O Brasil Potência Morreu: um rascunho sem revisão e sem herança!

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Por IGOR VITORINO*

Nós sofremos de falta de autonomia política e econômica. São as definições de cúpulas externas ao nosso país que condicionam sua economia, no que chamamos hoje, teoricamente, de dependentismo modernizado. Isso não significa que os nossos produtos não sejam estratégicos para os Estados Unidos da América-EUA. Apesar disso, Lula e Dilma dissimulam, e as esquerdas passam pano quente, porque se negam propositalmente a reconhecer a dimensão imperialista da economia chinesa – já que não é melhor do que as práticas norte-americanas – e o que ambas significam: a reprodução do nosso capitalismo dependente rentista e extrativista, agora com o novo agravante da economia verde de orientação conservacionista e especulativa, como têm sido as políticas de energia alternativa e os créditos de carbono (com a privatização de áreas, concentração da terra, baixos salários, entre outros desdobramentos). O melhor de tudo é que Trump ajudou Lula a realizar sua promessa de campanha: Trump conseguiu, numa canetada, baixar o preço da picanha! Picanha ou nada!

O Brasil Grande ou Brasil Potência morreu no penúltimo governo militar, de Ernesto Geisel (1974 a 1979), que foi achincalhado por estimular uma política de desconcentração econômica (II PND). Tal ação produziu uma fratura no apoio incondicional do empresariado paulista à Ditadura Civil-Militar brasileira. Geisel ainda encontrou inimigos na política universitária, na política do Proálcool e nas demais ações do planejamento estatal, às quais a Gazeta Mercantil e o Estadão se opunham. Além disso, mexeu no vespeiro político e econômico das máquinas populistas cariocas, com a fusão do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro.

Com isso, aprofundou-se a crise econômica e política, marcada pela inação dos políticos, pela queda acelerada do crescimento econômico, pelo aumento exponencial da dívida pública e pelo retorno da inflação. Instalava-se também a rebelião do empresariado em torno do “mudancionismo”, defendido pelos famosos abolicionistas de última hora de 1988. Além disso, usando terrorismo de Estado, os grupos de extrema direita faziam oposição à abertura política ensaiada pelo governo Geisel, e grupos de esquerda em ascensão usavam “a novidade da bandeira da democracia” (renovação cultural e política e negação do envolvimento da partilha) e a aproximação de parte da imprensa às demandas sociais, econômicas e políticas que marcavam o país. Esses elementos fragilizaram o governo Geisel e seu projeto de Estado Brasil Grande, que ficou marcado na opinião pública, especialmente na pauta econômica, como um desastre econômico e militar, uma ambição megalomaníaca e autoritária que fomentava a construção de uma bomba atômica

Esse projeto de país se perdeu porque, na ânsia de diferenciar-se das ditaduras militares e de apontar que o Brasil seguia para uma democracia, toda a estrutura institucional, administrativa e gestora do desenvolvimentismo brasileiro, iniciado por Getúlio Vargas, foi desmontada sem consulta, avaliações e discussões públicas. O maior exemplo de “jogar o bebê fora com a água do banho” foi a extinção do Banco Nacional de Habitação (1986), sob o discurso de que se tratava de um entulho da Ditadura Militar, um entulho autoritário.

Na realidade, a extinção sem consulta, ignorando todo o debate público sobre o BNH e sua política habitacional, foi a primeira medida de “estado de exceção” dentro da democracia recém-nascida, no interior da República Nova. Um desastre institucional, financeiro e administrativo que fez fortunas de muitos empresários e grupos de pressão no campo da construção civil e da habitação. Esse Brasil Grande foi enterrado e esfarelado quando o novo sol da economia brasileira emergiu e se consolidou: o sol do capitalismo financeiro, do sistema bancário como cabeça da economia. Durante o governo Figueiredo (1979-1984), não adiantou reconvocar superministro, tampouco fazê-lo transitar pelos ministérios do Planejamento e da Agricultura.

Diante de uma conjuntura econômica e politicamente desfavorável, toda a autoridade política, moral, técnica e profissional de Geisel não foi suficiente para fazer o suposto novo “milagre brasileiro”. Saindo do governo, ele teve que enfrentar acusações de corrupção por causa do escândalo da Coroa-Brastel, junto com o ministro da Fazenda Ernane Galvêas (empréstimo da Caixa Econômica Federal ao empresário Assis Paim Cunha em 1981). O império do dólar, os juros bancários, a emergência da Terceira Revolução Industrial, a afirmação do setor bancário brasileiro/financeirização e a suposta inação, bem como as turbulências e indecisões do governo Figueiredo, sentenciaram ao fim o projeto Brasil Grande/Brasil Potência, tão sonhado por militares, especialmente Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel.

Militar, mas de reconhecer que os governos militares deram substância ao projeto de autonomia, industrialização e modernização disparado por Getúlio. Trata-se, ainda, de perceber que esse projeto de Estado e seu planejamento econômico morreram no fim da Ditadura, porque, em maioria, os programas foram considerados entulhos do autoritarismo pelos setores de esquerda, e disfunção econômica pelos setores liberais. Com isso, de fato, não houve um novo planejamento econômico na República Nova; quando há sua evocação nos governos Dilma e Lula, esse planejamento é, na realidade, uma retomada do passado militar (Belo Monte é um grande exemplo). Que os petistas e ditos democratas liberais não leiam este pequeno rascunho!

Nós temos grande chance de reconquistar nosso futuro, mas isso significa passar a contrapelo, como diria Benjamin (“escovar a história a contrapelo”), criar uma ambiência cultural e política de onde possam emergir novas lideranças, culturas organizacionais e práticas de cidadania. O Brasil tem jeito, sim, mas não existe Brasil ano zero, pois sempre partimos de um chão, de uma ruína ou de caminhos já pisados; o novo não nasce do nada. E tudo isso significa promover uma postura de humildade, integridade intelectual e sinceridade geracional entre aqueles que colocam a mão na massa por um novo Brasil Geral. Sem planejamento, não chegaremos a lugar nenhum, nem à esquina da nossa casa. O mercado sozinho e autárquico falha na produção de vida para além do ganho material; é urgente haver outras formas de ação para responder às distorções do mundo do dinheiro, como diria Habermas.


*Igor Vitorino da Silva é professor de História formado pela UFES e mestre em História pela PGHIS/UFPR.

Foto de capa:be-easy

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