Por NORA PRADO*
Na década de 1970, li com entusiasmo a peça GOTA D`ÁGUA, numa livre adaptação do poeta Paulo Pontes e do compositor Chico Buarque, numa versão ambientada de Medéia para os morros cariocas. A peça fez um enorme sucesso na época e o livro saiu, na sequência, repetindo o êxito dos palcos. No original de Eurípides, a peça narra a vingança de Medéia contra Jasão, que a abandona depois de conquistar o Velocino de Ouro com a sua ajuda, para se casar com a filha do rei de Corinto. Tomada de fúria, Medéia, mata os próprios filhos e a nova esposa de Jasão, e o pai desta como vingança pela traição. Na perspectiva psicanalítica, o mito de Medéia, que narra a vingança de uma mulher contra o marido infiel, pode ser interpretado como um estudo sobre a violência, o luto e a alienação parental, revelando conflitos internos e a busca por justiça.
Pois esta prática arcaica do comportamento humano, que parecia ter sido superada e abandonada, há séculos, diante do avanço civilizatório, retorna com vigor em casos trágicos amplamente divulgados pela mídia em nosso país e no mundo. O mais terrível deles, aconteceu na pacata cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, onde um pai, inconformado com a separação da esposa jogou o próprio filho, de cinco anos, de cima de uma ponte. O caso chama a atenção porque no dia anterior, o pai tentara matar o filho sufocando-o, mas sem sucesso. No dia seguinte, horas antes do crime, o pai passeava com o menino dentro de uma caixa de plástico na frente da sua bicicleta nas imediações da ponte. Ou seja, ele ainda teve tempo para refletir, mas não se arrependeu nem mudou de idéia, e seguiu com o plano até o fim. Com a estiagem o rio estava mais baixo e a criança se esborrachou contra as pedras do seu leito.
Numa outra história, semelhante, um caminhoneiro colidiu com o seu caminhão, de propósito, contra uma carreta ao dirigir na contramão da Av. Dutra. Estavam com ele os dois filhos gêmeos que morreram junto com o pai. A motivação do crime hediondo, ele e a mãe das crianças tiveram uma discussão no dia anterior e estavam se separando.
Nos Estados Unidos, no estado da California, uma mãe ligou para a polícia, se entregando, depois de matar o próprio filho, de dez anos, a facadas. Os dois tinham acabado de voltar de uma viagem para a Disneylândia.
Não são casos isolados, mas fazem parte de uma série de crimes brutais no qual os filhos foram usados para atingir o cônjuge. Uma forma tosca e primitiva de ferir quem os feriu. Um ato macabro para devastar a vida de um suposto inimigo.
Estes fatos, monstruosos, demonstram como nossa sociedade se encontra profundamente adoecida e incapaz de lidar com as frustrações típicas da vida adulta. Significa dizer que essas mães e pais não amadureceram, se encontram ainda num estágio psíquico adolescente ou infantil. Pois são incapazes de lidar com as contrariedades e os limites, sem encontrar outra saída possível para os seus traumas, que não seja o de sacrificar a própria vida e daqueles que um dia amaram.
Essas cenas bizarras ainda apontam outra questão a ser levada em consideração, a fragilidade a que são expostos os filhos de um casal cuja mulher, por exemplo, tem medida protetiva contra o ex-parceiro. Não é mais possível que a Justiça e o Estado as deixem vulneráveis, sob o risco delas se tornarem os alvos preferidos para uma retaliação futura contra a ex-esposa. É urgente que se façam mudanças na lei para proteger os filhos de um casal em pé de guerra. Os inocentes não podem mais pagar por isso.
Creio que questões como estas, de conflitos e relacionamentos deveriam ser discutidas, inclusive, em sala de aula. Bem como masculinidade tóxica e bullying, tão comuns atualmente. É preciso que nossas crianças reconheçam sinais de alteração de humor e comportamento para que elas mesmas se afastem do abusador ou peçam socorro.
É um tema espinhoso, delicado e doloroso, mas nós, enquanto sociedade, precisamos enfrentá-lo de frente para a melhora da nossa própria saúde mental. Até lá, será igualmente fundamental discutirmos com os nossos filhos sobre relações e comportamento social para diminuirmos o abismo de comunicação entre pais e filhos. A luz vermelha segue acesa indicando urgência, cabe a nós, adultos, promovermos essa discussão.
Para que num futuro, não tão distante, o mito de Medéia, seja apenas uma tragédia grega do genial Eurípedes.
*Nora Prado é atriz, Coaching para Cinema e Televisão, Arte Educadora, Poeta e Fotógrafa.
Foto de capa: Reprodução
Uma resposta
Triste mas necessário discutirmos esse tema e levar sim para sala de aula em termos de habilidades sociais.