grimonprez, também autor do roteiro, comenta: “As questões abordadas no filme permanecem dolorosamente atuais ao vermos os recursos naturais do Congo ainda hoje sendo explorados em disputas globais”.
Por coincidência, a estreia do filme e sua indicação para o Oscar deste ano ocorrem na mesma semana em que, mais uma vez, a violência brutal explode nas ruas da República Democrática do Congo, no país vizinho Ruanda e em regiões do continente africano.
Nos bastidores políticos, em Trilha Sonora para um Golpe de Estado, vê-se os acontecimentos manipulados pela avidez das grandes potências econômicas em colocar as mãos nas toneladas de urânio que a região possui, no coltan, no ouro e em seus diamantes, alguns considerados tesouros estratégicos nesse novo mundo de hoje.
Comentário da narração do filme: “Entregou-se toneladas de urânio aos Estados Unidos que ajudaram a remover Hiroshima e Nagasaki da face da Terra”.
Imperialismo, jazz, capitalismo, as lutas por direitos civis nos Estados Unidos, os movimentos pan-africanistas e dos países e líderes não alinhados – como Nasser, Nehru, Zhou Enlai – constituem referências desse roteiro dos anos 1960 que se estilhaça em várias direções. Às vezes, as situações trazidas nos chegam contraditórias, mas o objetivo é sempre o de fazer justiça nas questões de memórias políticas mal resolvidas no passado e que estão sendo revolvidas hoje em várias partes do mundo, em livros e filmes que despertam o interesse das novas gerações.
Selecionamos alguns dos melhores momentos de Soundtrack to a Coup d’État acompanhados de vídeos e ironias. O então presidente texano Dwight Eisenhower comentando, ao prenunciar as dificuldades da liderança congolesa diante da força da cupidez pelas riquezas das terras da ex-colônia: “Lumumba caiu em um rio cheio de crocodilos”. E continuando: “O toca-discos pode nos ajudar a ganhar a guerra”.
Louis ‘Satchmo’ Armstrong, rebatizado de O Rei do Congo pela propaganda norte-americana e promovido a Embaixador do Jazz, referindo-se à sua arma secreta: “É um Blue Note com a diferença de ser em um tom menor”. Em entrevista, o presidente Patrice Lumumba rebate um jornalista mais atrevido que indaga: “O senhor é comunista?” Sua resposta: “Sou africano”.
Outro lance inesquecível é ver e ouvir Nikita Khrushchev se referindo ao jazz e, mais adiante, descalçando os sapatos e socando com eles a mesa onde comandava a representação soviética na ONU: “Quando eu ligo o rádio, eu fico doido e desligo imediatamente. Isso não é música; é cacofonia. Meu estômago se enche de gases”. E o soviético, a respeito de Dizzy Gillespie e do bebop do genial trompetista: “Hoje, lhes dão um trompete. Amanhã, ele será um espião”.
Já Miriam Makeba, a cantora notável e mais notável ainda como ativista incansável durante a segunda metade da sua vida, é também personagem de Trilha Sonora. Assim como a lendária Nina Simone, que escondia documentos secretos no coque do seu penteado quando viajava para fora dos Estados Unidos. E Malcolm X, em uma entrevista nos Estados Unidos, ironizando: “Democracia? Vivemos em uma democracia, com 22 milhões de cidadãos com cidadania negada?” O entrevistador: “E como você vê o papel dos EUA no Congo?” Malcolm X: “Como criminoso. Provavelmente, não há melhor exemplo de atividade criminosa contra um povo oprimido do que o papel que os EUA têm desempenhado no Congo, através de seus laços com Tshombe e os mercenários”.
Alguém, com acerto, define o filme de Grimonprez como um misto de ensaio e documentário. Doc ou ensaio, ele foi incluído entre os melhores filmes do ano pelo New York Times e pela Artforum. E a crítica do The New York Times o descreve como “uma obra extraordinária que desafia nossa percepção sobre história, música e poder”. E o sempiterno Variety: “É uma aula de história apresentada como espetáculo dramático e irônico”.
Publicado originalmente no Fórum 21.
*Léa Maria Aarão Reis é jornalista.
lustração de capa: eprodução
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