No final das contas, quase todos comem PIB

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“Pobre não come PIB”, advertiu corretamente a economista Maria da Conceição Tavares.

Era um aviso contra a ingenuidade de economistas e estatísticos. A economia podia crescer, os relatórios podiam sorrir, os gráficos podiam subir com elegância — e ainda assim o prato permanecer vazio.

O PIB mede produção.

Não mede quem come.

A frase se espalhou rapidamente. Circulou em seminários, salas de aula e debates públicos como uma vacina intelectual contra o entusiasmo fácil. Crescer não bastava. Era preciso olhar o tempo — e perguntar quem se apropriava do crescimento.

Parecia um lembrete simples.

E era.

Mas o tempo passou e algo curioso aconteceu. O indicador que deveria apenas medir a economia começou, lentamente, a organizá-la.

Hoje o PIB aparece em toda parte. Está nos discursos de governo, nas notas do mercado, nas manchetes de jornal. É tratado como termômetro, bússola e prova de apetite nacional.

Se cresce, celebramos.

Se desacelera, instalamos um inquérito coletivo.

Economistas procuram explicações. Governos anunciam reformas. Analistas desenham cenários.

A economia inteira parece se mover em torno daquele número.

Trabalhamos para o PIB.

Consumimos para o PIB.

Investimos para o PIB.

Até a ansiedade nacional oscila com ele.

O curioso é que o indicador registra tudo com a mesma frieza contábil.

Uma fábrica nova aumenta o PIB.

Um hospital lotado também.

Um congestionamento interminável movimenta combustível, manutenção e horas de trabalho — logo, contribui para o PIB.

Uma enchente destrói riqueza, mas eleva a atividade econômica quando chega a reconstrução.

Nas contas nacionais, prosperidade e desastre entram na mesma planilha, somados com a mesma elegância técnica.

Enquanto isso, atividades essenciais continuam invisíveis.

Cuidar de uma criança em casa não entra no PIB.

Cuidar de um idoso tampouco.

Preparar comida para a família desaparece da contabilidade nacional.

Mas basta transformar o mesmo gesto em serviço pago para que ele passe a existir economicamente.

É como se a vida precisasse atravessar um caixa registrador para ser reconhecida.

A economia contemporânea tornou-se extremamente eficiente em transformar tudo em algo mensurável. Serviços chamam serviços. Plataformas intermediam plataformas. Intermediações multiplicam intermediações.

Em muitos momentos, o sistema parece girar sobre si mesmo — produzindo movimento, registros e faturamento.

Produzindo PIB.

Nada disso significa que o indicador seja inútil. O PIB continua sendo uma ferramenta poderosa para entender a escala da atividade econômica.

O problema começa quando esquecemos que ele é apenas isso:

uma medida.

Não um cânone civilizatório.

Ainda assim, pouco a pouco, o número ganhou vida própria. Políticas são desenhadas para acelerá-lo. Reformas são justificadas por ele. Expectativas se organizam em torno dele.

O indicador tornou-se personagem.

E, como todo protagonista, passou a influenciar a história que deveria apenas narrar.

Maria da Conceição Tavares continua certa: pobre não come PIB — pelo menos no curto prazo.

Mas há uma nuance que o tempo revelou.

Quando uma economia cresce de forma sustentada, por anos seguidos, a paisagem muda. Empregos aparecem. Rendas circulam. O prato finalmente recebe algo além das promessas estatísticas.

Nesses momentos, o crescimento deixa de ser apenas um número.

Maria da Conceição Tavares continua certa: pobre não come PIB.
Mas quando o crescimento se prolonga por tempo suficiente, algo curioso acontece:
uma parte dele finalmente chega ao prato.


Foto de capa: A economista Maria da Conceição Tavares em seminário em 2003 | Roberto Stuckert Filho – PA – A

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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