O Caos Global e a Ilusão da “Fortaleza América”: Trump e o Declínio do Imperialismo Neoliberal Norte-Americano

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Por LUIZ CÉSAR SILVA*

A decadência do imperialismo norte-americano não pode ser explicada apenas pela ascensão de novas potências ou por mudanças pontuais na correlação de forças internacionais. Ela está intimamente enraizada nas transformações estruturais impostas pelo neoliberalismo ao próprio capitalismo dos EUA ao longo das últimas quatro décadas. A conjuntura internacional atravessa um período de grande instabilidade, marcada pelo agravamento das contradições estruturais do capitalismo mundial e pela ascensão de novas potências. Nesse cenário, Trump é um produto do esgotamento do modelo de globalização neoliberal e da incapacidade da elite tradicional americana de manter a hegemonia dos EUA pelos métodos clássicos.

A política externa dos EUA, durante décadas baseada na expansão militar, na imposição econômica e na construção de uma ordem internacional favorável aos seus interesses, entra em contradição com a nova correlação de forças global. Trump representa uma tendência geral da burguesia norte-americana: a tentativa de reorganizar o imperialismo diante de um mundo que já não pode ser controlado da mesma forma que no período unipolar que se seguiu ao colapso da União Soviética. Durante o início dos anos 1990, os EUA se viam como a única superpotência capaz de ditar as regras do sistema internacional. Esse período alimentou sonhos de dominação ilimitada, expressos em doutrinas como a chamada Doutrina Wolfowitz, que defendia a necessidade de impedir o surgimento de qualquer rival estratégico.

Nesse contexto, Trump se apresenta como um líder político que rompe com a retórica clássica do imperialismo liberal, sem, contudo, abandonar seus pilares estruturais. Seu discurso — sintetizado no lema “America First” — não representa uma negação do imperialismo, mas sim uma tentativa de reconfigurá-lo a partir de uma lógica mais nacionalista e explicitamente predatória. A noção de “Fortaleza América” traduz a defesa de que os EUA reduzam seus compromissos globais, priorizem seu entorno geopolítico imediato e intensifiquem a exploração direta e agressiva dos recursos e mercados situados em sua esfera de influência regional.

Há, de modo generalizado, um reconhecimento implícito de que os EUA já não têm condições de sustentar uma dominação global. A manutenção de centenas de bases militares espalhadas pelo mundo, o financiamento de alianças dispendiosas e a intervenção constante em conflitos regionais tornaram-se um fardo econômico e político. Trump, ao questionar a OTAN, criticar aliados europeus e defender uma política mais unilateral, revela a tentativa de reduzir esses custos e transferir parte do ônus a outras potências.

Paralelamente, a política de Trump não se orienta por um isolacionismo efetivo, mas por um reposicionamento estratégico. A centralidade atribuída ao Hemisfério Ocidental, em uma reatualização do espírito da Doutrina Monroe, expressa a concepção de que os EUA deveriam consolidar sua hegemonia sobre as Américas, convertendo a região em uma espécie de retaguarda (seu quintal) geopolítica a partir da qual poderiam negociar, disputar e, se necessário, confrontar outras potências. A América Latina, o Canadá, o México, o Caribe e mesmo regiões como a Groenlândia são vistos como espaços naturais para seu controle.

O chamado “império do caos” expressa essa nova fase histórica. A antiga ordem internacional, construída sob liderança americana, está em decomposição. Tratados são abandonados, instituições multilaterais perdem autoridade e as grandes potências recorrem cada vez mais à força bruta e à coerção econômica. Sanções, guerras comerciais, bloqueios e intervenções militares tornam-se instrumentos normais da política externa.

Nesse ambiente, a ilusão da “Fortaleza América” aparece como uma tentativa de escapar às contradições do capitalismo global por meio do fechamento nacional. No entanto, a essa estratégia está condenada ao fracasso. A economia americana está profundamente integrada ao mercado mundial. Suas cadeias produtivas dependem de matérias-primas, componentes e mão de obra de diferentes países. Além disso, o capitalismo norte-americano enfrenta contradições internas cada vez mais graves. A desigualdade social atinge níveis extremos, a classe média se empobrece, o endividamento cresce e milhões de trabalhadores vivem em condições precárias. O ressentimento social alimenta a radicalização ideológica e explosões de descontentamento. Trump canaliza parte dessa raiva contra inimigos externos e internos, mas não oferece nenhuma solução real.

No processo histórico, todas as tentativas de resolver crises capitalistas por meio do nacionalismo e do protecionismo acabaram por intensificar os conflitos internacionais. A competição por mercados, recursos e esferas de influência inevitavelmente conduz a choques entre potências. O século XX, com duas guerras mundiais, é apresentado como prova disso. O século XXI, longe de ter superado essas dinâmicas, parece caminhar para novas formas de confronto.

A ideia infantil de que os EUA poderiam se transformar numa fortaleza invencível ignora a própria lógica do capitalismo. A necessidade de exportar capitais, de acessar novos mercados e de garantir matérias-primas empurra as grandes potências para fora de suas fronteiras. Mesmo que Trump deseje reduzir compromissos militares em certas regiões, ele não pode abandonar completamente a luta pela hegemonia sem colocar em risco os interesses fundamentais dos que os sustentam, a burguesia americana.

A crise atual não é mais do que um resultado de contradições profundas do sistema capitalista liberal. O neoliberalismo promoveu a financeirização da economia em escala sem precedentes. Bancos, fundos de investimento e grandes conglomerados financeiros passaram a ocupar uma posição dominante, deslocando o centro da acumulação do setor produtivo para a especulação. O crescimento econômico tornou-se cada vez mais dependente do endividamento das famílias, da expansão artificial do crédito e da formação recorrente de bolhas financeiras, como ficou evidente na crise de 2008. Essa financeirização fragilizou a economia real e aumentou a vulnerabilidade estrutural dos Estados Unidos diante de choques externos.

Paralelamente, a abertura comercial irrestrita e a globalização das cadeias produtivas fortaleceram concorrentes estratégicos, como a China. Durante décadas, a burguesia americana lucrou consideravelmente com a superexploração da força de trabalho chinesa, mas, ao fazê-lo, contribuiu para criar uma potência industrial capaz de disputar mercados, tecnologia e influência geopolítica em escala global. Esse processo teve consequências graves para a posição internacional dos EUA. O país deixou de ocupar a posição de maior credor global para se tornar o principal devedor, acumulando déficits expressivos, aprofundando sua dependência de financiamento externo. O dólar preservou sua centralidade como moeda internacional, porém ao custo de um endividamento público massivo e de uma economia cada vez mais sustentada por capitais estrangeiros. A hegemonia financeira dos EUA tornou-se, assim, a se ancorar mais em sua superioridade militar do que em uma base produtiva.

Internamente, o neoliberalismo produziu uma polarização social extrema. A concentração de renda atingiu níveis comparáveis aos da década de 1920, enquanto a maioria da população viu seus salários estagnarem ou caírem em termos reais. O acesso à saúde, à educação e à moradia tornou-se cada vez mais precário, e amplas camadas da classe trabalhadora passaram a viver sob insegurança permanente. Essa deterioração das condições de vida corroeu o antigo consenso político do pós-guerra e abriu espaço para explosões de revolta, ressentimento e radicalização.

No plano internacional, o neoliberalismo também corroeu os instrumentos tradicionais de dominação imperial. As instituições multilaterais criadas sob liderança americana — como o FMI, o Banco Mundial e a OMC — perderam legitimidade aos olhos de muitos países, após décadas impondo políticas de austeridade, privatizações e cortes sociais que aprofundaram a pobreza e a dependência econômica no Sul Global. Isso abriu espaço para a emergência de alternativas, como os BRICS e os bancos de desenvolvimento regionais, que buscam reduzir a dependência em relação ao sistema financeiro controlado pelos EUA.

Dessa forma, o “império do caos” é inseparável do legado do neoliberalismo. A desorganização da economia mundial, a intensificação das rivalidades entre potências, o enfraquecimento das instituições internacionais e a multiplicação de conflitos regionais são produtos diretos de um sistema que subordinou todas as relações sociais à lógica do lucro e da concorrência. Depois de décadas promovendo a livre circulação de capitais, mercadorias e fábricas, os EUA tentam agora erguer barreiras para se proteger dos efeitos de sua própria política. No entanto, um capitalismo profundamente globalizado não pode ser revertido por decretos ou tarifas sem provocar novas crises, rupturas e conflitos.

Em última instância, a crise do imperialismo norte-americano, longe de ser um episódio passageiro, expressa o esgotamento de um modelo de dominação fundado no neoliberalismo e na globalização capitalista. O mundo entra em uma fase de instabilidade prolongada, na qual as contradições entre potências e entre classes sociais tendem a se intensificar, colocando em questão toda a arquitetura econômica e política construída ao longo das últimas décadas.

Deste modo, o conhecido “império do caos” não deve ser entendido apenas como uma caracterização do estilo de governo de Trump, mas como a expressão de um período histórico marcado pela desagregação neoliberal.  Trump é apresentado como um sintoma, não como a causa. Sua ascensão expressa o colapso do consenso liberal e o esgotamento das formas tradicionais de dominação imperial. A ideia de uma “Fortaleza América” aparece como uma ilusão, incapaz de resguardar a população dos EUA dos efeitos de um sistema em crise e, menos ainda, de oferecer qualquer resposta real aos problemas da humanidade. O mundo entra em uma etapa de confrontos mais agudos entre classes sociais e entre potências rivais, e o desfecho desses processos dependerá da capacidade da classe trabalhadora de atuar de forma independente no cenário histórico.Parte inferior do formulário


*Luiz César Silva é pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto; Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal), Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP, Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. É Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.

Foto de capa: Getty/Getty Images

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Uma resposta

  1. Concordo inteiramente com o Prof. Luiz César Silva, sempre preciso e objetivo. A história, quando vista em perspectiva, sem devaneios reacionários, se mostra claramente diante dos nossos olhos. A visão autocrítica do sistema não deveria depender de ideologias.

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