O bode está na sala! Endividamento das famílias e avaliação do governo lula 3

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Mas as pessoas na sala de jantar

São ocupadas em nascer e morrer.

Os Mutantes; Panis et Circenses

1. Por que a aprovação do Governo Lula 3 não é maior?

      Há já algum tempo que cientistas sociais e jornalistas vinham se colocando uma pergunta: por que razão a excelente performance da Economia ao longo dos três anos do atual mandato de Lula não se traduzia em índices mais robustos de aprovação do governo e apoio à reeleição do presidente? Mas, a despeito de sua extraordinária relevância, a pergunta permaneceu sem resposta até pouco tempo atrás.

      Em pesquisa realizada e divulgada em março de 2026, a Atlas/Bloomberg detectou 53,5% de desaprovação da atual gestão contra 45,9% de aprovação. E o mais grave: após um curto período de queda, entre julho e setembro de 2025, a desaprovação voltou a crescer, até atingir o patamar referido acima. Mais: a desaprovação é máxima entre os mais jovens: atingindo 72,7% na população entre 16 e 24 anos, e 62,1%, entre aqueles com 25 e 34 anos. Também é extraordinariamente elevada na população com ensino médio – 63,5% – e entre aqueles que auferem renda acima de três e abaixo de cinco mil reais – 60,6%.

      Pergunta-se: as pesquisas são acuradas? São totalmente confiáveis? Evidentemente, não. Mas reconhecer vieses – sejam, ou não, intencionais – não nos permite ignorar os resultados: é preciso, isto sim, interpretá-los. E, acima de tudo, é preciso atentar para as tendências. Mesmo que uma pesquisa em particular contenha problemas metodológicos e/ou vieses, há um limite para o “erro” que é dado pela comparação com pesquisas alternativas; inclusive aquelas realizadas pelo Estado (como a PNAD, que não avalia satisfação com o governo, mas capta elementos de bem-estar) e aquelas encomendadas pelos distintos partidos políticos em disputa. Assim, se os valores absolutos são passíveis de crítica, as tendências tendem a convergir nos diversos levantamentos. Vejamos o que as tendências indicam tomando por referência as pesquisas de opinião de dois institutos: Atlas/Bloomberg (Quadro 1) e Quaest (Quadro 2).

      Quadro 1:

      Evolução da Avaliação do Governo Lula entre janeiro de 2024 e março de 2026

      Fonte: Atlas/Bloomberg

      Quadro 2:

      Evolução da Avaliação do Governo Lula entre fevereiro de 2023 e março de 2026

      Fonte: Quaest

      O primeiro a observar é que os dois institutos de pesquisa adotaram estratégias distintas para divulgar a evolução da avaliação de Lula em suas pesquisas disponibilizadas em março de 2026: a Quaest apresenta dados desde fevereiro de 2023, enquanto a Atlas/Bloomberg parte de janeiro de 2024. Não obstante, a evolução ao longo do período coberto por ambos os institutos é comparável e revela uma dinâmica muito similar, que nos permite identificar 4 fases na evolução da avaliação do terceiro mandato de Lula.

      Ao longo de 2023 e até o fim terceiro trimestre de 2024, a avaliação do governo era essencialmente positiva, com a percentagem de apoio superando a percentagem de desaprovação. Não obstante, a diferença entre aprovação e desaprovação vai diminuído paulatinamente, até se igualarem entre outubro e dezembro de 2024.

      Na virada do ano para 2025, tem início a “Fase 2”, com um saldo negativo na avaliação popular. Essa perda de apoio popular foi claramente identificada pelas lideranças políticas conservadoras do Congresso, que passaram a travar o encaminhamento dos projetos do Executivo. Mais: algumas dessas lideranças passaram a anunciar a provável derrota de Lula em 2026, dando início a movimentos para se retirar do governo e adotar uma postura francamente oposicionista (veja aqui, aqui e aqui).

      Porém, na segunda metade de 2025, a tendência voltou a infletir, e a aprovação do governo apresentou alguma recuperação. Esse movimento parece ser indissociável das tarifas de Trump e da postura diplomática, mas firme, do Governo Lula; em franco contraste com o entreguismo antinacionalista da direita bolsonarista. Simultaneamente, o governo – a partir da mobilização dos partidos e organizações sociais de sua base de apoio – deu início a uma forte campanha midiática em prol da reforma tributária, que havia sido paralisada pela resistência do Congresso (veja-se aqui e aqui). Com o crescimento da aprovação de Lula, a mobilização foi bem-sucedida e o governo emplacou sua proposta de reforma tributária em dezembro de 2025.

      Mas o alívio foi curto. Já em dezembro de 2025 tem início a Fase 4: a percentagem da população que desaprova o governo voltou a superar a percentagem daqueles que o aprovam. E, de acordo com os dois institutos de pesquisa, a diferença entre desaprovação e aprovação vem aumentando mês após mês. Esta nova inflexão é indissociável da postura crescentemente crítica da mídia conservadora ao governo. Um movimento turbinado pelo escândalo Master e pela cobertura viesada dos resultados da CPMI do INSS. Mas isso não é tudo. Há mais, muito mais. Analisemos a questão de perto.

      1. O descompasso entre as estatísticas econômicas e a percepção de bem-estar da população de baixa renda  

      Não é gratuito que a performance nada alvissareira da avaliação de Lula tenha surpreendido a tantos. Pois as estatísticas econômicas são muito positivas. E não estou falando das taxas de crescimento do PIB; seja porque o povo não come PIB (como gostava de lembrar a saudosa Conceição Tavares), seja porque o desempenho do PIB foi apenas razoável. Estou me referindo àquelas estatísticas que dizem respeito diretamente à qualidade de vida e de inserção da classe trabalhadora no processo produtivo. Vamos a elas. Começando pelos dados de ocupação, apresentados no Quadro 3, abaixo.

      Quadro 3:

      Evolução da Ocupação no Brasil entre 2023 e 2025

      Fonte: IBGE-PNAD Contínua (em milhares de pessoas)

      Entre 2023 e 2025, o Brasil criou mais de 7 milhões de postos de trabalho, retirando mais de 3 milhões e setecentas mil pessoas do desemprego. A taxa de desemprego caiu para o seu menor patamar histórico: 5,07% da Força de Trabalho, e 81,5% dos novos postos de trabalho são formais (carteira assinada ou Microempreendedor Individual).

      Vale observar que 3,6 milhões de pessoas ingressaram na Idade Ativa (mais de 14 anos) nesses três anos e apenas 355 mil desses ficaram fora da Força de Trabalho (não buscaram ocupação). Essa é a demonstração de que o Bolsa Família e os Benefícios de Prestação Continuada não estão represando a expansão da oferta de mão de obra. Mas estão contribuindo para a imposição de um patamar mínimo de remuneração ao ingressante. E o resultado é que, a despeito do expressivo crescimento da oferta de força de trabalho, a remuneração média do trabalhador se elevou 6,7% em termos reais (vale dizer: descontada a inflação!) nesses três anos, passando de R$ 3.455,00 para R$ 3.686,24.

      Ora, mas se o número de ocupados cresceu em 7 milhões (7,31% do total) e a remuneração média real subiu 6,7% concluímos que a renda de todos os trabalhadores tomados em conjunto cresceu 14,5% nesses três anos; um crescimento médio anual (nada desprezível) de 4,62% a.a. … Como não se surpreender com os baixos índices de aprovação do governo Lula? Afinal, do que a “malta” está reclamando? Observemos o problema mais de perto.

      Em 2 de abril de 2026 Jornal Valor Econômico publicou uma matéria intitulada Consumo e Renda se “divorciam” e intrigam economistas. A matéria continha um gráfico muito esclarecedor, que reproduzimos abaixo.

      Gráfico 1:

      Evolução comparada do Consumo e da Renda das Famílias entre 2012 e 2025

      Fonte: Valor Econômico (IBGE e Bacen)

      A linha amarela é a dos rendimentos pessoais, calculados pelo Banco Central em consonância com o Sistema de Contas Nacionais do IBGE. A principal base de dados é a PNAD, mas eles são calibrados com informações oriundas do sistema bancário, da Receita Federal e do Sistema Previdenciário, com vistas ao cálculo dos rendimentos disponíveis (líquidos de impostos) totais (inclusive rendimentos extraordinários, como Auxílio Emergencial, seguro-desemprego e saques no FGTS).  O rendimento é denominado “restrito” porque exclui os ganhos de capital (lucros, dividendos, aluguéis, juros de aplicações financeiras), focando na evolução da renda apropriada pelo segmento da população com maior propensão a consumir (trabalhadores ocupados e beneficiários de aposentadorias, pensões e demais transferências governamentais).

      O que se observa é uma evolução simétrica, altamente correlacionada, entre consumo das famílias e rendimentos até o ano de 2018. Nos anos da Covid (2019-20), os rendimentos cresceram acima do consumo das famílias; e em 2021 as duas variáveis voltam a convergir. Mas a partir do início de 2022 abre-se a “boca do jacaré”: o rendimento líquido restrito passa a crescer a taxas muito superiores ao consumo. O gráfico foi construído com números-índices e a referência (100) é o ano de 2019. Entre 2019 e 2025 a renda real – vale dizer: descontada a inflação – das famílias cresceu 29%, enquanto o consumo cresceu apenas 12,6%. Por quê?

      3. Como o bode entrou na sala?

        Como não poderia deixar de ser, os primeiros agentes a perceberem o descompasso entre crescimento da renda e crescimento do consumo foram os dirigentes lojistas. De forma distinta e em momentos distintos as associações nacionais e regionais do Comércio passaram a promover e financiar estudos com vistas a entender a raiz do problema. E em janeiro de 2025 a Confederação Nacional do Comércio lançou o Panorama das Bets, com as seguintes conclusões:

        1. Famílias brasileiras apostaram em torno de R$ 240 bilhões em 2024, segundo estimativas do Banco Central do Brasil;
        2. Por causa do crescimento das Bets, varejo deixou de faturar R$ 103 bilhões em 2024;
        3. 1,8 milhão de famílias brasileiras entraram em situação de inadimplência apenas no ano de 2024 por conta das Bets;
        4. Famílias de menor renda foram as que mais sentiram a inadimplência por causa das Bets, saindo de 26% de inadimplentes em jan/2024 para 29% em dez/2024.

          As Bets são sites de apostas (jogos de azar) on line. Elas nasceram junto com a internet, mas só ganharam expressão no Brasil em meados da década passada, após o Golpe do Impeachment de Dilma. Temer fez vista grossa para sua difusão e, no apagar das luzes de seu (des)governo, as legalizou, sem, contudo, regulamentá-las.

        No governo Bolsonaro, elas apresentam um crescimento astronômico, sem que a projetada regulamentação saísse do papel Apenas em dezembro de 2022, Bolsonaro enviou para o Congresso um projeto de lei com essa função O projeto, no entanto, não impunha qualquer restrição efetiva ao crescimento, propaganda, tributação e controle público dos “cassinos on line”. Era uma regulamentação para inglês ver.

        Lula acabou sancionando – com poucas modificações – a lei proposta por Bolsonaro, adiando a questão da tributação da jogatina para 2025. Por que Lula não tentou aprofundar os mecanismos de controle? Porque, entre 2015 e 2023, o lobby do segmento cresceu na mesma velocidade dos recursos amealhados pelo sistema. Para além dos proprietários e gestores dos “cassinos on line”, as Bets passaram a contar com o apoio militante de agentes que prosperavam e auferiam polpudos rendimentos com a expansão do sistema: do crime organizado (que as utiliza para a lavagem de dinheiro) a influencers regiamente pagos para divulgar os sites de jogatina, passando pelos times de futebol (que encontraram nas mesmas uma nova fonte de financiamento) e pelo sistema financeiro, que passou a movimentar (e, por vezes, a contribuir para a “higienização” de) parte dos recursos apropriados nos cassinos.

        O resultado mostrou-se trágico: em 2025, o Brasil tornou-se o quinto maior mercado mundial de jogos via internet. Pior ainda: com um sistema de pagamentos on line extremamente eficiente e sem ônus (o pix), uma renda per capita relativamente baixa e extremamente concentrada, com amplo acesso à internet e ampla liberdade de propaganda para os jogos de azar, o Brasil tornou-se o país com maior comprometimento percentual da renda mensal com jogos entre os estratos da população de rendimento médio e baixo (veja-se aqui e aqui).

        Em 2024, as associações comerciais tomaram consciência do problema. Em 2025 foi a vez de outras associações de empresários dos Serviços. Ao se deparar com a abrupta queda de demanda para ingresso no Ensino Superior, a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior contratou uma pesquisa para entender as causas da inflexão. E a conclusão foi de que um terço dos jovens que intencionavam ingressar no sistema desistiu pela impossibilidade de arcar com as mensalidades: razão? Alto endividamento derivado das persas oriundas de apostas em jogos on line.

        Não pode haver sombra de dúvida de que nos encontramos numa situação de “pandemia”: quando o dispêndio com jogos passa a comprometer os dispêndios com consumo (alimentação, vestuário etc.) e com educação não se pode mais falar em entretenimento. Trata-se de vício e doença social. Voltaremos a essa questão mais adiante. Antes, precisamos entender qual o papel dos juros escorchantes no comprometimento da renda familiar.

        4. O Endividamento impagável

        A descoberta do papel das Bets na dissociação crescente das dinâmicas da renda e do consumo no Brasil foi, sem dúvida, um grande avanço. Mas é preciso não perder de vista um outro componente que é, no mínimo, tão relevante: os escorchantes juros de empréstimo pessoal no Brasil. O descolamento inicial entre renda e consumo pode até ter se originado no novo “Vício Brasil”. Mas esse descolamento foi aprofundado na medida em que as dívidas iniciais se tornam impagáveis no Brasil atual.

        Quais são os mecanismos de “financiamento” à disposição dos assalariados? Em primeiro lugar, encontram-se o cheque especial e o cartão de crédito. Ora, os juros médios do cheque especial encontram-se na ordem de 150% ao ano, podendo atingir até 320% ao ano. E os juros do cartão de crédito extrapolam os 400% ao ano. Existe a opção do crédito consignado, onde as taxas são menores. Mas só mesmo no Brasil podemos considerá-las “razoáveis”. A menor taxa disponível volta-se ao financiamento de aposentados. O juro anual dessa linha na Caixa Econômica Federal é de 24,6% ao ano; vale dizer: em torno de 20% real a.a. descontada a inflação. Para trabalhadores ativos, as taxas bancárias do empréstimo consignado em bancos privados ultrapassam os 50% ao ano. Em qualquer país do mundo, taxas reais acima de 12% ao ano são consideradas usurárias. Menos no Brasil.

        O mais interessante é que um dos principais compromisso de campanha do Presidente Lula em 2022 foi o de enfrentar o elevado endividamento das famílias, com o Programa “Desenrola, Brasil”. E, de fato, ele foi operou e contribuiu para “limpar o nome” de inúmeros endividados. Mas o fez dentro de um arcabouço essencialmente ortodoxo e conservador. A taxa de juros para refinanciamento dos inadimplentes com renda até dois salários-mínimos e/ou participantes do Cadastro Único girava em torno de 25% ao ano. E para os devedores de faixa de renda superior, as negociações eram mediadas pelos agentes financeiros públicos, mas recontratadas com os agentes financeiros originais. E as taxas de juros, nesse caso, eram similares às praticadas no consignado: até 50% ao ano.

        A grande vantagem do “Desenrola” eram os descontos para as dívidas vencidas. Mas é preciso entender bem esse mecanismo. Os bancos e financeiras contam com um fundo para cobrir a inadimplência média e previsível. Esse fundo, cobre as dívidas não pagas, e boa parte das dívidas refinanciadas já haviam sido cobertas pelo fundo. Ou seja: concedia-se um desconto sobre uma dívida que já não se encontrava mais no balanço das instituições financiadoras. Mais: com os juros escorchantes praticados no Brasil, uma dívida de R$ 100,00 pode-se transformar em R$ 300,00 em um ano. Conceder um desconto de 2/3 do valor é exigir o pagamento de toda a dívida inicial. Mais os juros do refinanciamento.  

        Isso não desmerece o programa. Mas revela, sim, suas limitações. Que devem ser adequadamente apreendidas para que se possa entender por que o terceiro mandato de Lula não conta com índices de aprovação Pergunta que não quer calar: teria sido possível a adoção de um programa mais “heterodoxo”, que operasse com taxas de juros menores? A resposta é: evidentemente sim. Na verdade, houve uma descontinuidade nas políticas financeiras dos primeiros governos do PT. Em Lula 2 e Dilma 1, o próprio BNDES financiava agentes econômicos capitalistas com taxas de juros inferiores à taxa básica do Banco Central, a famosa Selic. Afinal, a Selic é um referencial para atração de capital externo, necessário à equilibração do Balanço de Pagamentos: como o Brasil apresenta déficit crônico em Transações com o Exterior, precisa captar recursos no resto do mundo para honrar seus compromissos e sustentar a taxa de câmbio num patamar adequado ao controle da inflação. Mas a taxa Selic não precisa ser a referência de processos de financiamento de caráter social. Mesmo em Lula 3 – com Haddad na batuta da Economia – o financiamento do programa Minha Casa, Minha Vida opera com juros inferiores à Selic. Por que não se poderia estender essa prática para outros programas?

        5. O que fazer?

        Em primeiro lugar, é preciso romper com o ufanismo e reconhecer que a situação é grave, seja no plano político, seja no plano econômico. Se voltarmos aos Quadros 1 e 2, veremos que – a despeito da breve inflexão em meados de 2025 – há uma tendência clara e persistente de queda no saldo (diferença da % que aprova da % que desaprova) da avaliação. A correlação do saldo da avaliação com o tempo é de -0,53 (sig 0,12) na pesquisa Atlas/Bloomberg e de – 0,79 (sig 0,04) na pesquisa Quaest. Vale dizer: há uma clara tendência de depressão da percentagem dos que aprovam o Governo Lula e elevação da percentagem dos que desaprovam a atual gestão de Lula ao longo dos três anos de mandato!

        Analisamos acima as determinações econômicas dessa insatisfação: o crescimento da renda e do emprego é real, mas ele não vem sendo acompanhado de igual crescimento no consumo e no bem-estar em função do elevado endividamento das famílias. Ao lado disso, emerge uma nova pandemia social: o vício em jogos on line. Para a família que se depara com esse problema, não importa se quem legalizou as Bets foi Temer e não importa se Bolsonaro propôs uma regulamentação que é quase um acinte. O que está na memória de muitas famílias nesse ano eleitoral é que a explosão do vício e do endividamento se deu no Governo Lula. Urge enfrentar esse gravíssimo problema!

        O lado positivo é que a consciência dos efeitos perversos das Bets e das taxas de juros escorchantes transbordaram o ambiente das famílias que vivem esse drama e atingiu as lideranças empresariais dos setores de Comércio e Serviços. Mais importante ainda: o crescimento do vício no jogo passou a ser objeto de preocupação entre pastores e lideranças de algumas Igrejas Evangélicas (aqui e aqui). Vale dizer: cresce a oposição à difusão dos cassinos on line, incorporando segmentos da população que, usualmente, são críticos às gestões petistas. É hora de mobilizar esses segmentos no enfrentamento comum à nova “pandemia social”.

        O primeiro movimento tem que ser a implantação de um novo “Desenrola, Brasil”. Só que, agora, ele terá que operar com taxas efetivamente sociais: vale dizer: com taxas de juros que podem e devem superar a inflação prevista, mas que também devem ser inferiores à taxa Selic. Temos que voltar a fazer política financeira efetivamente heterodoxa.

        É preciso entender, contudo, que ao admitirmos que a origem de uma parcela expressiva das novas dívidas das famílias encontra-se no vício do jogo, qualquer estratégia de refinanciamento esbarra na muralha da inadimplência potencial. Como enfrentar esse problema? A partir de uma ação que transcenda o plano financeira e que envolva um amplo conjunto de instituições e agentes sociais.

        Antes de mais nada, é preciso retomar os preceitos de microcrédito de Muhamad Yunus, o famoso “banqueiro dos pobres”. O que Yunus nos ensinou? Que é possível controlar a inadimplência e financiar agentes que não contam com patrimônio para oferecer como garantias, nem receitas correntes estáveis. Desde que o financiamento seja solidário: ao invés de uma pessoa, o grupo é que responsável pela quitação do empréstimo; pois essa quitação é a condição para que os demais membros possam vir a ser financiados.

        Não existe um modelo pronto e acabado de financiamento solidário. Será preciso montar todo um projeto capaz de se beneficiar das particularidades do padrão de organização social e institucional brasileiro. Mas, do meu ponto de vista, qualquer sistema que venha a ser montado tem que ir além do sistema financeiro público. Se parte expressiva do elevado endividamento familiar contemporâneo deita raízes no vício do jogo, é preciso enfrentar o mal pela raiz: tratando dessa doença social e mobilizando as mais diversas organizações e instituições, do SUS ao sistema de Assistência Social, passando pelas Organizações Populares; inclusive as Igrejas Evangélicas interessadas em participar do combate a esse problema.

        Para além disso, é preciso ter coragem para dar início a uma campanha de combate ao vício do jogo, chamando as Associações Comerciais e o empresariado que atua no vasto Setor de Serviços para participar da mesma. Mais ainda; esse tema tem que ser objeto de campanha pública imediatamente, com vídeos simples, mas chamativos, como aqueles que foram produzidos nas campanhas “Hugo não se importa” e “Taxação BBB”.

        Mesmo que essas iniciativas sejam encaminhadas imediatamente, o reflexo sobre a opinião pública será modesto. Ele se manifestará, inclusive porque o lançamento de um novo programa de financiamento e enfrentamento ao vício do jogo, com certeza, repercutirá nas famílias e nos empresários do comércio. Mas é preciso entender que todas as consequências de um tal programa só emergirão num próximo mandato. Até lá será preciso descer do salto alto, abandonar a arrogância do “já venceu” e entender que será preciso muita campanha, muito diálogo e muita disposição para somar. Ou o Projeto do Brasil Popular e Solidário corre o risco de ser derrotado pelo fascismo … E, pior, dessa vez no voto direto. Sem impeachment e sem prisão de Lula.


        Foto de capa: Carlos Paiva | IA

        Sobre o autor

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        Carlos Águedo Paiva
        Economista, Doutor em Economia e Diretor da Paradoxo Consultoria Econômica.

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