O cartório da culpa unilateral | Por Henrique Morrone

Uma reflexão sobre a tentação de transferir responsabilidades, transformar conflitos humanos em culpados convenientes e escapar do difícil exercício da autocrítica.
Publicado em 30 de junho de 2026 às 8:00
Editado em 15 de junho de 2026 às 10:25

Ninguém lembrava da inauguração.

Mas todos conheciam seus serviços.

O Cartório da Culpa Unilateral funcionava sem interrupções.

Havia filas.

As pessoas chegavam carregando fracassos.

Divórcios.

Ressentimentos.

Traições.

Filhos distantes.

Projetos interrompidos.

O procedimento era simples.

Entregavam a própria história.

Recebiam um certificado de inocência.

No mesmo ato, alguém era declarado culpado.

A lista mudava conforme a época.

O procedimento permanecia o mesmo.

Nenhuma dúvida sobrevivia ao carimbo.

Os clientes saíam mais leves.

A responsabilidade agora habitava outro endereço.

O sucesso do Cartório era compreensível.

Transformava o mundo numa história infantil e reconfortante.

De um lado, os inocentes.

Do outro, os culpados.

A realidade, porém, insistia em criar embaraços.

Os documentos do Cartório jamais conseguiam acompanhar a desordem dos fatos.

Mesmo assim, a procura aumentava.

Alguns clientes retornavam.

Solicitavam culpados adicionais.

Nas disputas familiares, o movimento era intenso.

Muitos deixavam de enxergar pessoas.

Passavam a enxergar categorias.

Os filhos atravessavam corredores carregando conflitos que não lhes pertenciam.

Algumas vezes, o Cartório assumia a forma de uma caça às bruxas.

Bastava uma suspeita.

Uma acusação.

Uma narrativa conveniente.

Os julgamentos chegavam antes das provas.

Os ossos vinham depois.

Certa tarde, um visitante fez um pedido incomum.

Queria registrar uma parcela da culpa em seu próprio nome.

Os atendentes se entreolharam.

Consultaram regulamentos.

Vasculharam arquivos.

Esse serviço não existia.

Jamais existira.

O Cartório fora construído justamente para evitar esse tipo de transtorno.

O visitante insistiu.

Disse que talvez carregasse alguma responsabilidade.

Talvez não toda.

Mas alguma.

Os funcionários demonstraram desconforto.

Aquilo contrariava os fundamentos da instituição.

Os certificados perdiam validade sempre que alguém se aproximava do espelho.

O visitante saiu sem documento.

Foi o único caso conhecido.

Até hoje.

O Cartório continua funcionando.

As filas seguem longas.

Os certificados continuam sendo emitidos.

Os carimbos permanecem impecáveis.

A realidade, porém, jamais os validou.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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Uma resposta

  1. Fantástico!!!
    Uma ode ao reconhecimento da nossa hipocrisia como sociedade.
    Um personagem da história, já disse “Autocrítica, não é para procurar culpaveis, é para corrigir rumos”.
    Porém nosso Sistema cultural “Ocidental e Cristão” nós impõe à “procura dó culpado”, assim nos liberamos do sentimento de culpa.

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